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Homenagem do GNT aos médicos e heróis Emilio Ribas e Vital Brazil
Dr. Emilio Ribas
Um homem contra uma cidade


 
 
 

   Um dos bravos e incompreendidos sanitaristas brasileiros do fim do século XIX e início do século XX que, juntamente com Oswaldo Cruz, Adolfo Lutz, Vital Brazil e Carlos Chagas, lutaram para livrar a cidade e os campos das epidemias e endemias que assolavam o país. Formou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1887). Guiado apenas pela intuição, Emílio Ribas combateu a febre amarela, exterminando com êxito o mosquito transmissor da doença (hoje conhecido por Aedes aegyptii) nas cidades paulistas de São Caetano, Pirassununga, Pilar, Campinas e Jaú, o que lhe valeu a nomeação, em 1898, para diretor do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo. Sofreu forte oposição dos que acreditavam que a doença era transmitida por contágio entre pessoas e para provar que esta tese estava errada, deixou-se picar pelo inseto contaminado, junto com os colegas Adolfo Lutz e Oscar Moreira. Foi a partir da contaminação de Ribas que Oswaldo Cruz empreendeu a eliminação dos focos de mosquito no Rio de Janeiro.
 
 

 Do livro Jaú, a Semente e a terra, de  Waldo Claro, selecionamos o trecho onde o escritor escreve sobre a febre amarela, epidemia que se abateu sobre Jaú em 1892 e 1896...

O surto atinge Jaú

Janeiro de 1892. Jaú é uma cidade rica, com espetacular produção cafeeira, uma burguesia rural assentada em sólido patrimônio e com um comércio rico e variado. Mas é uma cidade suja, carente de água e esgoto, despreocupada com problemas sanitários e entregue à própria sorte em questão de limpeza e higiene públicas.
Some-se a todos esses fatores o agravante  de que a febre amarela não chega sem aviso. Ela já está matando em Rio Claro, Descalvado, Leme, São Carlos e na maioria das grandes vilas e cidades do interior de São Paulo. Até que desaba sobre Jaú naquele janeiro de 1892, na figura de um imigrante italiano chegado de Rio Claro. Aos primeiros sintomas, ele procura o médico Marcos Túlio de Carvalho, que após minuciosos exames, diagnostica febre amarela!
A reação é surpreendente.  Autoridades públicas, comércio e todos os que sentem seus interesses ameaçados, longe de se unirem para combater a doença, unem-se para denegrir o médico e esconder a verdade. E o imigrante acaba morrendo sem que se adote qualquer medida profilática em defesa da população. Passados alguns dias, um segundo caso de febre amarela é diagnosticado pelo médico Augusto de Souza Marques e, desta vez, o portador nem havia saído de Jaú. O foco, pois, está na cidade! E o número de doentes vai crescendo assustadoramente, sem que haja um hospital especializado  para tratá-los e isolá-los.
  Só em fevereiro as autoridades “acordam” para o problema e, vencidas pelas evidências, admitem pública e oficialmente que Jaú está sob um surto epidêmico. A essas alturas o cemitério antigo, assentado onde hoje está o prédio da Escola Major Prado, já tinha esgotada sua capacidade. O novo, construído às pressas  nos confins da rua 24 de Maio, tem seu espaço rapidamente ocupado. É quando se inicia a construção do cemitério atual, na avenida Municipal, hoje  Frederico Ozanan.
A gravidade da situação faz com que o governo de São Paulo envie para Jaú, em caráter de emergência, uma comissão integrada por médicos sanitaristas, enfermeiros e farmacêuticos. Chefiando essa comissão se encontra o médico Vital Brazil. São dias de lutas e sacrifícios para salvar a cidade ameaçada, até que, em maio do mesmo ano, ou seja, 5 meses após o início da epidemia, ela é declarada extinta. Não há, infelizmente, registros pormenorizados a respeito, mas sabe-se que dez por cento das pessoas afetadas morreram, o que dá a terrível proporção de 100 a cada mil pessoas afetadas!

A epidemia, Emílio Ribas e o curandeiro
A luta de um herói 

 O perigo, o medo e as incontáveis mortes servem para despertar nos políticos locais a urgente necessidade da construção de um hospital de isolamento. O governo Bernardino de Campos rende-se aos apelos e libera as verbas necessárias . O hospital é finalmente inaugurado em 1894 num terreno de 400 metros quadrados, num local arborizado e quase vizinho ao novo cemitério. As medida profiláticas adotadas pela equipe de Vital Brasil surtem efeito, e os anos de 1893, 94 e 95, transcorrem sem sobressaltos, apenas com casos esporádicos da febre assassina. Mas muitas famílias abandonam Jaú, temerosas de que a febre ataque de novo. A indústria da construção civil está absolutamente paralisada e o comércio ainda sente os efeitos devastadores do surto passado.
  E novamente num mês de janeiro, desta feita em 1896, a febre amarela volta a cair sobre a população jauense, só que desta vez, muito mais violenta. O primeiro doente é um soldado do destacamento local, que, como uma brincadeira mortal das coincidências, também havia vindo de Rio Claro, como o imigrante que trouxe o embrião do primeiro surto. Na sequência, cai doente  Alberto Gomes Barbosa, tabelião e escrivão da cidade. E a febre em pouco tempo se espalha como rastilho de pólvora, derrubando pobres e ricos numa proporção assustadora. Os médicos locais se reúnem em conferência , traçam planos, elaboram estratégias e pedem ajuda novamente ao governo estadual. Nova equipe de socorro chega à Jaú, tendo à frente desta vez, o próprio diretor dos Serviços Sanitários do Estado, Emílio Ribas.


