STALIN
O maior assassino do século XX

Matéria baseada na História do Século XX - Ed. Abril 
e em reportagem da revista Realidade, de 1969

 
 


 

Terror e morte na URSS de Stalin

  Os expurgos políticos dirigidos por Josef Vissariónovitch Stalin na União Soviética, na década de 1930 (a partir de 1934), e continuados, em escala menor, até a morte do seu mentor (1953), permanecem uma incógnita histórica. Estudos de vários tipos e tendências apareceram sobre o tema, pessoas vitimadas, em sua maioria, sem saber a causa da punição. A análise sociológica define algumas motivações desse sacrifício humano, mas estaca nos limites da racionalidade a desvendar. 
Hoje tem-se a idéia aproximada da dimensão do acontecimento, apesar da inacessibilidade dos arquivos da polícia secreta russa – sucessivamente chamada  Cheka, GPU, NKVD e KGB. Declarações de líderes, memórias de sobreviventes, comentários oficiosos e documentos oficiais são as melhores fontes. Deve-se cotejá-las, para fins de equilíbrio com relatos de comunistas hostis à liderança de Moscou, dando-se destaque aos trotsquistas e aos iugoslavos. As estimativas variam, naturalmente; apenas o Estado soviético poderia estabilizá-las, o que se recusa a fazer, não indo além das vagas referências de Kruschev a “muitos milhares de vítimas”, no chamado Informe Secreto ao XX Congresso do Partido, em 1956. Depois de 1962, o Governo da URSS vetou discussões do assunto, e uma discreta campanha de reabilitação do nome de Stálin e do seu tempo teve curso. Essa campanha continua em vigor. 
Nos mais baixo índice de cálculo, todavia, as mortes e prisões desafiam a nossa imaginação e sensibilidade. É-nos impossível percebê-las como coisa viva, no alcance da experiência individual, pois possuem a magnetude das catástrofes da natureza, ou daquelas pragas que Deus criava contra os inimigos dos hebreus. E,  permeando o horror e o sofrimentos indizíveis de um povo, ainda ecoa a pergunta do ex-Comissário Executivo do Povo Lakov Livhtis, em 30 de janeiro de 1937, antes de ser executado: “Zachto”? Por quê? 
Nem Hitler se compara a Stálin na qualidade da fúria assassina e persecutória. Na qualidade, supera-o. Hitler matava e prendia inimigos do nazismo. Os próprios judeus, no caso, desempenharam o papel dos capitalistas no comunismo. Nenhuma ideologia, idealista ou materialista, ganha impulso sem demônios – todo São Jorge precisa de um dragão para afirmar-se. Hitler mandou fuzilar alguns adeptos, como o Capitão Rohm e o resto da liderança das tropas de choque nazistas, em 1934, mas eles eram um obstáculo comprovado à união de governo civil e exército, indispensável ao sucesso da política externa do ditador. No mais, Hitler foi de uma indulgência a toda prova diante da corrupção, dos vícios e das gafes de seus asseclas. 
Já Stálin ordenou de pronto o fuzilamento do comandante do front noroeste da URSS, General Rygachov, porque partes de sua Força Aérea foram destroçadas no solo, nas primeiras horas da invasão nazista, em 22 de junho de 1941. Note-se que a pasmaceira militar do país, cujas armas não estavam sequer de prontidão, era da responsabilidade de Stálin, que recebera avisos da iminente ofensiva de Hitler, via Stafford Cripps, embaixador inglês em Moscou, e Richard Sorge, o principal agente da NKVD no estrangeiro, sediado em Tóquio. Nem por isso (ou talvez, por isso), Stálin deixou de condenar à morte, além de Rygachov, o General Pavlovo (comandante do front oeste), seu chefe do Estado-Maior, Klimovsky, e Korobkov, comandante do IV Exército, jogando sobre eles a culpa das pesadas derrotas e perdas nos primeiros meses de luta. 
É possível contra-argumentar que esses infelizes oficiais não pertenciam ao circulo íntimo de Stálin ao contrário de Goering em relação a Hitler. Certo, mas Stálin também fez liquidar companheiros, amigos e parentes. Preferiu perder um filho prisioneiro dos alemães, a trocá-lo por um nazista importante. Essa atitude é aceitável para alguns, como demonstração de heroísmo (à custa da vida do próximo), desumano embora, ou, na melhor das hipóteses, sobre humano, Stálin, porém, pôs na cadeia a mulher de Molotov, seu mais chegado colaborador. Mandou matar o irmão de sua mulher, Nadezhda  Alliluyeva, a quem levara ao suicídio, em 1932. Dos 1966 delegados ao “Congresso dos Vitoriosos” (o XVII Congresso do Partido, em janeiro de 1934), 1108 foram fuzilados nos anos seguintes.

