Nossa última aventura
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

Ninguém precisa ser um Indiana Jones pra viver uma aventura. 
Sair na louca do estado de São Paulo num onibus atravessando à
noite e sob chuva as montanhas de Minas Gerais para visitar locais e
parentes que você não via há mais de 40 anos, é uma gostosa e 
gratificante aventura. A Adrenalina não sobe, mas assim 
mesmo as emoções permanecem em alto grau!

Por Sérgio Rodrigues Ferraz



Meu irmão, Abiezer, embarcando no onibus em Santa Gertrudes, SP...O início da aventura

Um de 60 acompanha um de 70 pra visitar um de 80...

 Eu jamais esperava voltar a Minas Gerais. Aos 60 anos de idade e sem um gato pra puxar pelo rabo, eu já havia apagado em meu peito o sonho de voltar a Minas. Mas, sem esperar, de repente, meu irmão Abiezer, de 70 anos na época, e morando em Campinas, SP, ligou para mim em Barra Bonita, me convidando para ir com ele para Minas em dezembro, para passarmos o Natal lá com nosso primo Tota (Antonio Rodrigues Neto) e visitar outros primos na região de Ipanema. Era 22 de dezembro de 2010 e fomos até Santa Gertrudes, SP, onde mora uma punhado de primos nossos e dali embarcamos no onibus da empresa Mutum Preto, que faz o trajeto entre Santa Gertrudes e Ipanema, direto! 
  Eu, durante a semana anterior à viagem e na hora do embarque, parecia estar perdido num sonho. Estava muito feliz e até cheguei a brincar com meu irmão. Meu primo Tota estava com 82 anos na época e eu disse: - Puxa, olha só, mano. É um de 60 acompanhando um de 70 para visitar um de 80! – Demorou um pouco pra “cair a ficha” dele, mas logo começou a rir, dizendo: - É verdade, rapaz!

Da Bahia para Minas Gerais, com escala
no Rio de Janeiro para nascer meu pai


Salvador - Bahia

 Meus avós, João Faustino Câmara e Antonio Rodrigues Ferraz, são de Ilhéus, Bahia, assim como minha avó Maria Rabelo Câmara. Minha avó materna, Rosalina Schwenk, não fiquei sabendo de onde veio, mas era descendente dos Schwenk vindos da Alemanha e radicados no Estado do Rio de Janeiro.
  Naquele tempo na Bahia, ou você plantava cacau ou trepava nos coqueiros ou ainda podia ser jangadeiro. Nada disso interessou aos meus futuros avós, pois as terras de plantação de cacau já estavam todas ocupadas e coco e mar acho que não faziam a cabeça deles. Assim, não deu para mim saber tudo, mas meu avô Antonio casou com Maria Rabelo, irmã do avô João que casou com a alemã Rosalina. O problema foi quando meus pais nasceram. Minha mãe resolveu de casar com meu futuro pai, filho de Antonio, que já era tio da minha mãe. E o pai da minha mãe, João, por sua vez, era sogro do Antonio e tio do meu pai...Deu pra entender? Eu não entendo direito até hoje...
  Bem, os dois casais sairam da Bahia e aportaram no Rio de Janeiro. Meu avô antonio foi morar no local chamado Morro do Cantagalo, onde nasceu meu pai. Assim, fiquei com três avós baianos, uma avó alemã e teria um pai flamengo, já que nascera no estado do Rio. Minha mãe nasceria depois, em Minas Gerais mesmo, onde também nascemos meu irmão e eu.


De volta à terra de Tiradentes
 

  E assim lá fomos nós ao encontro do passado. Confortavelmente instalados nos bancos do onibus da Mutum Preto, que é uma empresa do Espírito Santo, nós fomos tentando apreciar a paisagem...Iam dois onibus da empresa, para o caso de quebra. Chovia tanto que a gente não enxergava nem o onibus da frente. Quanto mais alguma paisagem! O que a gente percebeu é que já havia entrado em terras mineiras. As velhas e austeras montanhas comprovavam isso. Eram enormes vultos nos acompanhando e os onibus iam bem devagar, com muito cuidado, pois onde existem grandes montanhas, consequentemente existem também grandes precipícios!
 
