O Maior Espetáculo da Terra

Ver matéria do Circo Paolo Orfei


 
 

Arte milenar

  O circo, segundo achados arqueológicos, parece ter sido a primeira forma de diversão artística que existiu no mundo. Ele se perde na noite dos tempos. Nem se sabe quando o circo nasceu. Os vestígios mais antigos são desenhos de malabaristas e mulheres sobre um cavalo ou um touro - não se sabe - que encontraram em grutas, no baixo Egito. Esses desenhos datam de 3700 a.C.
 Quem sabe quando nasceu o circo? Se um artista da época pintou no muro esse desenho, é porque o circo já era desenvolvido. O circo é a arte mais antiga de todas porque é espontâneo. É como a alma de uma criança: é  simples em sua essência e é uma criação individual, e não coletiva como o teatro, por exemplo.
 No Império Romano, os mambembes foram trabalhar para os nobres, na Corte, porque o circo tinha virado uma luta de animais contra animais, homens contra animais e, depois, homens contra homens. O imperador Constantino, ao professar o Cristianismo, proibiu  os sangrentos espetáculos. O circo romano não tinha nada a ver com a poesia do circo nascido em praça pública e que resistiu ao Império Romano.
 Trezentos anos antes, na China, artistas que se contorciam e se equilibravam sobre cordas já entretinham imperadores e visitantes estrangeiros. Com o fim do Império Romano e o início da Idade Média, no século 5, trupes de mímicos, ventríloquos, ilusionistas e equilibristas, entre outros, começaram a se apresentar em feiras e praças pela Europa. Pulavam de cidade em cidade, sobrevivendo de contribuições espontâneas. Só no século 18 é que organizadores de espetáculos perceberam que as pessoas pagariam para assistir a esses artistas do povo. Alguns palcos com entrada paga foram abertos no continente. Foi nessa época que Philip Astley teve sua grande sacada.
 Um dia o inglês Astley, um sargento da cavalaria britânica, teve a idéia de juntar, no mesmo espetáculo, os números com cavalos que ele preparava para a nobreza britânica e os saltimbancos que trabalhavam na praça pública. Em 1770  nasceu o primeiro circo moderno, com artistas e animais. Depois, veio o alemão Hagenberg, que foi o primeiro a entrar numa jaula com animais ferozes.

O grande Circo Orlando Orfei

   E, já que esta matéria é sobre a arte circense, não tem como iniciá-la sem antes falar do mais famoso e tradicional do Brasil e um dos mais conceituados no mundo: O Circo Orlando Orfei, cujo nome e história se fundem com seu proprietário: Orlando Orfei (foto ao alto). Artista polivalente, pois já fez de tudo no picadeiro de um circo, Orlando representa a quinta geração dos Orfeis. A família, que ainda trabalha com circos até hoje, se concentra mais na Europa e o Circo Orlando Orfei está no Brasil desde 1968.
  A saga dos Orfei teve início em 1822, quando um padre italiano (Abelardo Orfei) deixou a batina para ser músico. Numa apresentação no Conservatório de Ferrara, na Itália, ele se apaixonou por uma jovem da família Massari. Ele pediu a mão da moça em casamento, mas os Massaris se opuseram, o que obrigou os apaixonados a fugirem e a procurarem abrigo num acampamento cigano. Desse amor, nasceu Paolo Orgei, que seria o patriarca da arte circense da família. E assim surgiu o Circo Orfei... 
 E a paixão do circo foi assim, passando de pai para filho, até Orlando Orfei, representante da 5a geração do casal de apaixonados fugitivos. Até a data desta matéria, com 88 anos de idade, Orlando Orfei somente tirou os pés do pó de serra dos picadeiros uma vez, por causa de um derrame. E já teve problemas cardíacos também. Hoje, é claro, ele não mais enfrenta leões na jaula, como domador e muito menos o número como domador de hienas, que somente Orlando Orfei fez até hoje. Ele também já não faz números de palhaços ou malabarista, nem de ciclista acrobático e nem mágicas, pois praticamente tudo disso ele já fez. Orlando Orfei se dedica a administrar o circo e a abrir sempre o espetáculo com seu deslumbrante número da Dança das Águas, um espetáculo que encanta adultos e crianças já há décadas.
 Seus parentes circenses estão todos na Itália, de onde percorrem a Europa com seus espetáculos.  Nos dois parágrafos abaixo, Orlando Orfei fala de Orlando Orfei e é o bastante para se aquilatar a grandeza, a garra e o amor desse homem pelo circo.
 “ Nos números com feras, sempre que eu era ferido, eu fazia um processo mental, analisando o fato. Eu ficava pensando: "Por que aconteceu? Eu fiz isso, fiz aquilo outro." No final, via que a culpa era sempre minha, eu não podia dar a culpa aos animais. Eu continuei trabalhando até nas 63 vezes que fui parar no hospital, cinco em estado grave, e outras vezes com ferimentos mais leves. Era o meu trabalho... 