               Começam as matanças - Stálin é igualado a Gengis Khan

  Dos 139 membros e candidatos ao Comitê Central, 98 morreram da mesma forma (quase todos em 1937-38). Nenhum dos dirigentes da Revolução de 1917 sobreviveu aos expurgos, exceto Stálin e os que faleceram antes de 1934. E até hoje permanecem difamados na URSS. 
Sergei  Kirov controlava a organização partidária em Leningrado que pertencia ao Comitê Central e o Politburo, ao Excutivo soviético, em suma. Entrara para o PC com dezoito anos de idade, em 1904, na cidade de Tomsk (Rússia). Fora preso e deportado quatro vezes sob o czarismo. Na Revolução de Fevereiro, chefiava o núcleo bolchevique em Vladikavkaz, no Cáucaso, onde fez seu treinamento como militante clandestino. Era um stalinista ortodoxo por convicção, recusando-se a cair na subserviência peculiar a muitos seguidores de Stálin. Ao contrário do chefe, georgiano, nascera na Rússia e tinha talento oatório. Gozava de popularidade junto aos operários de Leningrado, esforçando-se em conseguir-lhes melhores condições de vida, razão pela qual Kaganovich, outro stalinista de proa, chamou-o, certa vez, de “demagogo barato”. Sua morte seria o estopim dos expurgos. 
Kirov ajudou Stálin a combater a “esquerda” e a “direita” dentro do Partido. Tais distinções no comunismo, não tem o mesmo sentido que o sistema liberal ou em quaisquer  regimes onde exista o capitalismo. Todas as facções são comunistas. Divergem quando a meios e táticas. A “esquerda”, sob o comando de Trotsky (mais tarde unido a Zinoviev e adeptos), pretendia  realizar aceleradamente a coletivização agrária e a industrialização da URSS, assim como favorecer revoluções em outros países, até a vitória internacional do bolchevismo. A “direita”, cujo mentor era Bukharin, propunha um ritmo menos intenso, alegando a falta de condições propícias para o sucesso das teses dos oponentes. 
Trotsky, Zinoviev e Bukharin, principalmente o primeiro, foram peças decisivas no levante comunista de 1917. Trotsky organizou a tomada do poder e, durante a guerra civil subseqüente, dirigiu o Exército Vermelho. Zinoviev era o discípulo número 1 de Lênin, e Bukharin, um dos principais teóricos marxistas do Partido. Perto deles, cujo renome se estendera a todo o mundo. Stálin parecia um burocrata apagado, embora sempre ocupasse, sob Lênin, postos de destaque no Governo, pertencendo também aos órgãos decisórios. 
Stálin jogou habilmente um grupo contra o outro, na disputa da sucessão, depois da morte de Lênin (janeiro de 1924). Definiu-se, naquele período, pela tese do “socialismo num só país”, idéia que, por sinal, extraiu de Bukharin. Em outras palavras, deu prioridade absoluta ao desenvolvimento interno soviético, relegando tudo mais a plano secundário. Travou-se feroz polêmica entre as diversas facções. A princípio, todo se aliaram contra Trotsky, em quem, irônicamente, imaginavam ambições ditadoriais. Quando conseguiram deportá-lo (1929). Zinoviev, Bukharin e outro líder, Kamenev, já não tinham ilusões quando aos objetivos de Stálin, embora lhes fosse possível prever a extensão dos futuros expurgos. Burkharin referia-se a Stálin como um novo Gengis Khan. Estavam todos na oposição. Mas era tarde demais. 
 Stálin ocupava o cargo de secretário-geral do Partido, considerado desinteressante pelos seus colegas mais intelectuailizados. Na prática, isso significava que tinha o poder de nomear e demitir funcionários do Governo. Demonstrando infinita paciência, preencheu os postos-chave com gente sua. Dada a hipercentralização do sistema, todas as decisões começavam e terminavam na mesa de vida.

            Lênin já antevira o que Stálin seria...mas era tarde demais 

 Lênin, nos últimos meses de vida, teve a presciência do que ocorreria e tentou remover Stálin desse lugar, chegando a pedir aos demais líderes que o demitissem, no seu testamento. Não lhe obedeceram, pois Trotsky lhes parecia, naquele momento, o homem perigoso, enquanto Stálin posava de conciliador, passava por um simples burocrata, acima ou menor, abaixo das facções ideológicas. Lênin paralítico, sem poder falar, cortara por escrito relações com Stálin, quando este lhe insultou a mulher, Krupskaya. Deve  haver documentos ainda inéditos, narrando  o resto da luta do chefe moribundo contra o seu sucessor. Algum dia, os arquivos do Kremlin  se abrirão, e a história será completada, talvez de maneira dramática. Aqui, vale ressaltar a cegueira dos companheiros de Lênin ante Stálin, espantosa quando consideramos que eram revolucionários experimentados em toda espécie de jogo político. 
Em 1º de dezembro de 1934, a oposição ao stalinismo estava batida na URSS. Depois de expulsar Trotsky. Stálin apossara-se das propostas do rival e, em 1928-1929, lançou o tumultuoso e violento processo de modernização do país, coletivizando a agricultura e convertendo os mujiques em operários. A brutalidade com que agiu não tinha limites. Em três anos, 25 milhões de camponeses foram arrancados de seus lares e transportados, em vagões de gado, para os locais onde as indústrias eram erigidas. Lá, construíram suas choças e trabalhavam sob regime policial. A polícia dissolvia a bala qualquer resistência. Fuzilou aldeias inteiras. Na coletivização aconteceu a mesma coisa. Muitos camponeses, em desespero, destruíam colheitas e consumiam toda a carne disponível, entregando-se a verdadeiras orgias de comida. Isaac Deutscher, baseando-se em estatísticas oficiais, calcula que o  desfalque no rebanho do país só foi suprido depois da II Guerra, na década de 1950 (os nazistas, naturalmente, deram sua contribuição ao deficit). Cinco e meio milhões de pessoas pereceram sob os maus tratos da GPU no campo. Curiosamente, Stálin aumentou esse número para Churchill, num jantar no Kremlin, estipulando em 10,5 milhões os culaques (camponeses proprietários) subjugados. 
 A “direita” de Bukharin desfez-se ante o impacto da nova política. As demais facções seguiram-lhe o exemplo. Em verdade, não lhes restava alternativa. Stálin comprometera todos os comunistas no movimento de modernização. Era submeter-se a ele, ou recorrer ao povo, hostil ao regime em virtude da escassez, produto inevitável do atraso da URSS, e dos métodos bárbaros empregados para estabelecer a prosperidade. Stálin jamais cogitou dar aos antagonistas o direito de escolha, mas, se  permitisse divrgências de opiniões encontraria uma resignada receptividade à sua liderança.

