Rosalvo Joaquim de Jesus 

 

 



 

 Rosalvo Joaquim de Jesus, que também já partiu para outra e melhor dimensão, tinha 69 anos de idade quando eu o entrevistei. Ele nasceu em Simão Dias, estado de Sergipe, e já em 1956 veio para Barra Bonita com a família ainda pequena. Depois, com o nascimento dos filhos, a família foi aumentando. Rosalvo foi casado com dona Josefa Souza e o casal teve sete filhos. 
 Este retirante nordestino começou a vida trabalhando na Usina da Barra (Ubasa), em seus gloriosos tempos. Depois Rosalvo trabalhou na Cesp e finalmente conseguiu montar sua loja de conserto de rádio e tevê, e passou a trabalhar por conta própria, o que fez até atingir a merecida aposentadoria. 
 Naquela época, lembra ele, técnicos em eletrônica só havia ele, o seu Mamede e o Lauro Stangherlin. Em todos esses 48 anos Rosalvo nunca abriu mão, sequer uma vez, de uma vez por ano ir visitar sua terra natal. E esta ligação Nordeste-Barra Bonita, tornou Rosalvo muito conhecido, e assim, todo nordestino que vinha para o estado de São Paulo tentar a sorte, tinha a casa de Rosalvo como referência. E ele jamais negou abrigo para nenhum de seus irmãos do Nordeste. Teve vez, lembra ele, que chegou a hospedar 21 pessoas em sua casa. E não só abrigo Rosalvo dava a eles, mas também os ajudava a encontrar trabalho. 

Homem macho, sim, sinhô!

 O nome do pai do Rosalvo era Manoel Barbosa Gama, mas era conhecido como Mané de Freitas. Ele foi uma espécie de “xerife do velho-oeste” numa cidadezinha chamada  Pau-de-leite. Mané de Freitas, que viveu na época de Lampião, ingressou na Força Pública, como era conhecida a Polícia Militar naquele tempo, no estado da Bahia. Porém, quando o comandante soube que Mané de Freitas tinha parentes no bando de Lampião (Maria Bonita seria uma prima distante dele), mandou ele para Sergipe. 
  Naquele estado, Mané de Freitas encontrou outro militar que já havia sido seu comandante, e que acabou colocando-o mais tarde como responsável pela delegacia da cidadezinha de Araci, mais conhecida como Pau-de-leite. A cidade, segundo Rosalvo, nasceu ao redor de uma árvore de cujo tronco vertia um líquido viscoso e branco. As pessoas iam chegando e construindo suas casas próximas à árvore e logo surgiu a vila e o nome Pau-de-leite surgiu junto e acabou ficando. 
 Um dia o Rei do Cangaço, em tom de brincadeira disse que ia até àquela vila para conferir se o pau era de leite mesmo. A coisa acabou virando lenda, mas na época Mané de Freitas, já como delegado da vila, e que não dormia no ponto, pois dizia que o sono era irmão da morte, armou todos os homens da cidade e ainda pediu reforços em Aracaju. Vieram armas, munições e 30 soldados e foi montada uma barricada na entrada principal da cidade. Mas Lampião e seu bando jamais apareceram por lá. Era tudo boato. 
  Rosalvo lembra de um fato engraçado naquele dia. Mané de Freitas havia colocado homens nos altos dos morros, para avisar caso Lampião resolvesse vir por ali. E de repente, de um dos morros ouviu-se um tiro. Todos correram para lá. Não era Lampião e sim o sentinela, que entediado, resolvera praticar tiro ao alvo numa preá, um pequeno roedor que habita as margens dos rios. Mané de Freitas deu uma tremenda bronca no sujeito, mas ao mesmo tempo sentiu-se aliviado por Lampião não ter ido até lá para conferir se o pau dava leite ou não... 
 Outro fato lembrado por Rosalvo e que envolveu o senso de justiça própria de seu pai, também se relacionou com o Rei do Cangaço, naquela época já famoso, temido e perseguido do Pernambuco à Bahia e do Sergipe a Alagoas. Apareceu um sujeito, conhecido comprador de gado, todo rasgado e machucado, dizendo que Lampião e seu bando o haviam pego num local chamado de Duas Bodegas (Bodega é venda, empório) e que haviam lhe roubado todo o dinheiro que era para pagar uma recente compra de reses. Mané de Freitas foi investigar e descobriu ser armação do sujeito, que usava a fama de Lampião para não ter que pagar pelo gado. Ele então meteu o cara na cadeia, onde acabou machucado de verdade, após uma surra de cassetete. 
 Após tudo isso, e de ter enfrentado ainda muitos perigos e colocado ordem na cidadezinha de Araci, Mané de Freitas continuou no comando da polícia ali, contando apenas com dois soldados, que eram João Panta e Pereira. E Mané de Freitas acabou virando lenda em Pau-de-leite, contando-se histórias de que ele chegou a prender sozinho 11 bandidos. Todos de uma vez só. Mané de Freitas aposentou-se e passou o resto da vida viajando e contando suas memórias para os filhos e netos. Faleceu aos 85 anos de idade. Rosalvo, como todo bom nordestino, lembra com orgulho, respeito e emoção do seu pai, que inclusive chegou a visitar o filho em Barra Bonita. 
 


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