O circo, por Orlando Orfei

 Fui o único do mundo a trabalhar com hienas. Tive que aturar aquela hiena que se vê no cinema. Eu na jaula com um chicote. Fui o único no mundo, agora já passou. Era rápido, agora estou velho, tenho 88 anos.... Tive um derrame cerebral anos atrás, que me paralisou totalmente, mas consegui sair do buraco e trabalhar de novo com as feras. A primeira vez que entrei na jaula, um ano depois do derrame, eu disse para o público: "Desculpem-me se os movimentos não estão perfeitos, um derrame me paralisou. Foram meses na cama e na cadeira de rodas." É quando a vida de um homem parece não interessar mais. Mas comigo não foi assim. Foram horas e horas de ginástica, o que demonstra que a derrota de um homem está só na entrega. Se não se entrega, não está derrotado”.
 Orlando começou a trabalhar no circo aos 9 anos de idade e só foi estrear aos 14. Ele mesmo explica: “ Passei cinco anos ensaiando, todo dia, todo dia, todo dia. O número mais difícil que existe é o malabarismo. O bom malabarismo, não é? No circo você será um bom artista se começar antes dos 20 anos. Mas um grande artista, não. O grande artista tem que ser como a ginasta romena Nadia Comaneci, que começou quando tinha 4 anos e conseguiu, nas Olimpíadas, fazer uma coisa nova. É assim no circo também. Se você não inicia cedo, não faz nada.
 Para não fugir à regra e devido às crises que hoje estão atingindo todos os circos no Brasil. O Circo Orlando Orfei é o maior e, dos maiores, é o único que ainda está se aguentando, Orlando desabafa dizendo que os adolescentes de hoje já não ligam mais para o circo, pois, segundo ele, os maiores de 10 anos e os menores de 40 não amam mais tanto o circo. “Pensam que o circo é uma diversão para as crianças. Mas não é só isso. O circo é diversão para crianças e também para quem já foi criança. Eles não entendem que o circo está baseado na habilidade e na beleza de nossos filhos, que estudaram 10, 15 anos para fazer um número que, na frente do nosso respeitável público, durará cinco minutos. Dez anos de sacrifício por cinco minutos de trabalho. Isso é o circo.
 O circo é assistido por  pessoas sensíveis e inteligentes, que compreendem nossos sacrifícios. Passam os anos e o adolescente, quando vira adulto, volta ao circo para trazer as crianças. E sairá mais entusiasmado que as crianças e voltará sempre, até que, um certo dia, virá junto com seus netos àquele circo onde, no passado, transcorreram momentos de alegria. 
 Quando o público aplaude, quando ri, isso dinheiro nenhum no mundo pode pagar. Só os artistas provam essa experiência de dar alguma coisa, alguma alegria ao público. Charles Chaplin disse que os momentos mais felizes de sua vida eram aqueles em que via surgir um sorriso nos lábios de uma criança. Eu, Orlando Orfei, agradeço aos meus pais por terem me feito nascer em um circo, porque vi milhões de crianças sorridentes e pais felizes pela alegria despertada nos filhos. O papa João XXIII disse que o circo é um apostolado de paz. Eu me sinto orgulhoso de ter dedicado a minha vida a essa diversão pura”.

