Goiá
O poeta de Coromandel



Acima, o rio Paranabaiba, que banha Coromandel, à esquerda, o grande 
compositor e, ao lado, seu irmão Nelson, ao lado do busto dele em Coromandel
 
 
  Você já ouviu, com certeza, os versos clássicos daquela moda: "De que me adianta, viver na cidade, se a felicidade...Eles são de Goiá, ou Gerson Coutinho da Silva, o grande compositor mineiro de "Saudade da Minha Terra", ao lado de Belmonte.  Para conhecer melhor Goiá, só ouvindo ou lendo Goiá. O compadre Paulo Beraldo envia este texto escrito pelo próprio Goiá, com explicações anexas dele, Beraldo, e do historiador Lúcio Flores. A redação do site manteve na íntegra toda a história, sem nada alterar. 

Goiá, vida e obra

  "Nasci em 11 de Janeiro de 1935, em Coromandel, na Rua Raul Soares, numa casa que muitos anos depois ficou conhecida por "Casa do Períque" (o nosso Péricles, de saudosa memória). Desde de pequeninho, sempre gostei de "falar versos"(recitar trovas), e como sempre recebia em troca um "cachê" (doce, queijo, requeijão, etc.), meu entusiasmo cresceu sobremaneira, até que um dia, no auge da interpretação, quis dar um colorido especial a uma frase, expressando-a com bastante força, mas, o que todos ouviram foi um longo e grave ruído, considerado impróprio e vergonhoso, na presença "dos mais velhos", e foi assim que Coromandel perdeu seu declamador, de quatro anos de idade... 

 Ganhei de meu pai, uma gaita de boca, que foi minha companheira por muitos anos, até que troquei-a por um cavaquinho, mas, a minha alegria maior foi quando ganhei um violão "de tarrachas", que era o meu grande sonho... Comecei a cantar em dupla com vários parceiros, dentre eles, Anterino Coutinho, meu irmão Nelson, Geraldo Telles (Geraldinho do Vigilato), seu irmão José (Zé do Vigilato), e quando chegávamos naquelas festas animadas, o pessoal sempre dizia: - "Chegou o fio do Cerso cum seus cumpanhêro!" E a coisa "fervia" até o nascer do sol!

 Essa época marcou muito para mim e é responsável, em grande parte, pela saudade impossível que sinto da infância! Comecei a estudar música com o mestre José Ferreira e enquanto não terminava o curso, passei a ser o tocador de bumbo ou bombo, e como por essa ocasião eu formava dupla com o Miguelinho (filho do "Miguel Batalhão"), arranjei para ele um lugar na banda de música, como tocador de "tarol", e depois das retretas (Chapadão, Alegre, Mateiro, Santa Rosa, etc.), a gente cantava nas "Barracas" e o incentivo era imenso.

 Após passarmos uma temporada em Lagamar, em casa de minha irmã Maria e de meu cunhado "Fulô", fomos (eu e Miguelinho) para Patos de Minas, onde cantamos, por alguns meses, no programa do "Compadre Formiga", meu querido amigo Padre Tomaz Olivieri. Mas eu não suportava passar mais que dois meses fora de Coromandel! Saía e voltava, voltava e saía... Foi em 1953 que parti para Goiânia, fiquei conhecendo gente maravilhosa, e onde permaneci por dois anos, aprendendo muito, em todos os sentidos! Formei o "Trio da Amizade", (o primeiro nome artístico foi "Rouxinol") com programas diários na inesquecível Rádio Brasil Central, e fomos os primeiros do Estado a gravar discos em São Paulo (2 discos com 78 RPM na antiga Columbia, atual CBS). Tenho um carinho especial pelo Estado de Goiás, notadamente por Goiânia, onde deixei grandes amigos, que jamais esquecerei! (Daí vem o apelido de Goiá...) 

 De lá parti, no último dia do ano de 1955, e confesso, parti com lágrimas nos olhos, mas a grande meta era São Paulo, o grande eixo, também no mundo artistico. 

(O poeta já era notado como Cantor e Compositor da música sertaneja, e sua volta a terra natal, seria como tomar um fôlego e alimentar-se do ar puro da praça da velha igreja de Santana, rever o lindo Poço Verde, pescar no Rio Paranaíba, rever os amigos de infância ... E não deu outra, os amigos o esperaram na placa de 5 Km e foram em carreata até Coromandel, onde foi recebido com foguetórios, faixas, festas e muitas cantorias. Era o início de uma nova fase em sua carreira, pois morar em São Paulo já estava definido, Coromandel foi mesmo o oxigênio para enfrentar uma nova etapa - Obs dos autores)

 Em São Paulo, gravei alguns discos com o "Trio Mineiro" e após uma temporada na Rádio Nacional, nos programas do amigo "Nhô Zé", transferi-me para a Rádio Bandeirantes, onde fui contratado como apresentador de programas, inicialmente no "Maiador da fazenda", do amigo e parceiro Zacarias Mourão, e posteriormente lancei o "Choupana do Goiá", além de ser substituto eventual dos saudosos Capitão Balduino e Comendador Biguá, em seus tradicionais programas "Brasil Caboclo" e "Serra da Mantiqueira".

