Manual de Sobrevivência
GNT - Selva e Montanha

  Não se pode simplesmente  pegar um veiculo  e sair  estabanadamente para uma aventura, seja  no campo, nas montanhas ou na selva. A primeira e importantíssima  providência  é convidar um ou mais amigos  para participar da aventura. Se forem amigos que já participaram de alguma aventura com você, melhor ainda. 
Quanto ao carro a ser usado  a primeira exigência  é que sejam  um de tração 4x4, com cabo de aço e motorizado,  pneus  e peças sobressalentes. Não pode ser um carro 0km, pois é necessário que já estejam amaciados e com as revisões feitas.  Ao contrário não vai querer fazer um fora-de- estrada com carro muito velho.
Isso feito munir-se de lanternas, armas, facões, machado e uma pá, como também material de acampamento, víveres e material de primeiros socorro. É preciso planejar a aventura, levando mapa, bússola e se possível  GPS.  Deve-se escolher a região onde vai rolar a aventura, com informações sobre época de chuvas, altitude, clima, km a ser  percorridos  desde um ponto de referência  que aconselha-se seja uma cidade ou uma vila, até o local do Off- Road.
Tudo isso é necessário  para saber se vocês estarão em uma região inóspita, com perigo de bandidos, de chuvas densas  que alaguem rios, perigos de doenças e  onde pode se abastecer o veiculo  e comprar peças  e também comida  e o principal,  que é água potável. Nunca esqueçam.


Se você tem experiência, pode amenizar a sede com o cipó d'água (ou liana de água).
Ele preserva água limpa dentro. Basta cortá-lo abaixo de um nó, como o soldado fez.
Até que você encontre socorro ou o caminho de volta, isso pode ajudá-lo muito...

 Evite  viajar com mais de duas pessoas  no veiculo e excesso de bagagem. Não esqueça de levar dinheiro e cartão  para imprevistos e nunca leve pessoas de gênio incompatível. Aventuras sem planejamento,  só no cinema, onde o mocinho encontro água e  todo tipo de socorro até  de alienígenas. Na real, isso nunca vai acontecer! 
É necessário um bom check-up no veiculo e um exame médico em cada participante da aventura. Para não alongar, consulte um profissional da saúde para saber o que deve levar na caixa de primeiro socorros e um mecânico para  saber quais peças e ferramentas devem ser levadas. Tenha no veiculo pastilhas de cloro para no caso de  precisar de água no meio do mato e já vá informado da quantidade de cloro para purificar a água.
Do mais, se a aventura  for para o lado da Bacia Amazônica é necessário tomar cuidado em se banhar em rios. Correto é revezamento  quando dois amigos entram  o outro fica olhando, para  assinalar a aproximação  de algum perigo.  Também existem  nessas águas, além de cobras, jacarés e piranhas,  um pequeno peixe chamado Candiru e o peixe elétrico  Poraquê. O Candiru, pelo seu tamanho pode penetrar  na uretra ou no anus e causam dores insuportáveis  além de só poder ser tirado cirurgicamente. Seria o fim da aventura. O Poraquê  pode  produzir descarga elétrica  capaz de matar um cavalo. Portanto todo cuidado é pouco. Fora da água, evite altas temperaturas,  procurando sempre abrigo  à sombra, descansar e  beber  bastante água. 


Você cuidou de material de pronto-socorro, equipamentos, alimentos, etc. Mas, numa eventualidade
(e é preciso contar com elas), é bom aprender fazer fogo com segurança e cozinhar uma caça...

  O sucesso das aventuras depende da saúde do off-roader porque se ficar doente,  a resistência cai e as dificuldades começam para ele e seus companheiros. Quando acampar conserve limpa toda área em redor da barraca, enterrando o lixo diário e escolhendo um lugar afastado para a latrina. Se for acampar apenas uma noite basta jogar terra sobre o buraco que abriu para a latrina. Se for ficar mais tempo cada vez que alguém usar a latrina deve-se jogar uma pá de cal para evitar  o mau cheiro e a proliferação de insetos.
A noite na barraca se não tiver um mosqueteiro procure dormir vestido para evitar insetos que podem transmitir a malária, uma das pragas mais comuns da selva e que, se não atrasar sua aventura por causa da febre, pode até acabar com a viagem no mato (e na Terra), levando a pessoa à morte. No mais, cuidados com carrapatos, pulgas e sanguessugas. Evite também banhos em lagoas ou águas paradas nas horas mais quentes do dia .