                                Livrando-se dos "incômodos"... 

  Tamanho foi o trauma popular nesse período, que ele próprio pareceu vacilar, uma vez. Deutscher conta que Stálin chegou a demitir-se numa reunião com seu grupo. Houve um silêncio encabulado dos interlocutores, o qual ameaçava tornar-se perigoso até Molotov pedir a palavra, confimando submissão de todos ao chefe. 
Em 1934, portanto, no já referido “Congresso dos Vitoriosos”, os antigos oposicionistas nada mais tinham a declarar, exceto o seu abjeto capitulacionismo. Excederam-se uns aos outros em afirmações de lealdade ao secretário-geral. Este discursou, dando-se por satisfeito quanto à inexistência de desviacionismos ideológicos. Devia saber que, no íntimo, homens como Zinoviev, Bukharin, Kamenev, Radek, Pyatakov e Tomsky prosseguiam anti-stalinistas, mas era uma questão de lógica reconhecer-lhes a incapacidade de derrubá-lo. Só Trotsky, no exílio, inaudível para as massas soviéticas podia contestá-lo e, assim mesmo, inocuamente, pela pena. Pois tudo dera certo: os primeiros resultados econômicos da coletivização e da industrialização haviam superado todas as previsões. O apelido “Vitoriosos” dado ao congresso partidário tinha sentido duplo: rotulava o triunfo de Stálin na política sucessória e no soerguimento da URSS. 
Como explicar, portanto, a amplitude  dos subseqüentes expurgos? Em 1º  de dezembro de 1934, Sergei Kirov estava no seu escritório no Instituto Smolny, em Leningrado, às 4 horas da tarde. O prédio fora uma escola de moças  aristocráticas. Lá, Lênin planejara a tomada do Palácio de Inverno (hoje, o museu Ermitage) que desencadeou a Revolução. Era a sede local do Partido. 
Naquela hora, o jovem Leonid Nikolayev entrou no edifício. Mostra um passe, em ordem, ao guarda do portão externo. No interior do Instituto, porém, não havia policiamento. Às 4h30, Kirov saiu de onde estava para o escritório de seu secretário, Mikhail Chudov. Nikolayev esperava-o no corredor. Aproximou-se dele e abriu fogo, pelas costas, com um revólver Nagan. Em seguida, desmaiou perto do assassinado. 
Funcionários do Partido, ao som dos tiros, emergiram de várias portas. Ficaram pasmos ante a ausência de policiais. Nem o principal guarda-costas de Kirov, Borisov, foi encontrado. 
Stálin interrogou pessoalmente Nikolayev. Desconhece-se  o diálogo, na íntegra: algumas passagens : “Eu não atirei nele. Atirei  no Partido”. Stálin disse-lhe que podia considerar-se morto.  Resposta: “E daí? Muitos me acompanharão. No futuro, meu nome será igualado a Zheliabo e Balmashev (terroristas famosos do passado russo).” 
Kruschev, no Informe ao XX Congresso, acusa Stálin indiretamente (com sutilezas elefantinas) pelo crime. A questão é controversa. Nikolayev soa sincero em seu desgosto ante os rumos do Partido. Não teve julgamento público. Morreu em silêncio. Estranhíssimo acidente ocorreu com Borisov, o guarda-costas de Kirov. Teria falecido num desastre de automóvel ao ser trazido à presença  de Stálin. Seus acompanhantes, agentes da NKVD, escaparam todos ilesos. Mais tarde foram todos fuzilados. 
A falta de policiamento no interior do Instituto Smolny dá substância à acusação de Kruschev. Desenvolvendo-a, veríamos em Kirov um liberal dentro do stalinismo. Expressaria a opinião da maioria dos colegas ao pedir ao líder um relaxamento dos rigores políticos do regime, vencidas as primeiras e terríveis batalhas da coletivização e industrialização. Em face dessa corrente majoritária entre seus seguidores mais fiéis. Stálin precisava de um fato novo, suficientemente calamitoso, para apertar as cravelhas ditadoriais. Nikolayev veio a calhar. Existiram muitos jovens comunistas desiludidos, como ele. E trabalhara sob Zinoviev, quando este dirigia o Partido, em Leningrado, antes de Kirov. Assim, Stálin afastaria um incômodo liberal do caminho, implicando ainda um oposicionista eminente. Daí por diante, as incriminações cresceriam à maneira das bolas de neve morro abaixo.