 

Os dois motoristas do nosso onibus: Valder Zumach  e
Genivaldo Nicolino  e o restaurante de Zumach em São José do Mantimento

  Depois de uma tarde chata, olhando apenas a chuva e o vento fustigando as janelas do onibus, tivemos uma noite horrível, escura e com chuva, só pra contrariar. Quando passamos perto de Ouro Fino, local que faz parte do Circuito das Águas, projeto turístico lá das Minas, meu irmão berrou: - Olha o menino da porteira! – E eu, olhando para a escuridão total lá fora, perguntei aflito: - Onde? Onde?...
  Mesmo assim, rápido no gatilho...quer dizer, no obturador da câmera, consegui tirar a foto. Com o onibus a uns 70km/h, chuva e escuridão, saiu um pedaço da porteira e as pernas do menino, ícone da famosa música de Teddy Vieira. Bem, pensei com raiva, depois pego na Internet...Mas, a bem da verdade, não tem nada como o natural, nada como aquilo que você faz e não os outros. Eu queria a minha foto do Menino da Porteira...fiquei na saudade.

Chegando em São José do Mantimento e indo pra Ipanema


Ponto de baldeação de onibus 

   Depois do chamado Circuito Malha Sul de Minas e Circuito das Águas, que englobam Jacutinga, Ouro Fino, Monte  Sião, Borda da Mata, Inconfidentes, Pouso Alegre e outros municípios, chegamos em São José do Mantimento, parada obrigatório de todos os onibus, pois ali se fazia baldeação dos passageiros para outros destinos que não o nosso. Nossa mãe, Percide Câmara Ferraz havia nascido naquele local e tinhamos também primos morando ali. Então, além do prazer de estar respirando os ares das históricas montanhas da nossa terra, também sentíamos uma grande afinidade com Mantimento. 
  Cerca de 2 horas da tarde daquele mesmo dia, já com um morno e delicioso sol aquecendo nossa Minas, chegamos em Ipanema, onde morava nosso primo Tota e família e que já nos aguardava. Em Ipanema também havia morado nosso tio Ismael, irmão do Tota, que era casado com nossa tia Delvira, irmã da nossa mãe. Olha a embrulhada à mineira de novo! Tio Ismael era cunhado e sobrinho da nossa mãe e nosso tio e primo...Haja!
  Infelizmente, assim como nossos tios Ismael e Delvira e primo Tota, outras pessoas queridas citadas nesta aventura minha e do meu irmão, já partiram para o outro lado, como a a prima Izabel, esposa de Athaydes e Francisca, esposa de Eliezer, ambas primas nossas pelo lado materno, que é o Câmara. 
  Tota, apesar dos seus 82 anos à época, ainda deu tempo de vermos forte e bem de saúde. Tota era casado com Anete, pai de três filhas e um filho e dois netos. Foi caminhoneiro desde que me conheço por gente. Viveu pelas estradas, comeu poeira e bebeu aventuras numa época em que poucas estradas eram asfaltadas e uma viagem de um ou dois dias hoje, poderia levar até um mês naquele tempo. Lá mesmo em Ipanema, encontrei  Francisco Moreira do Prado, amigo de estrada do Tota desde 1948. Brincalhão, ele se referia até meio poeticamente à coragem dos caminhoneiros do tempo deles: “A chuva a gente fazia voltar pro céu e raio a gente mandava parar”, dizia  rindo.

Primos de São José do Mantimento



  Eu, procurando um café, andando meio curvado depois de tantas horas sentado e, na sequência,  rua de São José do 
Mantimento onde moram primos nossos e, na última foto, voltamos a Mantimento com Tota pra ver nossos primos dali. Do nosso lado materno, eles são Athaydes Faustino Câmara e Izabel de Souza Câmara, que infelizmente partiu para o outro lado depois de uns 2 anos que lá estivemos. E, na foto, perto da Izabel, sua filha, Loenes Câmara, nossa linda, corajosa e guerreira priminha.