As polêmicas sobre circos

 Quanto à polêmica no Brasil de se ter numeros com animais, Orlando Orfei é categórico: “São sonhadores, porque um circo sem animais não é circo. Salve o Cirque du Soleil, que, com a ajuda do governo canadense, gasta milhões para fazer um número que não é nada. É um show de fantasia que dura vinte minutos. Minha mulher foi ver o Soleil, uma coisa grandiosa em termos de figurino, mas adormeceu. Você foi ver o meu circo? Isso é que é circo: veloz, rápido. O restante para mim é um show da moda, que pode continuar ou desaparecer. O circo clássico, como o meu, é eterno, nunca morrerá.
 E os animais de circo são também como nós, gerações e gerações que já nascem dentro de um circo. Eles não conheceram a selva e, portanto, ninguém sente falta de uma coisa que não conhece. Quando eu era menino, não tinha geladeira e não sofria; não tinha forno elétrico e não me interessava. Quero dizer com isso que você não sofre por uma coisa que não conhece.  Duvido que Júlio César sofresse porque não tinha carro. Os nossos animais não são presos na selva, onde os animais se massacram todo dia, um come o outro. Nossos animais comem a carne do açougue. Eles não são capturados na selva, onde estavam livres, e postos na prisão, que seria a jaula. Nossos animais são de gerações e gerações que nascem no circo. Sua jaula não é a prisão, é a toca onde comem, bebem, brincam, fazem amor, têm amigos. Eles não conhecem a falta de liberdade, pois nasceram na jaula. Não é verdade que sofram pela falta da liberdade, porque não se sofre por aquilo que não se conhece. Os nossos animais não conhecem a liberdade. Um pássaro que você pega e põe na gaiola, esse, sim, sofre”.
 Já sobre a proliferação de circos, que surgiram e desapareceram nas últimas décadas anteriores a 1990, Orlando Orfei diz que é uma grande dano aos grandes e tradicionais circos do mundo. No Brasil, cita ele, surgiram os circos de Beto Carreiro, Beto Pinheiro, do ator Marcos Frota e outros, sem a tradição de um verdadeiro circo. E isso causou danos a circos como o Vostok, que acabou fechando e, recentemente, ao Grand Circo Garcia, que encerrou suas atividades no Brasil em 2003. Eu também, com meu circo, a bem da verdade, estou em crise. Mas pode morrer um circo, mas não o Circo. Este é imortal!

Mister M

 “O Mister M é um pobre coitado que pensou em ganhar dinheiro prejudicando o símbolo de fantasia dos magos. O que ele fez, a gente esquece. E com a propaganda que foi feita talvez se tenha falado de mágicos mais do que em qualquer outro momento. Mas Mister M não é nada. Ganhou dinheiro prejudicando uma categoria e, por isso, para mim, não é um bom homem. Deveria fazer dinheiro com sua habilidade de mágico, não desvendando truques inteligentes. Conhece o truque da pantera? É uma coisa interessantíssima: a mulher entra dentro de uma jaula e, ao se levantar o manto, em vez da mulher, está um leopardo. Se eu digo para você como se faz, acaba tudo, acaba todo o fascínio... Porque milagre não é, certo? É Cristo quem faz milagres. A magia é um truque feito tão bem que o público gosta e se pergunta: "Mas como? Como é feito? Que fantástico!"
 Concluindo, Orlando Orfei, cristão convícto, foi condecorado pelo Governo Italiano como Cavalheiro Oficial da República. No Rio de Janeiro, São Paulo e Goiânia é cidadão honorário. Recebeu o título de Cidadão Carioca pelo município do Rio de Janeiro e foi recebido também pelos papas Pio XII, Paulo XVI e João Paulo II. Mas foi o papa João XXIII, que ao recebê-lo 5 vezes disse-lhe, - Orlando, o seu trabalho é um apostolado de paz, continua a levar ao mundo e às famílias cristãs a alegria.

Para ser artista de circo é preciso nascer dentro de um

  Enfatizando não acreditar em “escolas” circenses, pois segundo sua experiência profissional e de vida, disse nunca ter visto um artista verdadeiro, digno dessa palavra, que saiu de uma escola dessas, Orlando Orfei garante que a melhor e verdadeira escola é o circo que tem o pai com o filhos, irmãos com irmãos, onde um pai trabalha 5, 6, 7 anos para fazer um número com o filho que dura cinco minutos. E, quanto ao pedido de João XXIII, para ele continuar levando alegria ao mundo, Orlando tem o costume de, além de fazer espetáculos gratuitos para deficientes, idosos e crianças carentes, ele também faz questão de distribuir ingressos gratuitos aos presidiários, para que estes os dêem aos familiares para irem assistir ao maior e mais tradicional circo da história do Brasil:  Orlando Orfei!

