A história contemporânea da política brasileira até hoje,
pode ser dividida entre antes e depois de Getúlio Vargas

 Getúlio Vargas figura entre Marechal Deodoro, Floriano Peixoto, Nilo Peçanha, Dutra e Geisel, como os maiores presidentes do Brasil. Até entre estes ele foi um dos maiores realizadores, tendo apenas contra si o período ditatorial do Estado Novo. Já Dutra tem contra si a ordem, como Ministro da Guerra, de mandar em 1937 aviões metralharem inocentes lavradores no local conhecido como Sítio do Caldeirão, no Ceará, manchando novamente de sangue a memória das Forças Armadas como no episódio de Canudos, em 1897...
 Estas são opiniões sobre presidentes e não dados históricos. O professor Olavo Carvalho, por exemplo, tem como grande presidente militar Garrastazu Médice e tem antipatia por Costa e Silva. São opiniões e sendo de grandes mentes como a de Carvalho, devem ser analisadas. Como diz o dito popular, uns gostam dos olhos, outros da remela...

  Getúlio Dornelles Vargas nasceu em São Borja, Rio Grande do Sul, em 19 de abril de 1882 . Ele foi o presidente que mais tempo governou o Brasil. Foram ao todo dois mandatos que totalizaram 18 anos, de 1930 a 1945, no chamado Estado Novo e de 1951 até o suicídio em 1954. 
 Vargas assumiu o poder em 1930, após comandar a Revolução do mesmo ano, que derrubou o governo de Washington Luís. Seus quinze anos de governo seguintes, caracterizaram-se, segundo historiadores, pelo nacionalismo e populismo. Sob seu governo foi promulgada a Constituição de 1934.
  Mas em 1937 fecha o Congresso Nacional e instala o Estado Novo, passando a governar com poderes ditatoriais. Sua forma de governo passa a ser centralizadora e controladora. 
  Perseguiu opositores políticos, principalmente partidários do comunismo, como o casal Olga Benário e Luiz Prestes. Olga pertencia ao Partido Comunista Alemão e Prestes estava na Russia e, de acordo com determinação do comando comunista em Moscou, eles vieram para o Brasil para continuar a implantação definitiva do comunismo aqui. O casal foi o líder da chamada Intentona Comunista no Brasil em 1935. Prestes ficou preso aqui, já que era cidadão brasileiro, e Olga foi deportada para  seu País, onde morreu.

  No campo das realizações, Vargas, que ficou conhecido como “pai dos pobres”,  criou a Justiça do Trabalho (1939), instituiu o salário mínimo, a Consolidação das Leis do Trabalho, também conhecida por CLT. Os direitos trabalhistas também são frutos de seu governo: carteira profissional, semana de trabalho de 48 horas e as férias remuneradas. 
  Em seu primeiro mandato investiu muito na área de infra-estrutura, criando a Companhia Siderúrgica Nacional (1940), a Vale do Rio Doce (1942), e a Hidrelétrica do Vale do São Francisco (1945). Em 1938, criou o IBGE ( Instituto brasileiro de Geografia e estatística). Saiu do governo em 1945, após um golpe militar.

O Segundo Mandato

  Em 1950, Vargas voltou ao poder através de eleições democráticas. Nesse governo continuou com uma política nacionalista. Criou a campanha do " Petróleo é Nosso" que resultaria na criação da Petrobrás, até hoje a maior empresa estatal brasileira, símbolo de potência brasileira em todo mundo. 

O suicídio de Vargas

   Em agosto de 1954, Vargas suicidou-se no Palácio do Catete com um tiro no peito. Deixou uma carta testamento (abaixo) com uma frase que eternizaria ainda mais o polêmico líder: "Deixo a vida para entrar na História." 
  Até hoje o suicídio de Vargas gera controvérsias. O que se sabe é que seus últimos dias de governo foram marcados por forte pressão política por parte da imprensa e dos militares. A situação econômica do país não era positiva o que gerava muito descontentamento entre a população.
 Embora tenha ficado marcado como um ditador e governado com medidas controladoras e populistas, Vargas foi o presidente que mais se destacou em investimentos no Brasil, em toda a história. Além de criar obras de infra-estrutura e desenvolver o parque industrial brasileiro, tomou medidas favoráveis aos trabalhadores. Foi na área do trabalho que deixou sua marca registrada. Sua política econômica gerou empregos no Brasil e suas medidas na área do trabalho favoreceram os trabalhadores brasileiros.