Instituto de infectologia no Guarujá - Foto de Jeff Dias

  É ele quem confirma oficialmente a nova epidemia  e é ele quem chefia e controla todo o serviço de emergência. O pânico e o medo voltam a tomar conta da população, e a situação complica-se ainda mais depois que o vice-presidente da Câmara Municipal, Constantino Fraga, manda distribuir panfletos concitando o povo a abandonar o município. Os que têm recursos e locais para se refugiar obedecem. E a cidade toma ares de desgoverno, com grupos de  marginais  e de desordeiros agindo sem contestação. E contra Emilio Ribas voltam-se os setores contrariados por suas severas medidas emergenciais.
Nesse caldo de cultura propício ao desafio da lei, destaca-se a figura de um curandeiro que decide desafiar o heróico médico. Num casarão infecto, ele monta um arremedo de hospital e lá começa a internar doentes sob a promessa de curá-los  com rezas, chás e benzedeiras. Exige, além de todo esse disparate, outro ainda maior, exigindo que Emílio Ribas seja expulso de Jaú! Mas o ilustre médico não se intimida com o maldoso e estúpido feiticeiro e afrontando o mesmo, remove, à força, todos os doentes que estavam com o curandeiro para o hospital de isolamento.
  Novos protestos, seguidos agora de ameaça implícita: marca-se dia e hora para o curandeiro e seus seguidores invadirem o hospital de isolamento, removerem os doentes que o médico havia tirado do sujo casarão e, sequencialmente, expulsar Emílo Ribas da cidade!
  Mas, como se diz que herói é aquele que, mesmo que tudo esteja contra ele, a cabeça manda desistir e o coração não deixa, Emílio Ribas, provando isso, conversa com o pouco de autoridades que ainda restavam e, pouco antes da programada invasão do hospital, ele segue até a cadeia pública e lá reúne todos os detentos e os convoca a ajudar salvar a cidade. O apelo do médico sensibiliza aqueles homens rudes, um amontoado de ladrões, assassinos e todo tipo de marginal que estava cumprindo pena na cadeia local. Com a promessa dos mesmo, Ribas manda distribuir fuzis e revólveres para seu exército de molambos.
 À frente daquele estranho e assustador pelotão, Ribas segue até o hospital de isolamento, onde estrategicamente distribui seus “soldados”, fixa as linhas de defesa e repassa as instruções a todos eles. Daí aguardou o ataque do curandeiro e seu séquito...
  Quando eles chegaram, com o líder curandeiro à frente, marchando com a certeza de ter a batalha ganha, deram de cara com o “exército de Ribas”. A surpresa e o susto é geral e, apavorados diante do aparato bélico e das caras de “poucos amigos” dos voluntários de Ribas, eles debandam, fugindo entre vielas empoeiradas. 
  Vencido o inimigo, o médico ordena a seus homens que se perfilem,  devolvam as armas e voltem à cadeia. E eles docilmente obedecem, colocando  as armas no chão, cumprimentando o herói e voltam às suas celas...
  Em julho de 1896, o sanitarista declara oficialmente extinta a segunda epidemia da febre amarela em Jaú. Não há registro, também nessa ocasião, do número de mortos. Mas são muitos. No primeiro surto, 4 anos antes, morreram cerca de 10 por cento; e agora, 60 por cento dos jauenses foram abatidos pela epidemia da febre amarela!
  Nove meses depois, em março de 1897, a febre ressurge na cidade, fazendo novas vítimas, mas bem menos. No ano seguinte as autoridades registram apenas alguns casos, pois agora a cidade já dispunha de água encanada e as medidas sanitárias adotadas surtem efeito progressivamente, até que mais nenhum caso foi  registrado. O heróico médico e sua dedicada equipe venceram a febre amarela!

Vital Brazil e Emílio Ribas fazem parte da história de Jaú!




 

  A convite do governo estadual, o mineiro dr.Vital Brazil ingressou, em 1897, no Instituto Bacteriológico do Estado de São Paulo, dirigido por Adolfo Lutz. Foi então que tiveram início suas pesquisas. 
  Trabalhou junto com Oswaldo Cruz e Emílio Ribas no combate à peste bubônica, ao tifo, à varíola e à febre amarela. Recebeu do governo de Rodrigues Alves a Fazenda Butantan, às margens do Rio Pinheiros, em São Paulo, onde posteriormente veio a fundar e instalar, junto com Ribas, o Instituto Butantan. Foi lá que desenvolveu, com escassos recursos, importantes trabalhos de pesquisa e produção de medicamentos. Os primeiros tubos de soro antipestoso começaram a ser entregues após quatro meses de trabalho. 

 

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