Moira Orfei

 A Família Orfei, originária da Itália, com sangue de pó de serra dos picadeiros correndo nas veias, é enorme, e praticamente toda ela dedicada à arte circense.
Moira Orfei é uma das grandes representantes, entre outros Orfeis não menos famosos na Europa. Mas quem é Moira Orfei? Ela é a chamada “Mãe do Circo”! Uma famosa atriz que trabalhou em quarenta e sete filmes e, desses, também  trabalhou com o grande astro do cinema italiano Marcello Mastroianni. Ela também participou do filme Casonova e, seu maior trabalho foi em Perfume de Mulher, 1965, contracenando com ninguém mais, ninguém menos que o genial Vittorio Gasmann. Este filme teve um remaque em 2000 com Al Pacino.
 
 

Moira Orfei no filme Perfume de Mulher; em 1965, já com o circo; e em 2009, num cartaz do circo

 Mas, acima de tudo ela é a diretora do circo italiano Moira Orfei, que celebrou em 2009 seu quinquagésimo aniversário! Um circo que foi fundado em 1959 e viaja por toda a Europa, levando seus espetáculos às velhas e novas gerações nesses incríveis 50 anos de sucesso.
 O Circo Moira Orfei tem em sua trupe, além de grandes e formidáveis artistas e dos talentos da própria família Orfei,  o mundialmente famoso palhaço David Larible, galardoado em Monte Carlo, China e Estados Unidos e o talentoso mágico Vladik! Ao todo, são mais de 170 artistas e 100 animais que trabalham no circo, além dos funcionários, caminhões e um comboio especial, o que forma oitenta caravanas. Um universo onde impera a magia, a cor e o riso, tudo sob a direção de Moira, que segundo ela mesma, o segredo do seu sucesso é que ela se considera única! E isso, para bom entendedor, quer dizer, sem chance de concorrência! 
 
 


Picadeiro de trapezistas - Circo Orlando Orfei

Circo Vostok - O grande que baixou as lonas

Sr.Orlando e seu amigo, pe. Anselmo

Circo Orfei - Darix Martini - Itália

Circo Nando Orfei - Itália

Alfredo Montemagno e seus cães amestrados

Circo Paolo Orfei

Circo Federico Orfei

Stefano Orfei e seu tigre siberiano

Cartaz do Paolo Orfei, na Europa

Outros grandes circos


Beto Carreiro 1992

Circo Di Roma

Circo Garcia


Circo Robattini, acima, e Circo Sarrasane

Na foto ao lado, o circo Garcia no apogeu em meados do século passado e sua dona, Carola Boets e seus amigos chimpanzés.

Fecham-se as cortinas do Circo Garcia

 O Circo Garcia, o quarto maior do mundo e o mais famoso do Brasil fechou as portas depois de 74 anos de sucesso. Além do desemprego para os artistas, a crise gerou outro drama: o que fazer com os animais? Quem cuida deles e quem paga o custo da alimentação? Só no ano passado, sessenta leões foram parar nas mãos do Ibama por conta da falência dos circos no Brasil.
 No local onde ficava o picadeiro, os chimpanzés fizeram a última exibição. Lonas, mastros, cadeiras, nada mais será usado. A trupe não consegue esconder as lágrimas. 
 Foram 74 anos de espetáculos no Brasil e no exterior. O Circo Garcia chegou a ser considerado o quarto maior circo do mundo. Agora, com dívidas que chegam a quase um milhão de reais, não há mágicas nem malabarismos que os donos possam fazer. 
“Em 22 de abril fariam 50 anos que eu estou no circo. Se eu pudesse viver dez vidas, viveria dez outras vezes em circo, que é a melhor vida do mundo” – disse a proprietária Carola Boets. 
 Não foi só para o Circo Garcia que os ventos mudaram. Segundo o Ministério da Cultura, dos dois mil circos em atividade no país nos anos 80 restaram apenas 300. 
Vender os animais é uma dura saída para o Garcia tentar saldar as dívidas. Segundo a proprietária, os tigres valem R$ 20 mil cada. As elefantas que foram compradas durante uma turnê na Tailândia valem R$ 300 mil.