 Permaneci na Rádio Bandeirantes até meados de 61, quando então a quase 
totalidade do "cast" sertanejo daquela emissora havia gravado músicas minhas; Pedro Bento e Zé da Estrada, Liu e Léo, as Irmãs Galvão, Zilo e Zalo, Caçula e Marinheiro, Tibagi e Miltinho, Souza e Monteiro, Primas Miranda e outros tantos, tais como, Milionário e José Rico, Chitãozinho e Xororó, Belmonte e Amaraí, Sérgio Reis, Clayton Aguiar e João Renes e Reni. Fui para a Rádio Nove de Julho (ainda como apresentador) a convite do Geraldo Meirelles e Zé Claudino, lá ficando por dois anos, quando me despedi, e depois de uma curta temporada com Zacarias Mourão na Rádio Excelsior, decidi dedicar-me inteiramente às composições. Com exceção de alguns meses como "free-lancer" na Rádio Nacional, no programa "Biá e seus Batutas", nunca mais voltei a apresentar programas, tendo me dedicado, de corpo e alma, aos meus versos..." Aqui termina a história de Goiá, contada por ele mesmo - Nota dos autores

O Reverso da medalha

 Um dia, para a alegria do povo de Coromandel, a dupla, Goiá e Biá, grava o seu primeiro LP, com todas as composições de Goiá, e muitas falando de Coromandel e Estado de Goiás, sendo que nesta época o seu parceiro e "cunhado" era bem conhecido na música sertaneja, através da dupla "Palmeira e Biá", assim concretizando de vez os seus sonhos no âmago de sua alma. Sentindo certas dificuldades ao cantar em dupla, não com relação a Biá, que sempre foi o seu "Parceiro-Amigo-Irmão", como ele mesmo dizia, separou-se de Biá para gravar individualmente o seu primeiro LP em duas vozes, sendo um dos primeiros no Brasil a gravar neste estilo.
 Assim, Goiá mostrou a sua familiaridade com o violão, pois tinha uma impressionante capacidade de musicar, não somente suas letras como também de muitos parceiros seus, vestindo a cada dia uma roupagem nova na "Música-Poética-Sertaneja". E, sempre acompanhado de grandes personalidades da época, Goiá viveu dias intensos de viagens e shows por todo esse Brasil.

Doença e morte

 Por volta do ano de 1971, começa um tempo negro em sua vida; Goiá passou a ser portador de diabetes, e como ele mesmo dizia, abusava muito de sua saúde, não se alimentando corretamente, passando longos períodos de viagens e cantorias, ficando até três anos sem fazer um exame de sangue sequer. E foi em dezembro do ano de 1979, nos exames realizados em Uberlândia que ficou comprovado: Além do açúcar no sangue, Goiá tinha "Cirrose Hepática", já bem acentuada,e "Ascite", água no Piritônio.
 De volta a São Paulo, começou a corrida aos hospitais na tentativa de estacionar a cirrose, e com isso ele perdia peso assustadoramente. Foi quando em novembro de 1980, já vivendo praticamente só de cama, transferiu-se para Uberaba, ficando mais perto de Coromandel, podendo ser visitado freqüentemente pelos seus conterrâneos, trazendo para si, forças para continuar, mesmo acamado, a escrever suas canções.
 
 Nos últimos anos de sua vida, Goiá já escrevia para o estilo sertanejo moderno e já era gravado por Chitãozinho e Xororó, João Mineiro e Marciano, Cesar e Paulinho, Milionário e José Rico, Duduca e Dalvã, Chico Rey e Paraná e muitos outros. Mas, no dia 20 de Janeiro de 1981, às 8 da manhã, morre em Uberaba, Minas Gerais, Gerson Coutinho da Silva, o Goiá, aos 46 anos de idade. Seu corpo foi levado para Coromandel e esperado por uma multidão de pessoas, exatamente na Placa de 5 Km, onde outrora foi sempre esperado pelo seu povo. Seu corpo foi velado na igreja de Santa Ana e sepultado no Cemitério Municipal de Coromandel, no dia 21 de Janeiro, passando a viver conosco somente de forma espiritual. No seu túmulo, ficou escrito o que humildemente pediu numa de suas canções, mostrando mais uma vez a sua natureza humana: a humildade, que era o seu gesto maior. "Uma saudade amarga e cruel, de Coromandel em Minas Gerais".

 Paulo Beraldo e Lúcio Flores

 
 

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