Uma terra de histórias e povo culto


Ipanema, nosso destino final

  Ipanema surgiu em meados de 1800, contando com a chegada de José Pedro de Alcântara às margens de um rio. A região era antes habitada pelos índios aimorés. Considerando Alcântara o desbravador do futuro município, o mais conhecido  rio da região, o José Pedro, recebeu o nome em homenagem a ele. Os municípios que se desenvolveram depois e que fazem limite com Ipanema, são Inhapim, Caratinga, Simonésia, Conceição do Ipanema, Taparuba e Pocrane. Outros municípios oriundos da criação de Ipanema, são Mutum, Lajinha e Chalé. Pocrane vem do nome de um cacique aimoré e Ipanema, também indígena, significa “Águas turvas do rio sem peixe”. Ipanema tornou-se município em 1912, portanto já é emancipado politica-administrativamente há 104 anos.


 
 

O boneco de neve do Natal é prova de um povo culto. Ele foi colocado em praça pública antes do Natal e, dias depois das festividades natalinas, o boneco estava do mesmo jeito. Ninguém jogou pedra, derrubou ou praticou qualquer ato de vandalismo. Outra prova da cultura do município, é que é proibido às mulheres lavarem suas calçadas e quem tem carro tem que levá-lo ao lavador. Não pode lavar em casa.
 
 



Meu primo Tota



Em Ipanema, a casa do Tota e parte de sua família. Na foto, Anete, Tota e as filhas Vanderléia e Rosângela e os 
netos Natan e Gislene. Abaixo, Tota leva meu irmão para conhecer a Igreja Batista de Ipanema, que completara 106 anos! E, para recordar, o convite de casamento do meu primo e Anete, guardado com carinho desde 1958...

 Angelim e a fazenda do Tota

    Hoje, uma 3a feira, à tarde, Tota pegou seu carro e nos levou até sua fazenda, nos arredores de Ipanema. A fazenda pertenceu ao pai dele, Antonio Rodrigues Filho (tio Nico) e depois a ele e aos irmãos. Local lindo e, para um mineiro, tudo em Minas é lindo. Tota, além de um pomar que dá frutas que nem ele sabe o que é, aluga os pastos da fazenda para outros criadores de gado.

Foto-legenda - Passando pelo local conhecido por Angelim, onde ficavam as fazendas dos nossos avós e o sítio do 
nosso pai (foto acima) e onde nasceram 6 irmãos meus, sendo que 5 morreram ainda bebês, meu irmão se emocionou
às lágrimas,  lembrando o passado e os passeios numa velha bicicleta entre as terras dos Câmara e Rodrigues...


Primeira foto, terras da fazenda do vô Antonio Rodrigues e, ao lado, as terras da fazenda do
vô João Câmara. Abaixo, a fazenda antiga, do tio Nico (e que pouco mudou) e agora do seu filho Tota

Fotos rio José Pedro, seleiros e primos visitados

  Um dos dias que Tota levantou mais animado que a gente, fizemos uma tournê a pé por Ipanema, o que deu para conhecer bem a cidade, na época com cerca de 18 mil habitantes. Fomos caminhando e eu fotografando tudo o que podia, até finalizarmos o passeio sobre uma ponte sobre o famoso Rio José Pedro, que por causa das chuvas estava cheio e lamacento...mas assim mesmo lindo! Aproveitei e fotografei um charreteiro que vinha da zona rural para a cidade com seu filho. 
 Voltando pelas ruas da cidade, encontrei dois seleiros: o Antonio Rocha, mais conhecido como Nenê e que colocou o nome Nenê Selaria, e Deley de Assis, de 37 anos de idade. Deley trabalha com couro , cintos e selas desde os 12 anos de idade. Seu estabelecimento se chama Selaria do Deley e, além do fabrico manual, ele também faz consertos. Como lembrança do início da profissão, ele tem um cincerro, usado como sinalizador no pescoço de vacas e mulas madrinhas, as que vão à frente da tropa. O sinete serve para encontrar a vaca, em caso de perda e para atrair a atenção da tropa de burros, no caso da chamada mula-madrinha.
  Já o seleiro Nenê tem 40 anos de experiência no ramo e fabrica cintos, selas, arreios para charrete e mais o que o cliente precisar, dentro daquela área de trabalho manual com couro e metais. 
 Voltando, fomos conhecer nossos primos Benvindo Bonifácio, caminhoneiro casado com Lindomar Rodrigues, filha do nosso tio Osório. E depois,  os primos Geraldo Costa Rodrigues e Maria das Dores Araujo Rodrigues
 


Acima, Deley de Assis em sua selaria e depois, Antonio Rocha (Nenê), na máquina e a frente da selaria. 
Nas três fotos abaixo, coleção particular de Deley,  o cincerro, um estribo de acabamento meticuloso 
e um peitoral de cavalo, de 1945. As outras peças são tão antigas que não aparece (ou não colocaram) data.

