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Velho é o seu preconceito!
Sergio Ferraz
 


 
 
 

     De repente você sente que parece que alguém aumentou os degraus da escada. Coisas corriqueiras que você fazia antes, sem problema, parecem estar mais difíceis para executar hoje. A memória às vezes tem lapsos de esquecimento e a concentração fica mais difícil. Daí você chega à óbvia conclusão de que está velho.
     Então, caso você tenha feito uma boa colheita na árdua batalha de sua vida, você poderá ter uma velhice tranquila. Os mais jovens olharão você com desprezo, de qualquer maneira, mas você não vai sentir-se um peso. Porém, se infelizmente sua labuta não foi frutífera, você agora passará a contar tão somente com o Sistema Unificado de Saúde e, no lazer, com uma simples carteirinha que o classifica como membro de um clube de 3a. idade, dando-lhe oportunidades para dançar nos finais de semana e vez ou outra, participar de uma excursão farofeira.


Abraão, pai de grandes nações,
como Deus disse, foi chamado
por Deus para ir a lugares
que não conhecia, peregrinando por
montes, vales e desertos. Ele
estava com 75 anos de idade...
Moisés foi chamado por Deus aos
80 anos de idade e recebeu a missão
mais espetacular que um homem
poderia ter: tirar o povo de Deus
do Egito e levá-lo até a Terra
Prometida. Eram quase3 milhões
de hebreus, descendentes de Abraão
e que viveram por cerca de 430 anos
como escravos no Egito.
Só para se ter uma idéia da grandiosidade
do trabalho de Moisés, após tirar
o povo de Deus das garras do faraó,
ele  cuidou deles por 40 anos,
contando apenas com a ajuda
de seus irmãos Aarão
e Miriam. Campinas, uma das maiores
cidades de São Paulo, tem cerca de 2
milhões de habitantes. Isso quer dizer
que o povo que Moisés conduziu dava
a população de uma Campinas e meia!


     De uma ou outra forma, caso você não fique no “trono de um apartamento com a boca arreganhada, cheia de dentes  esperando a morte chegar”, você passará a ter em sua velhice, como única companhia, o fantasma do medo de ir parar num asilo.
     O aumento da população brasileira com mais de sessenta anos, nas últimas décadas, evidencia que a ciência progrediu muito na área geriátrica, mas por outro lado, evidencia também os problemas da velhice. Mas as soluções existem e uma delas seria a cultura como agente transformador da maturidade.
     Não é preciso conviver com um cenário de solidão e preconceito. Os próprios idosos estão redescobrindo a vida. E não há nada mais belo neste mundo do que um velho sadio e cheio de sabedoria. Presumindo-se que se um homem tivesse de viver esta vida como uma poesia, poderia considerar o ocaso da vida como o período mais feliz e, em vez de querer postergar a tão temida velhice, deveria esperá-la com agrado e preparar-se para viver nela o período melhor e mais feliz  da sua existência.
 
 


     Mas, para que tudo isso aconteça, impedindo que uma pessoa ao chegar à maturidade, não se sinta apenas um objeto obsoleto e descartável, é necessário criar no Brasil toda uma infraestrutura além da área geriátrica, para receber aqueles que estão adentrando a até então temida 3a. idade. É necessária uma cultura, até agora inexistente, para realmente ser o agente transformador da maturidade. É preciso repensar, redescobrir, reestruturar, recriar e remodelar tudo o que até agora foi feito para o idoso. E a base sólida para isso, para gerar nos mais jovens o respeito e o afeto aos pais e avós e gerar nos próprios idosos o auto-respeito, tem necessidade de ser cultivada pela educação.
     Em quase todos os programas de nossas tevês comerciais e também em seus anúncios publicitários, o que se vê é a apologia de que tudo que é bom, belo e desejável, é jovem. E com isso o idoso é e se sente cada vez mais discriminado. 