        Na insana trilha de Stálin, até a viúva de Lênin é ameaçada 

 Há nesse raciocínio de Stálin, se verdadeiro, uma contradição patente. Nenhum comunista, no íntimo, acreditaria que Zinoviev fosse terrorista, pelo simples motivo de que todas as facções do Partido abominavam o terrorismo, considerando-o um remédio superficial e ineficaz contra qualquer sistema político. Os marxistas russos, a partir do fundador do movimento, Plekhanov, e até Lênin, inclusive, gastaram muito tempo persuadindo seus seguidores a repudiar a tradição terrorista comum aos velhos radicalismos nacionais. Como crer que Zinoviev, ou Trotsky, do exterior, houvessem revertido a esse infantilismo superado? Talvez consciente disso, Stálin passou a inventar ligações dos oposicionistas como o Micado, o Intelligence Service, Hitler e o diabo. Pois só se houvessem abandonado o comunismo aceitariam o terrorismo. 
 Em poucos meses começaram as deportações maciças para a Sibéria. De Leningrado apenas, 40 mil pessoas foram presas sem explicação. Stálin precisava persuadir a nação da culpa de tanta gente na morte de um só homem. Surgiram dificuldades. Vários agentes da NKVD, desinformados das decisões superiores, descobriram o diário de Nikolayev, onde este assumia sozinho a responsabilidade do crime. O Pravda, de imediato (27 de dezembro de 1934), declarou falsificada essa prova. E era indispensável expandir os objetivos do assassino, a fim de compatibilizá-los com o número de suspeitos. Assim, segundo o Governo, Kirov seria apenas a primeira vítima, precedendo Stálin, Kaganovich e Molotov. De inicío os investigadores apontaram a presença de russos brancos, aliada à facção de Zinoviev e Kamenev. A mistura revelou-se absurda demais, e os brancos retornaram ao esquecimento, depois de um rápido massacre. Trotsky, do exterior, substituiu-os. Daí para a frente, protagonizaria todos os processos, como uma espécie de demônio por elipse. Milhões de pessoas veriam seus nomes associados ao dele, envolvidas em sabotagem industrial, militar e política, participando de acordos secretos com o Eixo, o Micado, etc.. sem que jamais um farrapo de prova fosse apresentado contra elas. 
No momento, outros bolcheviques ilustres ocupavam o centro do palco. Na versão oficial, o crime era obra do “Centro de Leningrado” (fictício), sob a direção de um certo Kotolynov e seis outros (mais tarde, o quadro social foi subitamente aumentado para catorze). Orientando-os, lá estavam Zinoviev, Kamenev, Evdofimov, ex-membro do Secretariado do Partido, Zalutsky, o qual, em companhia de Molotov e Shlyapnikov, compusera o primeiro Comitê de Bolchevique na Revolução de Fevereiro, Kublin e Sefarov, ex-membros e candidatos do Comitê Central. Essa caça grossa é que interessava a Stálin. 
Vinte e quatro réus ao todo sofreram julgamento. Os grandes nomes, exceto Sefarov, recusaram-se a passar por cúmplices ao assassínio, Zinoviev, quando muito, admitiu que, “objetivamente”, suas posições de oposicionista pudessem ter inspirado Nikolayev. No futuro próximo, aprenderiam a dobrar-se à direção cênica de Stálin, o qual ainda estava desenvolvendo a técnica de extrair confissões espúrias dos oponentes. 
As sentenças não foram pesadas, Zinoviev pegou dez anos; Kamenev, cinco. Os demais oscilaram entre esses extremos. As penas eram irrelevantes. Ninguém nunca mais foi solto. Todos morreram nos expurgos de 1936 ou de 1937-38. 
Os seis meses seguintes marcam um interregno, pacífico na aparência, para a oposição, mas aproveitado por Stálin para consolidar seu poder e a mecânica persecutória dos anos seguintes. 
Os liberais persistiram em demovê-lo de maiores rigores. Destacaram-se nosse infrutífero trabalho Valerian Kuibyshev, chefe da Comissão Estatal de Planejamento (Gosplan), Abel Yenukidze, secretário do Executivo do Comitê Central – dois stalinistasde boa cêpa -, o escritor Máximo Gorki e Krupskaya, mulher de Lênin. Kuibyshev e Gorki, no devido tempo, foram envenenados por ordem de Stálin, Krupskaya sobreviveu, ameaçada, se abrisse a boca, de perder até o título de viúva de Lênin, o qual seria dado à velha bolchevique Elena Stasova. “Sim”; disse-lhe Stálin, “o Partido pode fazer tudo”. Por via das dúvidas, a NKVD vigiava constantemente Krupskaya.

                                             A diabólica NKVD 

 É impossível provar o envenamento de kuibyshev e Gorki. Ambos estavam doentes e faleceram em tratamento médico, antes do expurgo. Uma coincidência fortuita, talvez, mas em 1937-38 Stálin acusou Yagoda, chefe da NKVD em 1936, de havê-los envenenado. Diversos médicos terminaram diante do pelotão de fuzilamento, em conseqüência disso. Se o dedo de Stálin movera tudo mais, por que não o afastamento de Gorki e Kuibyshev do seu caminho? 
Yagoda arquitetara o assassínio de Kirov. Dois agentes da NKVD, Medved e Zaporozhets, acabaram na cadeia, acusados de negligência naquele episódio. Para surpresa geral, num caso de vida e morte, receberam penas de três e dois anos, respectivamente. Tiveram tratamento de visitantes na prisão. Em 1937-38, Medved e Zaporozhets acompanhariam o chefe ao túmulo, sendo fuzilados e garantindo de vez  o seu silêncio. 
Bukharin, enquanto Stálin preparava o novo julgamento, redigia a nova constituição soviética, a mais libertária possível. O artigo 127 proibia prisões arbitrárias; o 128 tornava o lar e a correspondência invioláveis; o teórico marxista prometia liberdade de palavra, de imprensa, de reunião e de demonstrações. Alguns decretos administrativos de Stálin, logo postos em práticas, ofereciam um sinistro contraste ao palavrório bem intencionado de Bukharin. Exemplos: quem andasse com faca sem permissão policial pegaria cinco anos de cadeia. Era condenado à pena de morte o fugitivo da URSS. No caso de militares, as famílias que soubessem do exílio ilegal candidatavam-se a dez anos de prisão; as que não soubessem, a cinco anos de exílio. O último foi desenvolvido durante a II Guerra, quando o Estado punia parentes dos soldados soviéticos que se deixassem aprisionar pelos nazistas. 
Nada supera, porém, o decreto de 7 de abril de 1935, estendendo todas as penas, inclusive a de morte, aos cidadãos de doze anos de idade (revogado em 1958). 
Durante os ensaios da NKVD para o show de traição, Stálin substituiu os falecidos Kuibyshev e Kirov, no Politburo, por Mikoyan e Chubar, em quem confiava mais. Outras estrelas no ascenso: o jovem Kruschev, trazido da província, que assumiu o posto de primeiro-secretário da organização partidária em Moscou; e, principalmente, Yezhov, ingressando no Secretariado, no lugar de Yenukidze, e que, dentro de meses, tomaria o lugar de Yagoda, levando a sangria do povo soviético ao ápice. 
O plano era simples. Agentes da NKVD, como Olberg e Dreitzer, ao lado de personalidades suscetíveis de chantagem, a exemplo do dramaturgo Richard Pickel, diziam-se encarregado por Trotsky de unirem-se a Zinoviev, Kamenev, Bakayev e outros, a fim de assassinarem a liderança de Partido. À lista de conspiradores foram acrescentados alguns trotsquistas, que há muito haviam capitulado diante de Stálin, entre os quais I.N Smirnov, Mirachkovsky, Ter-Vaganian e Muralov. Todos tinham passado revolucionário impecável. Smirnov, o que se portou melhor no julgamento, começara a vida como operário. Fora três vezes preso e deportado para o Ártico pelo czar. Lutara nas revoluções de 1905 e 1917. Na guerra civil, comandou o V Exército, que bateu, definitivamente, as tropas de Kolchak, o general-chefe dos brancos. Esse homem, agora, seria punido na qualidade de inimigo do comunismo.