 

Nossos primos Benvindo Bonifácio, caminhoneiro casado com Lindomar Rodrigues, filha do nosso tio Osório, à esquerda e, depois,  os primos Geraldo Costa Rodrigues e Maria das Dores Araujo Rodrigues, ao lado dos inseparáveis Tota e Abiezer...

Oh, Minas Gerais...

Como seria doce morrer no mar, cantou Caymmi

  Estou em Minas Gerais. Depois de longos anos, estou na minha terra, em casa dos meus parentes...Hoje está fazendo 4 dias que estou aqui. É quase uma hora da manhã e saio até a área da frente da casa para fumar. Sentado numa cadeira de espreguiçar, olhei a rua silenciosa e deserta e pensava meio incrédulo se realmente estava ali, numa manhã fria, olhando uma rua da minha Minas.
  Estava muito longe de São Paulo, a terra do café antigamente e hoje terra da cana-de-açúcar. Eu estava na minha terra, terra do gado leiteiro, do queijo, da broa, do fogão à lenha ainda. Terra dos meus avós e dos meus pais. Parecia uma estranha viagem ao passado.
  Mas neste quarto dia, estranhamente não veio aquele êxtase do sentimento da volta ao lugar que nasci. Fiquei quieto novamente, como nas noites anteriores, e pensei que estava em Minas Gerais, mas não estava só. Comigo tinham vindo meus pesadelos, meus temores...sim, eles estavam ali comigo!
  E eles, naquela noite, me fizeram sentir que mesmo que estivesse em Marte ou Saturno, eles estariam ao meu lado. Absorto, passei a pensar que aquela rua deserta e meio que na penumbra, era igual a tantas outras ruas também escuras e desertas de outras cidades. Vi que as casas mal iluminadas eram iguais as outras coisas dos outros lugares, fosse em Minas ou em São Paulo ou Santa Catarina...Eram casas com telhados, quadradas ou retangulares, grandes ou pequenas, pintadas de cores diferentes e com gente dentro delas, tal qual toda casa habitada. As árvores à noite também eram iguais. Também pensei nas pessoas. Claras ou morenas, gordas ou magras, ricas ou pobres, eram iguais às pessoas de outras terras.
  Enfim, joguei o cigarro fora e cheguei à conclusão que tudo era igual, em São Paulo, Minas ou Nova York. Até meus traumas e pesadelos...Daí, meio aborrecido com aquela constatação, levantei-me da cadeira e fui até às grades da área e olhei a rua de uma ponta à outra. E então uma brisa fria e perfumada, vinda das montanhas, me lembrou do grande detalhe: havia, sim, uma enorme diferença, que eram justamente as montanhas. 
  Olhei para os picos das altas montanhas que se sobressaiam cortando o céu com seus contornos e lá do alto, mesmo na madrugada, pareciam estar olhando para a adormecida Ipanema, quais sentinelas alertas. Senti aquela brisa, olhei as silhuetas destacando no escuro céu e, esboçando um sorriso, pensei comigo...Sim, esta é a diferença! Dorival Caymmi cantou que era doce morrer no mar, no seu mar na Bahia. E eu sentia também que seria doce morrer no alto de uma montanha. Só, sem ninguém ouvir lamentações de ninguém. Só queria a brisa cantando para mim, acariciando meu corpo morimbundo.
  Ah, como seria doce morrer nas montanhas, sim, na paz de uma montanha solitária da minha Minas Gerais!