Primeiros socorros

 Os ferimentos mais comuns em uma aventura são cortes, queimaduras de sol  e fraturas. Se alguém se ferir chegando a desmaiar mantenha-o  deitado com a cabeça em nível mais baixo que as pernas. Se for ferimento na cabeça  a pessoa deve ficar deitada em nível. Em caso de um corte que cause hemorragia aplique uma compressa sobre o ferimento até sentir que parou o sangramento. Se não estancar é preferível correr o risco de uma infecção do que não conter a hemorragia. Nesse caso usa-se uma torniquete com qualquer material que estiver à mão um pedaço de pano ou em último caso um cinto. O torniquete deve se aplicado a uns 4 dedos acima do ferimento e, introduzindo um pedaço de pau por baixo da atadura  torcendo e apertando e afrouxando de 15 em 15 minutos. Caso perceba a extremidade do membro ferido ou seja se  for um corte na perna e você fizer o torniquete  e observar que os pés da pessoa começam a ficar frios ou de cor azulada, afrouxe o torniquete com mais freqüência até que a cor volte ao normal. 
 Em outros casos de acidente onde o ferido fique desacordado e não apresente respiração  faça imediatamente respiração boca a boca até que a pessoa volte a respirar normalmente. 


A natureza é linda...e selvagem! Não se deixe seduzir pela beleza. Esteja alerta, como um escoteiro

  Em ferimento profundo  causado por algum objeto cortante, o mesmo não deve ser retirado para não provocar uma hemorragia interna. Em todos esses casos, seja do uso de um torniquete, de parada respiratória, ferimentos profundos e estado de choque após quedas ou fraturas, o companheiro da aventura deve ser levado imediatamente ao hospital. 
 No caso de uma fratura, como primeiro-socorro, use galho ou qualquer coisa que estiver a mão para imobilizar o membro ferido.
  Se for picada de cobra, procure matar a cobra para identificar se é venenosa ou não. Mas, todo cuidado é pouco, pois matar uma cobra é fácil, o difícil será encontrar a “criminosa”. Já a vítima picada deve ser colocada sentada e mantida o mais calma possível, pois qualquer movimento fará com que o veneno se espalhe mais rápido na corrente sanguínea. Deve ser feito também  um torniquete acima da picada,  e ser feito cinco ou dez espetadas com qualquer material perfurante  ao redor do local picado, para tentar retirar um pouco do veneno. Depois aplicar o soro específico,  leve a vitima e a cobra (se conseguiu matá-la), imediatamente ao socorro especializado.
  E existem muito mais perigos do que se possa imaginar, tanto na selva quanto em montanhas. Na selva é o perigo de animais, doenças transmitidas por insetos, ficar perdido e o pior, nesse caso: ficar sem alimento e água! Sem alimento se consegue ficar até três dias ou mais, dependendo da resistência do aventureiro; sem água, não se consegue ficar um dia. Para sobreviver à falta de água por um período maior, é necessário, se você não conhece os cipós que conservam água dentro de si ou se não for agraciado com chuvas, o jeito é ficar imóvel à sombra e rezar por socorro, caso esteja sem celular ou rádio – ou caso tenha eles, mas não consegue sinal. É mais fácil fazer um curso indígena de sinais de fumaça...

Aventura nas Montanhas

  Nas montanhas, além do perigo de cobras, elas estão em todo lugar, desde a primeira, no Jardim do Éden, existe o perigo de escorpiões e lagartos e os mais graves, dependendo da distância que você se encontra, é o frio ou as quedas, se for escalar.
  Já se perder numa montanha, a primeira providência, é o pedido de socorro, passando referências de possível localização para facilitar o resgate e a segunda, é sempre descer. Tentar subir só vai cansar e agravar os problemas. Tem que descer, sempre, pois é abaixo que certamente encontrará rios e a bendita água e terá mais chances de encontrar alguma vila. 
  Em montanhas, na necessidade de socorro, você poderá fazer disparos de arma de fogo, juntar roupas e fazer uma bandeira pra chamar a atenção do resgate e até fazer fogo, desde que longe de vegetações. Se tiver, deve  usar espelhos para chamar a atenção com reflexos de luz.  O fogo sempre deverá ser abafado, pois a idéia é provocar fumaça e não fazer churrasco. 