                               Smirnov - A dignidade de um mártir 

  A clássica imagem, “atmosfera de pesadelo”, não descreve o andamento do processo. Freud, afinal, descobriu uma lógica em nossos sonhos, inexistente aqui. Os réus confessaram tudo, exceto Smirnov, que admitiu cumplicidade conspiratória, eximindo-se, porém, de envolvimento em atos terroristas, para fúria de Vishinsky, o promotor (mais tarde ministro das Relações Exteriores). As ironias veladas de Smirnov, eram verdade, demonstrariam ao observador atento a falsidade dos outros. Chegou a perguntar a Vishinsky, rindo: 
- Querem um líder? Estou indisponível! 
Holtzman, um trotsquista menor, disse ter estado na Dinamarca, em 1932, encontrando-se com Trotsky e seu filho, Sedov, no Hotel Bristol, de Copenhague, a fim de recolher instruções. Trotsky telegrafou ao tribunal e à imprensa no Ocidente, demandando o nome falso aos registros da alfândega dinamarquesa. Nenhuma resposta. O Partido Social Democrata da Dinamarca distribuiu nota oficial aos jornais, informando-os de que o Hotel Bristol fora demolido em 1917. Sedov pode provar, via atestados, que prestava exames na Technische Hochschule de Berlim, na data da reunião inventada. 
Essa, a “evidência”. Restavam as confissões. Hoje sabemos a verdade. Stálin prometera poupar a vida dos acusados se colaborassem na farsa. Em companhia de Kaganovich e Yezhov, afirmando representarem os três uma comissão do Politburo, garantiu pessoalmente a Zinoviev essa clemência. Todos foram executados 24 horas depois do veredicto. Zinoviev, a berros, reclamando contra a falta de palavra de Stálin. Kamenev teve o corpo chutado pelo agente da NKVD que lhe aplicou o tradicional tiro na nuca. Só Smirnov manteve tranqüila dignidade, dizendo: 
- Merecemos isso, pela nossa conduta desprezível. 
Talvez houvessem resistido mais, se não temessem por sua famílias, Kamenev e Mirachkovsky, no apelo final, pediram aos filhos obediência a Stálin. A mulher de Smirnov, Safonova, depois acusando o marido de terrorismo – o que ele desmentiu até o fim. O sacrifício foi em vão. Nenhum dos parentes e amigos das principais vítimas dos expurgos sobreviveu para contar a história. Stálin era um assassino meticuloso – e abrangente. 
Outros fatores pesaram na decisão dos velhos bolcheviques de se enlamearem em público. Sofreram tortura nos cárceres, esquentados ou esfriados para incomodá-los. Os interrogatórios duravam 48 horas sem interrupção, num sistema de rodízio. Familiares dos presos eram trazidos às celas e mostravam-lhes ordens de executá-los também. A pressão jamais se abatia até que se rendessem. 
Tratava-se de gente alquebrada e prematuramente envelhecida; antigos revolucionários, com os nervos aos frangalhos. “Mortos em férias”, assim Lênin os defenderia. Passaram a vida, a partir da adolescência, sob a perseguição e as deportações do czarismo. Depois, as lutas revolucionárias de 1905 e 1917, seguidas da Guerra Civil. Padeciam de sentimento de culpa ante a destruição de outros companheiros dissidentes, os mencheviques e social-revolucionários (de orientação mais moderada), por exemplo, e assistiram pesarosos aos primórdios brutais de coletivização da agricultura e industrialização da URSS, quando Stálin caía sobre eles, agora personificando a mística e a disciplina partidária, não tinham onde esconder-se e nem o desejavam.