Bananal, meu  pequeno e inesquecível torrão natal

  Após conhecer novos parentes e saber que as nossas famílias cresceram, diversificaram e se espalharam por toda aquela região da zona da mata e até além dela, marcamos um dia que parasse de chover para irmos até Bananal, a vila onde nasci e onde tinhamos primos também.
  Mas não parava de chover. Não era tempestade, mas eram chuvas interruptas, que estavam alagando todas as partes de vales. E Bananal, que já tinha o nome de Professor Sperber, por causa das famílias alemãs que por lá passaram, ficava em nível mais baixo. Desde quando eu era criança, na época de chuvas, meus primos e eu tínhamos como atração principal ir assistir caminhões atolarem no local chamado até hoje de Morro da Maria Laia, que era uma fazendeira dali e o terreno íngreme ficava em suas terras. Nem com reza brava um caminhão subia aquele morro. O jeito era parar e aguardar uma estiagem, para assim mesmo colocar as correntes nas rodas e tocar viagem. E é assim até hoje...
  Bem, como tudo que sobe tem que descer e tudo que desce tenta subir depois, assim, naquela época era difícil achar alguém disposto a colocar o carro naquele atoleiro. Nosso primo Tota queria esperar secar...mas a gente estava vendo que a chuva não parava e estava chegando a hora da gente voltar para São Paulo. Assim, conversarmos com Nenê Gago, vereador na Câmara Municipal de Ipanema e taxista na Praça Municipal de Ipanema. E não é que ele topou? Cobrou mais caro, mas topou. 
  Assim, pulamos para dentro do seu Uno e lá fomos para Bananal. Até certo ponto dava para ver o cinza do asfalto. Depois começou a ficar amarelo-lamacento, até o asfalto ficar para trás. Pouco depois chegamos no topo de um morro. Não era o da Maria da Laia, mas assustava assim mesmo! O motorista desceu, coçou a cabeça e ficou olhando. Veio um carro, agarrou e teve que voltar. Daí apareceu lá no pé do morro um fusquinha branco. O motorista disse para nós, que também havíamos descido do carro pra ver a situação: - Se aquele fusquinha subir, eu desço! Pois se ele sobe nesse barreiro, meu Fiat também sobe! – Disse resoluto.

  E a gente ficou olhando, o fusquinha veio comendo barro, como um dançarino, ia pra lá, o motorista corrigia a direção e ele vinha pra cá e assim veio até o topo do morro, como se tivesse um Ayrton Senna na direção! Não era o Senna. O motorista era um velhinho, cabeça branca, pescoço esticado de olho na estrada e, sem piscar um olho, passou batido. Olhamos abestados um para o outro e começamos a rir. A gente, além de ficar fascinado pelo fusca e seu motorista, aprendemos a “manha” observando o que ele fez. O outro motorista, com carro mais potente, veio à toda no pé do morro e entrou com tudo no barreiro. Rodou, agarrou e teve que dar meia volta; o velhinho entrou no barreiro devagar, sem acelerar, só na “casquinha” e foi levando seu carro até o topo.
  Nenê Gago se animou e disse para a gente subir no carro que Bananal nos esperava! Descer é fácil...basta não acelerar e manter o carro na trilha. Não é muito difícil. Subir é que poderia não ser tão fácil como o “velho piloto de rally” fez...Iríamos ver depois!
 
 

Qualquer "barbeirada" maior, o carro poderia derrapar e cair nas águas do rio 
José Pedro, perigosamente ao lado do lamaçal. E meu irmão, já seguro depois 
na casa do Tota, dá uma de "herói" mostrando restos do barro vermelho nos pés...

Incrível que a vila pouco mudara 
desde  que eu saira de lá há 56 anos!

O vereador e taxista Nenê Gago, posa ao lado da Mocinha, a filha da fazendeira
Maria Laia e dona do único cartório de Bananal, inaugurado em 1962. O lugarejo, em
homenagem aos pioneiros alemães que por lá passaram, passou a se chamar Professor Sperber

A praça central (e única). Antes era assim mesmo, só que não era arborizada e pouco à frente
da Igreja Católica ficava um grande cruzeiro...Meu pai ajudou a fazer o cruzeiro, 
sem serra, sem nada, apenas desbastando a madeira no machado...


Esta é a mesma rua do alto da matéria sobre Bananal, de outro angulo. De um lado entra e do 
outro sai. Meu primo mora neste final, onde também havia a casa de madeira onde nasci...