As traições e o mar de lama
As verdades, as mentiras e as dúvidas

  Empossado no governo em 1930, Getúlio Vargas não possuía nem pretendia ter guarda pessoal. A segurança do Presidente era garantida pelas Forças Armadas, alternando-se ora soldados do Exército, ora os Fuzileiros Navais.
Assim foi até 11 de maio de 1938, quando se deu o "putch" integralista, com a invasão do Palácio da Guanabara, em coordenação com os fuzileiros que, naquela noite, estavam dando plantão. Foi o tenente Nascimento que abriu os portões do palácio para entrada dos atacantes, e foram os fuzileiros em serviço que prenderam ou executaram aqueles que se recusaram participar do levante.
  Naquela noite, é bom que se lembre, um franco-atirador, do alto de uma árvore, enviou um tiro certeiro em direção à mesa de despachos do Presidente, transpassando a cadeira onde ele deveria estar sentado. Tudo isso com a ajuda daqueles militares que se encontravam no Palácio para garantir-lhe a segurança.
Superado o episódio, Getúlio pede ao seu irmão, Benjamin Vargas, que lhe selecione homens competentes e confiáveis para a formação de uma guarda pessoal.
  É aí que entra a figura estranha e comprometedora do tenente Gregório Fortunato. Homem rude e ignorante, tinha, todavia, uma virtude, apreciada por Getúlio: seguia as ordens de seu amo como um cão fiel, executando-as ao pé da letra, custasse o que custasse, contando para isso com uma equipe de jagunços que obedeciam cegamente seu comando.
  Com tal poder nas mãos, não é de se surpreender que Fortunato fosse assediado por interesseiros que, a troco de propinas, utilizavam seus serviços para obter favores ou ganhar as boas graças do Presidente. Gregório enriqueceu rapidamente e, como era rude e ignorante, não tomou medidas de precaução para salvaguardar a si mesmo e ao Presidente, a quem servia. Manobrado com astúcia por gente palaciana, cometeu deslizes, um após outro, até chegar ao crime da rua dos Toneleiros, começo do fim do presidente Getúlio Vargas.

Lacerda – A pedra no sapato 
e o pivô do fim da Era Vargas


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

   Filho do renomado político socialista, Carlos Lacerda foi eleito vereador em 1947, pela União Democrática Nacional (UDN). Em 1951 assume uma cadeira na Câmara Federal, passando a conciliar suas atividades políticas dentro da UDN e no Congresso, com as atividades jornalísticas na "Tribuna da Imprensa", jornal do qual era proprietário. Com uma metralhadora giratória, representada pelo poder extraordinário de sua palavra, Carlos Lacerda passa a atacar incessantemente o palácio presidencial, procurando atingir o presidente Getúlio Vargas, atingindo também, indistintamente, todos os que estavam ao redor de Vargas.

O crime da rua Toneleiro e o começo do fim...

  Com os amigos que tinha à sua volta, Getúlio Vargas nem precisava de inimigos. O general Mendes de Morais e um deputado federal, ambos íntimos do palácio presidencial, sugeriram a Gregório Fortunato que ele estaria prestando um excelente serviço ao seu amo se eliminasse Carlos Lacerda. O parvo tenente  deixou-se envolver pelo canto da sereia e, acreditando, realmente, que a morte do jornalista traria bem-estar ao Presidente, não teve dúvidas em contratar um pistoleiro para executar o trabalho.
Não se sabe até hoje por que Carlos Lacerda, um simples jornalista, tinha como guarda pessoal o major da Aeronáutica Rubens Vaz. Na noite de 5 de agosto de 1954, os dois desceram do carro na rua Toneleiro, nº180, residência de Lacerda, quando foram interceptados por um desconhecido que atirou contra o major, ferindo-o mortalmente, voltando-se depois contra o jornalista, que ainda teve tempo de correr, levando apenas um tiro no pé. Socorrido por populares, o major Vaz veio a morrer em seguida, antes mesmo de receber atendimento médico.
 Getúlio, ainda segundo seus historiadores, nem tinha idéia do que se passava à sua volta e, de vontade própria, abriu os portões do Palácio do Catete para que a Aeronáutica fizesse ampla investigação. Seu objetivo, certamente, era o de provar que se tratava de um ato isolado, que não podia ser generalizado, comprometendo a seriedade de sua equipe.

