Muito além do jardim 


Shikazo e Kiyono - Foto S.Ferraz - Jornal da Barra - 1995


Imigrantes japoneses em Barra Bonita

  Para quem conhece a estância turística de Barra Bonita, SP, como a cidade de imigrantes italianos e espanhóis em sua maioria, por certo nem poderia imaginar que, bem no centro da cidade vivam dois legítimos imigrantes da Terra do Sol Nascente.
  Shikazo e sua esposa Kiyono, viveram em Barra Bonita até o fim de suas vidas e, na época que fiz esta matéria com eles, 1995, eles tinham cinco filhos, vivos até hoje, nove netos e dois bisnetos, o que deduzo, certamente aumentaram, tanto os netos quanto os bisnetos.
  Shikazo adotou o nome de Paulo, e dona Kiyono, de Maria. A matéria surgiu da minha admiração por aquele homem magro e de pequena estatura, que cuidava do grande jardim da Igreja Matriz de Barra Bonita. Eu costumava passar pelo local e ficava observando ele, num silêncio cósmico, alheio a tudo e a todos, como se estivesse em meditação, cuidando das suas flores. 
  Era tanto carinho que ele dedicava àquele mister, que eu via seus movimentos pelo jardim como uma sessão de tai-chi-chuan. Numa calma mágica, às vezes de pé ou de cócoras, ele parecia acariciar cada flor e conversar com elas mentalmente.
  Assim, sempre que podia, eu ia observar o meu “jardineiro mágico”, até que um dia, criando coragem, “puxei” conversa com ele. Shikazo deu a mim a mesma atenção que dava ao seu jardim. Assim fiquei sabendo que ele morava com a família ali perto, que ele e a esposa tinham vindo ainda jovens do Japão e que ele, depois de morar em outras cidades, acabou vindo com a família para Barra Bonita.
  Perguntei se poderia fazer uma reportagem com ele, e Shikazo, com aquele sorriso que somente têm aqueles que amam a natureza, me convidou a ir até sua casa...Assim nasceu esta matéria. 

  Em junho passado comemorou-se 116 anos do acordo de amizade entre Brasil e Japão. Em junho de 1908, há 103 anos, desembarcaram no porto de Santos, SP, os primeiros 781 imigrantes japoneses e a relação Brasil-Japão começava com eles. O Tratado de Comércio e Navegação entre os dois países já havia sido assinado em 1895 e, por muitos anos, o porto de Santos foi a porta de entrada dos nipônicos no Brasil, até que potentes “boings” começassem a diminuir o tempo de viagem entre a Terra de Vera Cruz e a Terra do Sol Nascente. A viagem por navio naqueles tempos levava cerca de 50 dias!
  Na região centro-oeste do Estado de São Paulo, outro porto, bem pequeno, numa escala infinitamente menor que o grande porto de Santos, mas grande em hospitalidade, abria seus braços a imigrantes italianos e espanhóis. Esse “porto” era Barra Bonita, que também acolheu nossos irmãos de outros estados do Brasil, que para cá migraram em busca de trabalho e fugindo da miséria do Nordeste.
  Se a imigração, em sua maioria, foi provocada pelas guerras, a migração quase sempre é provocada pela miséria. Mas em ambos os aspectos o que conta é o sonho de uma vida melhor em outras terras.
  Assim, se no coração de Barra Bonita cabia tanta gente, por que não acolher também dois imigrantes japoneses e seus filhos? E foi assim que há 56 anos o casal Shikazo e Kiyono chegavam a Barra Bonita, para trabalharem e criar seus cinco filhos.
  Shikazo Kawahara, que a época desta matéria, tinha 80 anos, veio com seus pais do Japão com a idade de 21 anos. Kiyono Takeushi também veio com a família. Ela tinha 9 anos então. Shikazo nasceu num povoado próximo à cidade de Oita e dona Kiyono na província de Hokkaido. 
 
 

Cidade de Oita, capital e o mapa da província de Hokkaido (Hokkaidô)

  No Japão, Shikazo chegou a trabalhar na então emergente Mitsubishi, mas chegando ao Brasil teve que se sujeitar a trabalhar de servente geral numa fazenda na Alta Mogiana, pois não podia ter uma função definida, pois mal compreendia o português. Aliás, tanto a imigrantes japoneses quantos aos italianos, restava trabalhar como colonos, já que da terra-mãe todos são filhos e a linguagem das plantas é universal.
  Da Alta Mogiana Shikazo mudou-se para perto de Garça, SP, cidade que hoje abriga uma grande parte de filhos de imigrantes japoneses dentro do Estado de São Paulo. A outra, que tem tantos ou mais descendentes, é Mogi das Cruzes.
  Shikazo foi trabalhar numa fazenda, no plantio e colheita de algodão, sem ao menos pensar que ali na região, em Quintana, cidade próxima a Pompéia, ele fosse encontrar o amor da sua vida. Ele conheceu a jovem Kiyono e em 1943, meio a uma guerra mundial, o amor falou mais alto que o ódio (como sempre) e eles se casaram. Com a entrada do Brasil na II Guerra Mundial, os imigrantes japoneses, italianos e alemães eram vistos com desconfiança, com povo e autoridades supondo que eles pudessem trabalhar com espiões do Eixo. Mas Shikazo e Kiyono também sobreviveram a isso.
 