      No corpo humano há uma infinita capacidade para ajustamentos e adaptações e já é comprovado que quanto mais a pessoa usa o cérebro, menos possibilidade há de ela se tornar senil com o passar dos anos. Nossos médicos  sabem disso, mas, talvez por puro descaso e falta de uma educação adequada, isso é desconhecido da maioria dos brasileiros e, o  que é pior, é olvidado pelos nossos governantes!
     Quando a equipe do ministro José Serra criou o “Velho é o Seu Preconceito”, acabou apontando para o caminho certo. Muita coisa pode ser desenvolvida e realizada dentro desse tema. O caminho é longo e difícil e está literalmente tomado pelas raizes do preconceito. Mas com boa vontade, muito amor, educação e determinação, podemos limpá-lo.
     Os avanços da medicina garantem já há algum tempo, uma melhor qualidade de vida aos nossos idosos e, se lhe derem o devido espaço, ele continuará produtivo. Relembrando os tempos bíblicos,  podemos citar a passagem onde Caleb pede a Josué uma parte de terra para nela produzir e criar sua família, dizendo: “Eu tinha quarenta anos de idade, quando servi a Moisés. Quarenta e cinco anos já passaram e hoje estou com oitenta e cinco anos de idade, mas sinto-me ainda robusto como naquela época e sinto-me forte, tanto para a guerra, como para qualquer outra missão”.
     Julieta Cupertino, foi exemplo semelhante. Aos 92 anos de idade trabalhava como tradutora de livros e dominava um computador como qualquer jovem. O fim do ranço do preconceito pode criar a oportunidade e a oportunidade cria o espaço para existirem outros Calebs e Julietas. 
     Uma velha máxima diz que “quanto mais velho o vinho, melhor é o seu sabor”. É preciso criar então uma cultura no Brasil para que os mais jovens acreditem nisso e   para que os idosos tenham certeza disso; é preciso esquecer a palavra preconceito; e, sobretudo, é preciso mais tevês Cultura e menos programas de estrutura capitalista, com seu marketing massificante da pasmaceira e imbecibilidade, que fazem apologia do belo e jovem, estigmatizando o velho. A medicina e os homens inteligentes e de boa vontade estão fazendo sua parte...Não podemos mais considerar “velho” uma pessoa que passou dos quarenta anos de idade e tampouco levar nossos verdadeiros idosos a um estado latente de sentimentos de desvalorização. Não podemos deixar a contra-cultura da maioria da mídia continuar submetendo jovens e velhos ao negativo preconceito da idade. Como deu o pontapé inicial o Ministério da Saúde, é o caminho para que não só o ano do idoso, mas este e todos os vindouros, sejam o Ano do Idoso!
     É hora de buscarmos nossos valores humanos. O nosso e o do outro, principalmente o idoso, como nosso próximo. É hora de sentir o maravilhoso trabalho de Deus em nós e na natureza. Este é o passo primordial para podermos conviver num mundo onde a inversão de valores fala mais alto. É preciso, através da cultura, destacar o valor dos idosos e levá-lo à motivação, dando-lhes objetivos no ocaso da vida. Assim vamos pintar o cenário da solidão, do desânimo e da depressão, com novas e coloridas cores. E o caminho, além da valorização humana, está nas artes, nos passeios para ampliar conhecimentos, nos cursos, aprendendo novas coisas, até mesmo como uma nova profissão.
   A cultura levará o idoso a exercitar a memória para compensar as mudanças no cérebro. E isso ele conseguirá, além de tudo o que aqui foi citado, lendo mais, fazendo até palavras-cruzadas, vendo bons programas na tevê e ouvindo também bons programas nas rádios. O que não pode acontecer é continuar hostilizando os velhos, deixando que eles se fechem, não respondendo aos apelos da existência. Assim eles vão definhar e desequilibrar-se, pois é lhes negado o direito de viver no mundo e comprometer-se também com sua construção.
 


 
 
 
 

     É só através da cultura que os idosos vão se ater mais ao exterior da existência, com suas sensações e emoções, seus sonhos e fantasias. Ao idoso não deve ser assegurado somente um atendimento preferenciado nas filas de bancos, mas o acesso aos recursos educacionais e culturais.
     No caso do idoso brasileiro, a procura do conhecimento não pode e não deve  depender somente do indivíduo. Os canais da cultura devem ser abertos a eles, como literatura, pintura, música e teatro. A arte pode ser ao mesmo tempo, criação e recreação. Para Clineu de Mello Almeida Filho, diretor do Centro de estudos do Envelhecimento da Unifesp, “o velho, por seu trabalho, sua maturidade, sua experiência e capacidade, merece mais que respeito. Merece espaço e reconhecimento”.
     Alguns setores já começaram a perceber os interesses e necessidades das pessoas da 3a. idade. E esses interesses estão voltados para a cultura e o lazer. Diante disso, deveríamos ter em cada município brasileiro,  salas apropriadas para palestras de idosos, incentivando os jovens a ouvirem “a voz da experiência”, seções especiais nas bibliotecas para idosos, concursos de desenho, pintura e poesia, também para eles, incentivo à criação de corais de idosos e outras manifestações musicais, salas para leitura de poesia entre eles, semelhante a uma “sociedade de poetas vivos” e no caso de concursos, pessoas capacitadas, porém sensíveis, para enxergar além da técnica, a criatividade, a personalidade e a sensibilidade do idoso autor. 
     Finalizando, é necessário atacar os preconceitos através de campanhas nacionais. Só assim nossa sociedade verá o idoso como um ser atuante e não como um peso, como acontece; segundo, é preciso que “os que vão ficar velhos” invistam na cultura da 3a. idade, criando, mostrando e dando oportunidades, para que os idosos possam provar que não vivem apenas para participar de “bailinhos promovidos pelas secretarias de promoção social; e,  finalmente, é preciso mudar o coração das pessoas, sendo talvez este o tópico mais difícil. Mas só assim iremos acabar com a “cultura dos asilos”. Dentro da sociedade, professores, comunicadores e religiosos, principalmente, podem ajudar - e muito, pregando a cultura do amor e da compreensão aos mais jovens. Como São Paulo cita em Coríntios, livro da Bíblia Sagrada, “Se eu não tenho amor, nada serei”. Isso vale para quem dá amor e para quem recebe. Ninguém, nem criança, adulto ou idoso, pode transformar-se sem amor. Sem amor não há cultura, e só  através do amor da cultura é que transformaremos, para melhor, a vivência dos nossos pais e avós.


 

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