Circo Garcia desce em definitivo suas lonas 

 As cortinas do espetáculo se fecharam. Para sempre. Atolado em dívidas que chegam à casa dos R$ 800 mil, o Circo Garcia, o mais antigo do Brasil, encerrou as suas atividades. Fundada em Campinas, em 1928, a companhia circense chegou a figurar, na década de 70, entre as quatro maiores do mundo.
 Seu fundador foi Antolim Garcia, paulistano, filho de imigrantes espanhóis, que conduziu o Circo Garcia ao sucesso no Exterior. O apogeu aconteceu entre 1954 e 1964, quando os espetáculos, com cinco lonas e cerca de 200 artistas contratados, viajaram por 72 países do mundo.
 Desde a década de 80, o Garcia enfrentou crises financeiras sucessivas. A arte circense já encarava a concorrência da televisão, que passou a oferecer diversão sem que as pessoas precisassem sair de casa. Muitas lonas foram baixadas, no Brasil inteiro. Mas a instabilidade econômica atual foi decisiva.
 A alta do dólar tornou inviável o pagamento de artistas internacionais, com remunerações atreladas à moeda norte-americana. O Garcia chegou a pagar US$ 2,7 mil por semana a trapezistas mexicanos. Quase toda a dívida atual é referente a salários atrasados.
 Além disso, diversas leis passaram a proibir, em determinados municípios, a presença de animais no picadeiro. E, para o Garcia, não existem espetáculos sem animais. Era um dos únicos circos do mundo onde era realizada a procriação deles.
 Mas alguns acontecimentos marcaram, de maneira particular, a derrocada do Garcia. Antolim morreu em 1987. Desde aquele ano, o grupo era administrado por sua mulher, Carola Boets, e pelo filho dele, Rolando Garcia, que faleceu em 2002. 
 Foi por meio de uma proposta de trabalho que Carola Boets, uma belga criada na Suécia, veio com a família para o Brasil no início da década de 1950. Para apresentar o número musical "Ascandales", ela assinou contrato por apenas um ano, mas acabou se apaixonando pelo dono do circo, com quem se casou em 1953, e nunca mais foi embora.
 Agora Carola passa os dias olhando velhas fotografias e álbuns montados com recortes de jornais estrangeiros. São reportagens elogiosas ao circo. E, ao lado das pastas, fica o cinzeiro, lotado de bitucas de Carlton, que ela fuma sem parar.

Matéria do Circo Garcia publicada pelo Correio Popular 
Campinas – 07 de janeiro de 2003



Cuidado se alguém o chamar de "gracioso"


 

 Segundo consta nos relatos de Pero Vaz de Caminha, uma das naus portuguesas que aportaram no Brasil trouxe um "homem gracioso" chamado Diogo Dias. Depois de dançar com os índios ele "fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito". Para a pesquisadora Alice Viveiros de Castro, Diogo Dias foi o primeiro palhaço a pisar em solo brasileiro: "O termo ‘gracioso’ era utilizado, nessa época, para designar os atores cômicos. Os dicionários mais antigos indicam histrião e bobo como sinônimos de gracioso, ou seja, palhaço", explica Alice. Ela afirma que o "salto real" era equivalente ao salto-mortal, e as voltas ligeiras seriam possivelmente acrobacias, voltas de mão e rondadas, muito comuns nas apresentações de saltimbancos da época.
 Aos palhaços sempre coube a função de fazer rir grandes e diversificadas platéias. René Mauro, cômico que ganhou o apelido de Soneca quando trabalhava, entre bocejos, como bilheteiro do circo, diz o seguinte: "O palhaço deve contar uma piada já pensando na próxima, não pode perder o pique do espetáculo. É como um jogador de futebol: se não correr em campo, ele perde o jogo". Além disso, precisa atuar sem se preocupar com provocações, embora nem sempre isso seja possível. Certa vez, Soneca contou uma piada e alguém resmungou: "Essa é velha". Sem perder tempo, ele respondeu: "A educação é velha e você não aprendeu".
 No Brasil, há basicamente três tipos de palhaço: o clown, ou "escada", que, nas entradas cômicas e intervalos entre apresentações, auxilia o "excêntrico", e o toni de soirée, uma espécie de "faz-tudo". Segundo Roger Avanzi, um dos fundadores da Academia Piolin de Artes Circenses (1978),  o "excêntrico" é o palhaço de sapato grande, roupas coloridas, que fala muito e conta piadas. Já o clown faz um sujeito normal, instruído, poliglota, elegantemente trajado. Numa sátira da sociedade, juntam-se os dois personagens, e o clown tenta provar a ignorância de seu parceiro, "mas, no frigir dos ovos, o excêntrico lhe dá uma rasteira, já que na vida nem todo mundo sabe tudo. O bobão é mais simpático e o outro ganha vaia da platéia". Já o faz-tudo, como o nome diz, é o palhaço que entre um número e outro ou mesmo durante o número, quando o artista precisa de "um fôlego" para continuar, ele entra e faz o mesmo que o artista, mas de maneira atrapalhada, chamando a atenção e o riso da platéia, enquanto o artista se recupera.