                                  O último discurso de Bukharin 

 Nada mais existia para os velhos bolcheviques além do Partido. Era-lhes inimaginável permanecer fora dele. Submetiam-se às maiores humilhações, a fim de permanecerem entre os militares. Preferiam, em muito casos,  a morte à expulsão. 
Tais considerações parecem exageradas e são incompreensíveis aos não-comunistas. Lembremo-nos, entretanto, da atitude de Trotsky, em 1926, ao divulgarem o testamento de Lênin no exterior. Ele estava no acesso da batalha contra Stálin. O documento, autêntico, pedia a remoção de Stálin  do secretariado geral. Em nome da disciplina partidária, Trotsky negou-lhe publicamente a veracidade. 
Em última análise, os velhos bolcheviques dobraram-se ao Partido, em nome da fidelidade ao seu passado. Koba (apelido de Stálin) é vontade do Partido”, disse Zinoviev a Kamenev, ao convencê-lo a capitular. O sentimento de solidão e desamparo do militante expulso foi expresso, incomparavelmente, por Bukharin, discursando no tribunal que o condenou à morte: 
- Durante três meses, recusei-me a abrir a boca. Depois, comecei a testemunhar. Por quê? Porque na prisão revi todo o meu passado. Pois quando nos perguntamos: “Se você vai morrer, morrerá em nome de quê?”, uma vacuidade absolutamente negra subitamente aparece diante dos nossos olhos, com clareza surpreendente. Nada havia por que morrer, se morremos sem arrepender-nos... E quando nos perguntamos: “Muito bem, suponhamos que você não morra: suponhamos que por algum milagre você permaneça vivo: para quê, por quê? Isolado de todo mundo, um inimigo do povo, numa posição inumana, completamente isolado de tudo que constitui a essência da vida”. 
Stálin sabia com quem estava lidando. 
No processo de Zinoviev e Kamenev apareceram, incriminados pelos réus, os líderes da “direita”, Bukharin à frente. Um deles, Tomsky, o ministro do Trabalho do país, suicidou-se de imediato, sem esperar investigação posterior. Stalinistas do nível de Karel Postyshev, segundo-secretário da Ucrânia e candidato ao Politburo, procuravam, nos bastidores, deter o expurgo. Seriam fuzilados oportunamente, mas, no momento, criavam dificuldades  a Stálin, pois não exibiam a menor conexão oposicionista. Postyshev , na Ucrânia, expulsava do Partido os delatores e falsos denunciantes, subvertendo o espírito da campanha da NKVD. 
Tanto fizeram os stalinistas liberais, que impediram, temporiariamente, a condenação de Bukharin, Rykov e Uglanov. O elenco do processo seguinte desapontou: Radek, jornalista brilhante mas sem caráter, Pyatakov, eminente planejador industrial, e Serebryakov, ex-secretário do Politburo, eram os protagonistas. Nesse ínterim, Yagoda caiu em desfavor. Yezhov o substituiu. Yagoda parece ter acreditado na promessa de Stálin a Zinoviev, de poupar-lhe a vida. No mais, acusavam-no pelo depoimento irreverente de Smirnov. Em breve seria descrito como ladrão, envenenador (de Gorki e Kuibyshev) e ex-espião do czar. Yezhov mandou matar 3 mil oficiais da NKVD, presumivelmente criaturas de Yagoda. 
Radek foi o delator principal da nova leva de inimigos do povo. Fez um acordo com Stálin, na cadeia. Em troca de vida, daria detalhes satisfatórios sobre o “centro trotsquista anti-soviético”, a última ficção conspiratória  da NKVD. Mais uma vez, Trotsky, sozinho, desfez a “evidência” apresentada. Radek disse ter  voado do Aeroporto Tempelhof, em Berlim, na manhã de 12 de setembro de 1935, chegando a Oslo às 15 horas, indo à casa de Trotsky, onde este lhe informara haver fechado acordo com Rudolf Hess, líder nazista, para a cessão da Ucrânia a Hitler, sem falar da entrega de terras no Extremo Leste ao Micado. 
Trotsky novamente pediu ao tribunal o número do passaporte e o nome usado por Radek. Nada feito. Em 25 de janeiro de 1936, o jornal norueguês Aftenposten publicou a informação de que nenhuma aeronave civil tinha pousado no Aeroporto Kjeller, em Oslo, durante todo o mês de janeiro, acrescentaram que nenhum avião chegara àquele campo entre setembro de 1935 e maio de 1936, dado o congelamento insuperável das pistas. Vale notar que, a despeito desse contra-senso e de outros, constantes dos diversos julgamentos, um sem-número de juristas e intelectuais no Ocidente continuaram a dar crédito a empulhação stalinista até a denúncia de Kruschev, em 1956.

                    35 mil oficiais, supostos inimigos de Stalin, 
                             são eliminados com provas falsas 