  O meu Bananal parecia o mesmo! Duas ruas. Uma para entrar e outra para sair. Se muito, uns mil habitantes. O que não tinha no meu tempo eram os paralelepípedos na rua principal. A praça, onde ficava a igreja presbiteriana que a gente frequentava, era a mesma e a igreja católica, na ponta da praça, fora o cruzeiro que não tinha mais, também estava igual! A casa de madeira, onde eu nascera, já não existia mais, o que deu um aperto no peito. Apesar de ter na época apenas 4 anos de idade, eu recordava de tudo. Como bem mais tarde uma pessoa me diria, eu tinha a tal de memória fotográfica. 
  Assim, recordava dos carros de boi e do morro que eles subiam, próximo à fazenda do meu tio Osvaldo Câmara. Recordava a mina d’água onde ia buscar água com minha mãe. A rua onde ficava minha casa era do mesmo jeitinho. Até a casa azul na esquina da praça era igual! Do outro lado, a casa do meu primo, onde sempre foi, faltando apenas o quintal cheio de galinhas que ele tinha, pois comercializava as mesmas na região. Hoje ele também alugava seus pastos para outros criadores, pois era esta, praticamente, a economia de Bananal.


A Igreja Católica. Atrás dela ficava o cemitério, daqueles do tipo Velho-Oeste, abre-se um buraco na 
terra, faz-se o sepultamento, cada um dos presentes joga um pouquinho de terra sobre o caixão 
(eu já fiz isso lá) e uma cruz de madeira é fincada sobre o monturo de terra...
Tão simples quanto era a vida em Bananal.

  Por incrível que pareça, a cidade era mais agitada no meu tempo, por conta das festas na igreja católica (eu fugia da minha igreja) para ir para lá...sem meus pais verem, claro, pois o cinto naquele tempo não era só para segurar calças! E o outro agito ficava por conta de um tal de Bizuca, comerciante e pistoleiro nas horas vagas. No meu pouco tempo lá, da parte que tenho recordação, lembro dele expulsando um homem e sua família de lá a chicotadas...Ninguém sabe porquê e nem se atrevia a perguntar e lembro duas pessoas que ele matou. Uma nos fundos da minha casa, à noite. O sujeito estava saindo da “casinha” ou privada ou wc, e um disparo certeiro tirou sua vida; o outro foi durante o dia. Bizuca ficou na entrada da cidade, sobre um barranco no meio de uns pés de bananas, de tocaia, e quando o sujeito passou montado em sua mula, Bizuca atirou. A bala acertou o sujeito e continuou sua trajetória rua acima, indo até uma venda de tecidos, onde atravessou o braço da filha do comerciante e foi estilhaçar um grande espelho na parede.
  Meu irmão e companheiro nesta nossa última aventura, tinha 14 anos na época e me levou para ver o corpo. O homem, que era muito forte, mesmo baleado, andou cerca de 1000m até cair morto na rua barrenta um pouco abaixo da casa azul que citei. Para quem reclama da demora da polícia hoje, naquela região e naquele tempo, ela demorava uma semana para chegar. Vinham dois soldados num jeep, para fazer um relatório, constar que o morto estava morto e sepultado, não perguntar sobre o assassino, pois todos – inclusive eles sabiam, e subiam no jeep e iam embora.

A fundação da igreja presbiteriana

 Em meados de 1940, a família da minha mãe veio de Angelim para Bananal e na casa da fazenda do irmão dela, meu tio Osvaldo Câmara, foi aberto um ponto de pregação da igreja presbiteriana de Conceição do Ipanema, onde havia reunião uma vez por mês. Depois, com o aumento de membros, a igreja de Conceição comprou uma casa em Bananal, que usou por um tempo, até construir o templo atual, inaugurado pelo meu primo, presbítero David Câmara, em 1954. Naquela época de pioneiros, a igreja era frequentada por doze famílias, num total de 81 pessoas entre homens, mulheres e crianças. Meu irmão e eu estávamos nesse grupo. Ele, com 14 anos de idade e inteligente, já trabalhava na igreja como secretário, e eu, com 4 anos, apenas enchia o saco de todos...