 Na ilustração acima, o palhaço Bozo, importado dos EUA pelo SBT e que fez relativo sucesso na tevê brasileira. Os palhaços brasileiros de mais destaque foram Carequinha, Piolim, Pururuca e Torrresmo e Arrelia e Pimentinha 



O selvagem show do lendário Buffalo Bill

Um dos cartazes do Circo Buffalo Bill, em espanhol

 Na sequência da Família Orfei, que começou em 1822, do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos viveriam sua era de ouro do circo no século 19. Na década de 1830, o equilibrista inglês Thomas Taplin Cooke criara seu próprio show – que, após encantar o rei William IV, passara a ser chamado Circo Real de Cooke. Com o estrondoso sucesso, em 1836 ele juntou sua companhia de 120 pessoas (um terço delas membros da família) e embarcou para Nova York – foi o primeiro homem de que se tem notícia a cruzar o Atlântico com um circo inteiro. Estabelecidos na América, muitos dos Cooke se casaram com membros de outras famílias circenses, fazendo do clã um dos mais importantes das famílias de picadeiro. “Em 1897, havia mais de 200 descendentes diretos de Thomas Taplin Cooke, a maioria envolvida com o circo. O circo era, e ainda é, uma comunidade fechada”, diz Peter Verney em Here Comes the Circus (“Aí vem o circo”, inédito em português).
 Na época, um sapateiro americano resolveu arriscar a sorte ao criar o próprio espetáculo. Aron Turner usou uma tenda desmontável, novidade que acabara de dar os primeiros primeiros passos na Europa – até então, o circo tinha uma estrutura fixa. O Circo Turner rodou o país agitando cidades com uma invenção de seu fundador, as paradas de rua. O espetáculo com estrutura móvel fez sucesso. 
 Na Europa, a itinerância também agradava. George Sanger fazia turnês de nove meses, passando por 200 lugares. Na Rússia, os espetáculos apresentavam-se desde o fim do século 17, incentivados pelo czar Pedro, o Grande, e formaram a base de uma das escolas mais respeitadas no mundo do circo.
 Em 1883, no Nebraska, Estados Unidos, William Cody iniciou um fenômeno que virou moda por décadas: o Velho Oeste. Com elencos enormes, que incluíam mais de 100 índios e perseguições a cavalo, Cody tornou-se uma lenda, lembrada até hoje por seu nome artístico: Buffalo Bill. Na mesma época Phineas Taylor Barnum, famoso pelo chamado “Circo dos Horrores”, e James Bailey, exibiam-se dentro e fora dos Estados Unidos com o show O Maior Espetáculo da Terra, nome que deu origem ao filme estrelado por Charlton Heston e Tony Curtis na década de 60 e que usamos também para dar título a esta matéria. Coincidentemente, o grande ator Heston personificaria também Buffalo Bill em outro filme.
 William F. "Buffalo Bill" Cody, nasceu em  Le Claire, Iowa, em 1846 e faleceu em 1917 quando visitava sua irmã em Denver. Após ter organizado seu Wild West Show, Bill tinha o costume de visitar Denver e o Colorado muitas vezes. A essa altura, entre 1886 e 1916, ele já havia feito 35 temporadas com seu show apenas no Colorado.
 No Brasil surgiria, na garupa da fama do circo criado por Cody, o também Circo Búfalo Bill, mas que nada tinha do show do velho-oeste do verdadeiro circo americano. Em 1965, época áurea dos circos no Brasil, o Circo Bufalo Bill (brasileiro) e também o Circo Garcia, estiveram em Rio Claro, SP, em tournês de enorme sucesso.


Na foto, o lendário Bill Cody e índios de verdade, que participavam do show. 
No circo, é claro, também havia a cavalaria e os cowboys

Matéria baseada em dados e notícias da Enciclopédia Abril-1967, Jornais Tribuna de
Santos, Correio Popular e Jornal da Barra e revista Problemas Brasileiros, 
além de entrevistas com artistas do circo Paolo Orfei no Brasil.






 

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