  Radek escapou, pegando dez anos de cadeia, em companhia de outra figura menor, Sokolnikov. Pyatakov e Serebryakov foram executados, o primeiro para fúria de Sergo Ordzhonikidze, stalinista eminente e amigo íntimo de Stálin. Ordzhonikidze faleceu em circunstâncias misteriosas, depois de alternações com Stálin. Ignora-se se foi suícidio, enfarte, ou assassínio. A segunda razão valeu, oficialmente. Um dos médicos que hesitou em assassinar o atestado de óbito, kaminsky, foi entretanto, fuzilado. 
Quando Vishinsky interrogava Radek, este inocentou o marechal Tukhachevsky de quaisquer atividades subversivas. Um experimentado oficial da NKVD, ao ler depoimento, disse à sua mulher que Tukhachevsky estava perdido. 
- Mas, como – ela lhe perguntou -, pois se Radek o eximiu de culpa ? 
- E desde quando Tukhachevsky precisa de referências de Radek ? - Respondeu o policial. 
Em 11 de janeiro de 1937, o Governo acusou de traição o alto comando do exército, anunciando, no dia seguinte, o julgamento e a execução dos responsáveis. Ei-los: marechal Tukhachevsky, comissário do Povo para a Defesa; Yakir, comandante do Distrito Militar de Kiev; Uborevich, comandante do Distrito Militar da Bielo-Rússia; Eidman, chefe da Organização da Defesa Civil (Osoaviakhim); General-de-Exército Kork, diretor da Academia Militar; Putna, general adido em Londres; Feldman, diretor da Administração do Exército Vermelho; e Primakov, comandante do Distrito Militar de Leningrado. Yan Garmik, diretor da Administração Política do Exército Vermelho, cujo suícidio fora anunciado em 1º de junho de 1935, foi também implicado. 
Dos cinco marechais três eram traidores; dos oito almirantes, os oito... De 663 generais (de exército, divisão e brigada, ou seus equivalentes soviéticos), 417 caíram. Os onze vice-comissários da Defesa morreram, acompanhando, na unanimidade, os almirantes; 75 dos oitenta membros do Supremo Militar da URSS, idem. Cerca de metade do corpo de oficiais, uns 35 mil, tombou diante dos pelotões de fuzilamento ou terminou nos campos de trabalhos forçados. Na frase de Kruschev, o expurgo começou em nível de companhia e batalhão. 
Naturalmente, as culpas iam do trotsquismo à aliança com Hitler. Os julgamentos ocorreram a portas fechadas. Descobriu-se, entretanto, que Stálin dispunha de uma documentação, apreendida pela NKVD da SD (o serviço secreto nazista sob comando de Heudrich),  comprometendo os generais, principalmente seu líder, Tukhachevsky. Era forjada, mas, de qualquer forma , superior, em credibilidade, aos depoimentos de Holtzman a Radek. Por que Stálin não a usou? Os analistas discordam a esse respeito. Talvez a explicação mais simples e lógica seja a melhor. Se divulgado, na ocasião, o número de supostos conspiradores militares, até os mais crédulos se perguntariam por que tanta gente, tão bem armada, não conseguira tomar o poder. Nem por isso Stálin prescindiu de acusações grotescas: Yakir e Feldman, ambos judeus, morreram como espiões nazistas.

                     Em apenas um ano, 3 milhões de pessoas fuziladas 

 Stalin tinha raiva pessoal de vários generais, de Shmidt, por exemplo, que pertencera à oposição e o insultara, pessoalmente, em 1927; ou do próprio Tukhachevsky, de quem recebera críticas ásperas na campanha do Exército Vermelho contra a Polônia, em 1920. Há também especulações de que Stálin, ao cogitar em um pacto nazi-soviético, já em 1937, precisaria antes de fazer uma limpeza no comando militar, colocando nos postos-chave gente nova, que lhe obedecesse incondicionalmente. Nada se sabe, ao certo. 
Sabe-se, isto sim, que o prejuízo da URSS foi cobrado logo nos primeiros meses da II Guerra, quando, carentes de seus melhores oficiais, as Forças Armadas demonstraram ruinosa inexperiência diante do alto profissionalismo nazista. Tanto assim que Stálin libertou vários dos “traidores” sobreviventes, reincorporando-os às suas unidades. Merecem citação Meretskov, Rokossovsky e Gorbatov, posteriormente reabilitados, depois de bravura provada em combate. 
A foice e o martelo da NKVD também caíram sobre os funcionários civis do Partido. Os militares, bem entendido, não eram uma casta à parte, mas, sim, em sua maioria, comunistas fiéis, que, aos vinte anos de idade, à maneira de Tukhachevsky, já comandavam exército contra as forças do czar. O filho de Yakir, Pyotr, é hoje um dos rebeldes ao neo-stalinismo, aparecendo na imprensa, ao distribuir panfletos libertários junto aos delegados dos PCs mundiais, reunidos em Moscou, durante junho passado. Passou dezessete anos em campos de concentração. 
Na área civil, porém, a presença letal de Stálin se fez sentir como nunca. Em 1937-38, 3 milhões de pessoas foram fuziladas, entre as quais 800 mil membros do Partido, apontados em 383 listas de Yezhov. Oito milhões, no mesmo período, estiveram nos campos de trabalhos forçados. 
Nas eleições partidárias internas, em 1937, Boria Ponomarev (em 1968, secretáio do Comitê Central da URSS) deu a nota, num artigo no Pravda, intitulado “Democracia Partidária Interna e Disciplina Bolchevique”, o qual  em resumo, definia qualquer atitude contrária a Stálin como traição. Zhdanov, que se tornaria o menor da cultura na URSS, no pós-guerra de 1945, reduzindo-a ao ridículo universal, comandava os expurgos em Leningrado: Beria agia na Transcaucásia; Kaganovich, em Ivanovo, Kuban, Solensk, etc.; Malenkov, na Bielo-Rússia, Armênia, e assim por diante; Shkiryatov, no Cáucaso norte. Não raro, entravam em rodízio, estendendo sua ação das províncias às Repúblicas Soviéticas. A palavra de ordem era Razgromil, o esmagamento. 
 Varriam, pro forma, os quadros partidários da face da terra. Quem não denunciasse alguém, automaticamente virava suspeito, ou seja, condenado. Os delatores e informantes multiplicavam-se e suas vítimas eventuais, para sobreviver, viam-se na contingência de imitá-los. Ai daqueles que intercediam por alguém. Uma mulher de nome Lazurkina defendeu Kodalsky, prefeito de Leningrado. Pegou dezessete anos de cadeia.

                            Não se fala de corda em casa de carrasco... 