A casa do primo Eliezer, nosso último parente em Bananal

 Ele é nosso primo pelo lado materno também. Primo e amigo de infância do meu irmão, os dois tinham um grande carinho um pelo outro e foi emocionante o reencontro deles. Tota era nosso "herói", já que toda a molecada naquela época queria ser caminhoneiro como ele. E o Elizer, amigo de correr de vaca brava junto com meu irmão.. O Tota e o Rubão, seu irmão, eram nossos heróis mesmo, e meu tio preferido era o tio Nico, pai dos dois. Meu irmão pendia mais para o lado do tio João Cãmara. E eu ficava fascinado por este amor que meu irmão nutria pelo Tota e pelo Eliezer e por nosso tio João. Talvez Freud explique isso...O Eliezer, se ler o site, vai saber da grande amizade do Abiezer, mas o Tota e o tio João, infelizmente, não poderão mais saber disso aqui neste plano terrestre...Na foto acima, Francisca, esposa do Eliezer e que infelizmente também já foi para outra dimensão, Eliezer, Aloésio, seu filho e a nora Mariana e o neto, o genial Briner! 
  Meu irmão e eu sentimos muita saudade de todos nossos amados parentes. Tanto os que estão aqui, quanto os que já foram se encontrar com nossos avós, pais e tios do outro lado do Jordão. Depois de 2010, não conseguimos mais voltar a Minas e esta passou a ser nossa última aventura, talvez o derradeiro contato com quem amamos...


O atoleiro, marca registrada de Bananal,
na estrada às margens do  rio José Pedro

  Após uma gostosa visita aos nossos queridos primos em Bananal, resolvemos “picar a mula” ou seja, voltar. Se escurecesse ou se a chuva aumentasse, a gente estaria enrolado. E lá fomos de volta, na trilha do velhinho do fusca. E foi ali, naquele morro, que iríamos descobrir que o “outro nome” de Bananal era Vaca Atolada!
  Nenê  Gago (que não era gago), fez tudo certinho. Começou a subida devagar, sem apertar o acelerador e o carro dançando pra lá e pra cá sobre o barreiro. O que nenhum dos três espertos contaram, é que o velhinho, além de estar com um fusca leve e de ser magrinho, estava só...a gente estava em três...e o Nenê pesava por dois! Não deu outra. O fundo do carro chapou sobre o barro. Aí o Nenê se apavorou e meteu o pé...mas não adiantava. Então desceram ele e meu irmão e eu fiquei ao volante, após o Nenê se certificar de que eu sabia guiar. Dou minhas cacetadas, respondi, brincando. Os dois mandaram ver. Empurravam, subiam sobre o para-choque e empurravam. E eu, sem apavorar e mantendo o bicho na trilha, pois já tinha experiência em guiar em barreiro – e meu irmão sabia disso, jogava a frente para onde a traseira ia, para o carro não atravessar e sempre em segunda marcha, para mantê-lo rodando. Meio metro de esforço dos dois e eu consegui levar o carro até o topo. Parei, desci e fiquei olhando os dois subindo penosamente morro acima, barro até o meio da canela e eu ri e eles riram quando perceberam que também tinham barro respingado pelas rodas do carro, até o pescoço.

A volta sem vontade e o fim da aventura

  A gente queria ficar mais, é claro, mas meu irmão, na época empolgado com um tal de "apóstolo" Valdomiro Santiago, dono de uma seita chamada Igreja Mundial do Poder de Deus, tinha uma excursão marcada para janeiro em São Paulo, capital, pois achava piamente que o sujeito ira curar ele do seu problema de Parkson. A seita deste religioso tem crescido no Brasil e no mundo, principalmente na África, onde outras seitas brasileiras de outros religiosos "milagrosos" também fincaram suas bandeiras, como a do bispo Macedo, do missionário R.Soares e do "pastor" Malafaia, entre outras que desconheço. Estas quatro são as mais famosas.
  Então fomos comprar a passagem de volta, na mesma empresa Mutum Preto e, apesar da sua pressa em voltar para ver se era curado do seu mal, ao subirmos no onibus, ele olhou para trás, para a querida Ipanema e disse: - Puxa, mano...é como sair do paraíso e voltar ao inferno!
  Eu, da minha parte, apenas balancei a cabeça, pois achava que ele tinha toda a razão! Quando pisássemos em terras paulistas, a aventura estaria terminada e talvez nunca mais veríamos o paraíso que deixávamos para trás pela segunda vez em nossas pobres vidas...



PS - Somente para matar a possível curiosidade quanto ao "apóstolo", meu irmão continua com Parkson até hoje...

 

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