 

Ao lado, o Monumento ao 
Imigrante Japonês, em
Mogi das Cruzes, SP. 
Foto de André Assumpção. 
Abaixo, a Festa da Cerejeira, realizada anualmente pela grande colônia
japonesa em Garça, SP. 
Foto do site da Prefeitura da cidade 
e, por fim, a matriz de Barra Bonita, 
onde encontrei Shikazo,
trabalhando entre árvores 
e flores. Foto do GNT.

  O casal então foi trabalhar numa colônia japonesa em Adamantina, para em seguida mudarem-se para Barra Bonita, onde concluíram a criação dos filhos, viram netos e bisnetos e terminaram a vida em paz. Ele em 1999 e ela em 2002. Apenas 3 anos depois do amado. Não deu para sentir saudade, pois as almas de Shikazo e Kiyono logo se encontraram em um lindo jardim, certamente, em algum lugar dentro da imensidão do Universo.

O único japonês que não gosta de pescar e o japonês
que tentou lavar roupa com um pedaço de queijo

  Os cinco filhos (três mulheres e dois homens), não falam o japonês, mas entendem bem, me segredou Kiyono. Ela falava bem o japonês e o português, mas Shikazo ainda sentia dificuldade com a língua brasileira.
   Apesar deles nunca terem deixado de lado o cardápio japonês, com suchi (bolinhos de arroz), sachimi (peixe cru) e udon (macarrão), a mesa foi se abrasileirando, com carne, salada, arroz e feijão. Kiyono, divertida, disse detestar feijão. “Pela nossa idade, preferimos comida mais leve, mas quando nossos filhos se reúnem aqui, sai até feijoada!”, disse rindo.
  Shikazo dedicava seu amor na lida com o jardim da igreja católica e não menos amor tinha Kiyono pela sua quitanda no velho mercado municipal de Barra Bonita, um local histórico, que infelizmente foi demolido para a construção de um mini-shopping center.
  Shikazo não conversava muito, devido ao problema com nossa lingua, e era Kiyono a porta-voz da casa. Ela nos segredou, dando boas gargalhadas, que Shikazo destestava ficar parado...”Ele parece formiga...é o único japonês que não gosta de pescaria, pois tem que ficar parado à espera do peixe, e ele não tem paciência”! 
  A tristeza de Shikazo era quando falava sobre os dekassegues, descendentes de imigrantes que iam trabalhar no Japão. “Foram para lá muitos sobrinhos...muitos parentes nossos de São Paulo e Paraná...Eu tinha muita vontade de voltar ao Japão, não para trabalhar, mas para rever as pessoas...Mas meus parentes e amigos já morreram quase todos...Fiquei muito desgostoso e não quero mais voltar lá”... Dizia ele.
  Kiyono também falava com carinho do Japão, mas não nutria saudade, já que veio ainda criança para o Brasil. Assim, concluindo aquele gostoso bate-papo que acabou se transformando nesta matéria, Kiyono recordou divertida de um “mico” de um pobre imigrante, presenciado por ela...
  “Quando a gente chegava no porto de Santos, eles davam um livrinho para os “chefes de família” com as principais palavras em português e japonês, o qual servia para a gente fazer compras e suprir outras necessidades. Um dos imigrantes então, com o livro na mão, foi ao armazém comprar um pedaço de sabão. Com dificuldade em falar a palavra em português – e não conhecendo queijo, ele acabou levando um pedaço, pensando ser sabão e tentou lavar a roupa com aquilo. Nós, que já conhecíamos, demos muita risada, pois foi um tal de esfrega, esfrega e não saia nenhuma espuma”.

  Me despedi dos dois e, envolvido com a luta pela sobrevivência, nunca mais os vi, infelizmente, nem para o derradeiro adeus. Então, nas pessoas do herói Shikazo e da heroína Kiyono, faço desta matéria uma homenagem aos imigrantes japoneses que adotaram o Brasil como sua segunda pátria, e que nos ensinaram tantas coisas e, entre elas, as principais e mais valiosas, que é a fé em Deus, o amor às pessoas e à natureza, a dignidade, a humildade e o trabalho.



NE – Em memória de Shikazo (1915-1999) e Kiyono (1920-2002), de Yukiko Kawahara (1950-1952) e da família Takaghi, que também morou em Barra Bonita: Chieko Takaghi (1912-1990), Kaor Takaghi (1934-1988) e de Roseli Takaghi (1969-1969). Um dia, pela graça de Deus, nos encontraremos na Pátria Eterna, onde imperam o Amor, a Paz e a Justiça e onde não existem morte, dor e lágrimas, e da qual ninguém nunca mais terá que sair para viver em outras terras. 
 
 Atualização da matéria que fiz em 1995 para o Jornal da Barra
Foto ao alto da página: o famoso porto de Santos, hoje

 

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