  Já na selva, praticamente nada disso resolve, dependendo da densidade da vegetação. Nada de espelhos, tiros ou lençóis. Estes até podem ajudar, desde que você suba na árvore mais alta que houver e o amarre lá em cima. A única saída numa selva, além da reza, é fazer fogo e com muito cuidado. Como escrevi acima, o necessário é provocar muita fumaça e não um incêndio. 
  Na montanha, mover-se para baixo, sempre e procurar áreas abertas se possível para facilitar o encontro de vocês pelo resgate;  na selva, após o pedido de socorro, se possível e a devida fumaceira, vocês não devem nunca se deslocar mais de 20 ou 30 metros do local. O certo é procurar uma clareira, mas nesse caso, se estão 4 no grupo, devem ir dois à procura e dois ficam a espera do contato com o resgate.
  O mais fácil é perder-se numa selva, pois após ficar sem rumo, no desespero você verá todas as árvores iguais e pode-se gastar tempo e energia andando em círculos. Não tente nunca “encontrar” o caminho, pois você não é GPS e nem que tivesse um, ele não funciona na selva.
  Voltando ao veículo, como não tem como subir uma montanha com ele, ele ficará no pé da montanha. O ideal nesse caso é pagar uma pessoa de confiança para ficar tomando conta do veículo e com o qual se possa manter contato, no caso de acidente ou se perderem. Também é certo se fazer sinalizações referenciais no trajeto, por exemplo fincando bandeirolas vermelhas ou amarelas a cada 300, 500m.
  No caso da selva, o veículo poderá ir muito além, mas chegará uma hora que ele não terá como prosseguir. Daí, a inteligência da sobrevivência manda transformar o ponto onde ficará o veículo num “QG” e, à medida que forem se afastando dele, o ideal é ir sinalizando com panos vermelhos e amarelos (cores que chamam a atenção) amarrados numa altura de pelo menos 2 a 3m nas árvores, seguindo uma estratégia simples, para não confundir: um cor e depois a outra. Por exemplo. Perderam-se, procurem a última cor, por exemplo, vermelho, sabendo que a próxima deve ser a amarela e assim, consecutivamente, até chegarem ao carro. Se encontrarem duas cores iguais no percurso, vão saber que estão andando em círculo...
 Pois é isso. Sempre levem roupas leves e pesadas, pois a temperatura pode chegar a 40 graus de dia e baixar para 10 à noite. Não leve seu animal de estimação, no caso, um cão, pois será um problema a mais para você. Numa montanha, então, ele não servirá de nada.
  No mais, é usar a inteligência para se safar de problemas e a consciência, para saber se deve se meter em tais aventuras. Você, se não estiver acostumado com isso, vai sentir uma drástica e terrível diferença entre estar num local isolado e perigoso e seu aconchegante quarto, os lanches da mamãe, o micro e o celular pra falar com os amigos ou com a namorada. Ficar longe disso e ainda enfrentando vários perigos, pode desmantelar em poucas horas a coragem do aventureiro de primeira viagem. Daí, entra um ítem que me esqueci, que é procurar ter suas primeiras aventuras acompanhado de alguém já experiente. Os problemas se reduzirão uns 70%...