 Em Leningrado, Zhdanov esmerou-se em eliminar os remanescentes amigos de Kirov, visando a apagar a idéia de toda lembrança e possíveis provas que contrastassem com a versão oficial do assassínio. Isso criou problemas de visibilidade. Leningrado tem as chamadas noites brancas, no verão, que Pushkin chamava “crepúsculo transparente e brilho sem lua”. Em suma, parece dia claro à noite. Os carros da NKVD, freando bruscamente na madrugada diante dos prédios de apartamentos, não escapavam à atenção geral. 
Muito ativo no Distrito Vyborg de Leningrado, denunciando oposicionistas em todas as esquinas, estava o jovem Alexei Kossiguin, hoje primeiro-ministro da URSS. Mais tarde, substituiu Kodatsky na diretoria executiva do  Comitê da Cidade, premiado pela sua devoção ao Partido. Stálin previu-lhe uma brilhante carreira. Se ainda há quem se espante da relutância dos atuais líderes soviéticos em remexerem o passado, aí está, sucintamente, a explicação. Também não se fala de corda em casa de carrasco. 
Dos 154 delegados de Leningrado ao XVII Congresso, o dos “Vitoriosos”, só dois reelegeram-se no XVIII Congresso, assim mesmo na qualidade de representantes honorários. O ódio provinciano de Stálin ao centro da sofisticação russa, á cidade de Pedro, o Grande, e de Lênin, fora aplacado. E as pistas e testemunhas do assassino de Kirov desapareceram por completo. 
Stálin perdera inteiramente as  estribeiras. Não admitia a menor dúvida da validade de suas ordens. Punia gente como Lomov, que em companhia de Lênin e Trotsky, fora um dos raros revolucionários a acreditar na tomada do poder, em junho de 1917. A NKVD agarrou Nazaretyan, na rua, em plena luz do dia, quando este era aguardado  numa reunião do Comitê Central. Até o subserviente Krylenko, que propusera, em 1932, politizar o xadrez, caiu em desgraça. O já preferido Kaminsky, comissário de Saúde, ousou criticar Beira e foi preso na hora. Antipov, Kossior, Eikre, Rudzutak e vários outros stalinistas fidelíssimos encontraram a morte, talvez porque olhassem de maneira inconfortável para o  secretário-geral. Kruschev, porém, devia ter o fácies complacente desejado por Stálin. Dirigiu o sanguinolento expurgo na Ucrânia e suas denúncias mataram Filatov e Ukhanov, bolcheviques impecáveis.
 


                            Hoje, assassino; amanhã, assassinado. 
                          A política de Stálin para seus comandados

  Yezhov, que já ganhara uma cidade com seu nome, reunia a equipe de diretores do processo contra a “direita” do Partido. Dispunha de Kabovsky, que “brilhara” em Leningrado, Frinovsky, comandante das tropas de fronteiras da NKVD e Slutsky, do Departamento Externo. Os quatro, Yezhov inclusive, seriam fuzilados no ano seguinte, mas, no momento, davam as cartas. 
O elenco de vítimas superava de muito o anterior. Lá estavam três membros  do velho Politburo de Lênin, Bukharin, Krestinsky e Rykov, além de Rosengolts, Ivanov, Chernov, Grinko e Zelensky, que ocuparam postos de importância no Governo, seguidos de diversas figuras menores. Agora acusavam-nos de espionagem, sabotagem, provocação de um ataque militar à URSS, tentativa de desmembramento do país e restauração do capitalismo. Tudo isso sob as ordens do duo Trotsky e Hitler. 
Repetiu-se a velha história das confissões e da ausência de provas, mas o entrecho apresentou falhas graves, Bukharin e Rykov negaram até o fim participação pessoal nos crimes em pauta, aceitando apenas a responsabilidade abstrata pela ação de terroristas, Krestinsky chegou a repudiar todas as acusações, recuando mais tarde, mas não antes que o efeito de suas negativas se fizesse sentir. O depoimento de Bukharin e Rykov esteve marcado de ambigüidades que deixavam Stálin mal. A farsa era transparente, o que apressou, certamente, a queda de Yezhov. 
Entre os réus, dois carrascos da NKVD, Yagoda e Avranov. O primeiro deu trabalho. Quando Vishinsky quis inculpá-lo em espionagem, respondeu: 
- Se eu tivesse sido espião, dúzias de países se veriam forçados a desmantelar seus serviços de inteligência. 
A mania do Estado Soviético de acusar ex-chefes da NKVD de estarem a soldo de potências estrangeiras persistiu até nossos dias, apesar do absurdo óbvio, apontado na fala de Yagoda. Na liquidação de Beria, sucessor de Yezhov, em 1953, a imprensa oficial descreveu-o como agente inglês.

A morte do sanguinário Trotsky no México

 As sentenças de morte vieram, inevitavelmente. Mas Stálin já começara a perceber que o terror perpétuo paralisaria o país e, doravante, faria cessar os julgamentos públicos. Liquidaram-se os últimos quadros suspeitos nos porões da NKVD. Entre eles, todos os embaixadores da URSS no Exterior, menos um. E a polícia secreta estendeu sua ação ao Exterior. 
Na Guerra Civil Espanhola, quando o Governo republicano caiu sob domínio soviético, anarquistas e trotsquistas foram maciçamente assassinados por agentes da NKVD, que os perseguiram até nos campos de refugiados na França, terminado o conflito. Stálin divertiu-se na Espanha, enviando para lá, encarregado de condenar trotsquistas, o ex-trotsquista Antonov-Ovseenko, que chefiara a tomada do Palácio de Inverno do czar, em outubro de 1917. Posteriormente liquidou-o. Em 1940, Ramon Mercader, agente da NKVD, rachou a cabeça de Trotsky no México. Essa morte foi o ponto final nas operações em grande escala contra os inimigos  verdadeiros e imaginários de Stálin. Há indícios de que ele pretendia recomeçá-las, a partir de 1950, mas não teve tempo, unindo-se, enfim, aos 20 milhões de pessoas cuja existência devastara em nome dos mais "belos ideais da humanidade".

 

 

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