Finalizando


  Por quê estou publicando isso, coisas que alguns já estão carecas de saber? É porque muitos outros desconhecem. E outra é que não sou aventureiro, então vale mais, pois aprendi no sofrimento. Nos perdemos certa vez numa marcha comum de Exército, que por quebra da bússola, nos fez ficar das 16hs, horário que deveria encerrar a marcha, até perto da meia-noite,  cansados e sem o que comer e beber, pois não havíamos nos preparado para aquela possibilidade. Passamos fome, frio, muito cansaço e a necessidade de beber água de poças de chuva, até encontrar uma estrada que nos levou de volta ao quartel. Naquele tempo não havia celulares e não havíamos levado radio de campanha...
  Foi uma falha sobre a outra, mas com o que vivi aprendi que neste mundo, onde quer que você vá ou esteja, deve sempre estar preparado para os imprevistos, pois eles acontecem justamente por você não estar pronto para eles...
  De outra feita, como civil, me perdi sozinho meio a uma canavial. Eu era motorista de uma destilaria e havia levado o pessoal do turno da noite para casa. Voltei sozinho e me meti a voltar pelo meio dos talhões do canavial. Conclusão, a Kombi que dirigia, agarrou numa imensa e funda poça de água e lama. O chassi do veículo encostou no fundo e ele não ia pra frente e nem pra trás. Desci, fiz tudo que manda o manual dos motoristas atolados e, dentro da poça d’água e sob um sol inclemente, quando percebi, a lingua já estava grudada no céu da boca e os lábios meio inchados. A sede apertava cada vez mais e eu não estava disposto novamente a beber água de poça de chuva. O canavial estava quase com 2m de altura e, mesmo subindo no teto da kombi, eu só via um imenso tapete verde. Não é o terror de se perder numa selva, mas o sentimento de impotência é o mesmo. Ainda não era época do maldito celular. Não gosto deles por causa dos babacas que os usam, mas vocês devem agradecer por existir essa maravilha hoje, mal usado mas, em situações tratadas aqui, teriam uma utilidade sem tamanho...Se estivesse numa região que desse sinal, claro e se a bateria estivesse bem carregada! O crédito não seria problema, já que pedidos de socorro são emitidos sem os mesmos. 
  Mas como estava contando, no caso da Kombi atolada,  fui socorrido por um peão a cavalo que passava. Um sujeito de poucas palavras, que não deu muita atenção a mim, mas pelo menos entendeu as duas palavras que eu consegui falar....perdido...água!
  E o cara, sem olhar para mim  e muito menos oferecer uma carona na garupa do cavalo, me disse para seguí-lo, que havia um sítio mais para a frente. E era mais pra frente mesmo. Uns dois km depois, o que pareceu 20, pela fraqueza em que estava. Caminhando atrás do cavalo que mesmo a trote, ia se distanciando cada vez mais, eu somente conseguia me arrastar. O corpo, desidratado, não só lhe rouba as energias, mas causa dores. Meu fígado, seco como minha boca, parecia que ia rebentar, de tanta dor. E eu comecei andando uns 2 metros atrás de um pangaré que para mim, pouco depois, parecia que ia a 100 p/h...O cérebro bagunça e os pés de cana parecem que estão rindo de você e o céu parece que está descendo sobre sua cabeça. O cavalo, às vezes parecia dois, três...mas eu já não me importava. Ao chegar ao sítio fui direto ao tanque de água, de onde esta jorrava como presente dos céus e joguei meio corpo debaixo dela e bebi, e dava risada e bebia...A água, para os habitantes da Terra, seja homens, aves ou animais, é uma bênção divina. Jamais esqueci isso. A gente não se importa, até ficar sem ela!

  O cara do cavalo cumprimentou o casal do sítio que veio até a varanda ver o que estava rolando....nem ouvi o que o sujeito disse. Somente lembro da senhora chegar perto de mim e dizer para eu parar de beber tanta água, pois ia me fazer sentir mais dores...daí me levou para a cozinha, me deu um pedaço de broa e me mandou descansar. O homem, um senhor simpático também, disse que ia ligar para a usina para eles virem me buscar.
  E houve muitas outras peripécias comigo que foram me ensinando que nem tudo que reluz é ouro. Para dizer a verdade, é uma coisa linda, emocionante, a adrenalina vai a mil, mas é mais sensato fazer um safari na África. Pelo menos lá você estará seguro dentro de um carro apropriado para aquilo e ainda com guias armados. É só não se meter a besta e descer do veículo pra saber se um leão pode alcançar você num pulo de até 5 m numa questão de segundos...
  Mas, pra quem quer dar uma de Indiana Jones, faça um check-list antes com uma pessoa experiente. Depois, leve uma foto da mamãe se precisar chorar de arrependimento. Sempre ajuda! Brincadeirinha...Mas espero ter contribuído, mesmo de maneira simples, para algum maluco que queira fazer sua maluquice.  Que Deus os proteja!
 

 

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