Traição - o mais baixo nível 
que homens podem chegar

  Mas Getúlio enganava-se. À sua volta, sem o seu conhecimento, as irregularidades vinham sendo praticadas há tempos, envolvendo todos os escalões e comprometendo por completo o seu governo. Para quem não acreditava quando o ex-presidente Lula dizia que de nada sabia sobre a podridão em seu governo, a história de Vargas pode ser um bom argumento. Sendo a política tão podre e  99% repleta de gente traiçoeira,  o fato é compreensível. A enorme diferença entre Vargas e Lula, é que o primeiro não caiu na defesa dos envolvidos como Lula fez e faz, tentando livrar seus amigos Dirceu, Genoino e cia, líderes do Mensalão. Isso joga por terra sua defesa de que não sabia nada...Outra grande diferença entre os dois ex-presidentes, é que Getulio não dava cobertura a terrorista da Itália e nem a ditador excomungado de outro País, como Lula fez e tampouco ia até Cuba beijar a mão de Fidel Castro...
  Bem, isso são outros tempos e outra história. 
  No caso de Vargas, realmente todos sabiam, o Presidente não. Vargas confiava demais nos seus auxiliares. E, registre-se a seu favor, nenhum indício sequer foi encontrado de que o Presidente tenha, alguma vez, utilizado o poder em proveito próprio. Seus assessores o faziam, à sua sombra, sem o seu conhecimento e sem o seu consentimento.

O mar de lama era tanto que acabou
sujando as botas do grande gaúcho

  Resumidamente, Vargas foi enganado até por seu próprio filho, Manuel Vargas (Maneco), que vendeu uma fazenda do pai a Gregório Fortunato, sem renda suficiente para participar de uma operação dessa natureza. Vargas incumbira o filho de vender alguns bens para saldar dívidas de campanha. Ele vendeu e usou o dinheiro para fazer turismo na Europa...

A última reunião do Ministério de Vargas

  Na alta noite de 23 de agosto, realiza-se a última reunião ministerial de Getúlio Vargas, uma reunião pouco ortodoxa, segundo expressão de sua filha Alzira Vargas do Amaral Peixoto. Lá se encontrava todo o Ministério e mais pessoas ligadas ao Palácio, que nada tinham a ver, mas que lá ficaram, porque o Presidente não lhes pediu que se retirassem. Entre elas, a própria Alzira que se postou junto ao pai e que interferiu, recriminando os ministros militares.
A reunião teve lances dramáticos e muita discussão entre os ministros militares, sem se chegar a nenhum lugar, como acontece em reuniões.  Guilhobel, na época Ministro da Marinha, chegou a dizer dura e corajosamente na reunião: "Presidente, parece que seu destino é ser traído pelos seus chefes militares".
 A confusão ameaçava tornar-se total quando a voz de Vargas, serena e clara,  restabeleceu a ordem e o silêncio, um silêncio tétrico."

Fecham-se as cortinas sobre um
 dos maiores governos do Brasil


O revólver usado no suicídio do presidente

  Na madrugada do dia 24 de agosto de 1954, após a conturbada reunião ministerial, Getúlio Vargas dá suas últimas instruções, assina alguns documentos, e recolhe-se aos seus aposentos. Os participantes da reunião, retiram-se quase todos. Apenas alguns permanecem no palácio, entre eles o então ministro da Justiça, Tancredo Neves.
No silêncio da madrugada, um tiro ecoa. O capitão Hélio, responsável pelo plantão chega esbaforido: "O Presidente suicidou-se!". O historiador Helio Silva narra:
"Subiram, correndo, Alzira, Tancredo e todos os que se achavam no hall. Vargas estava recostado, na posição confirmada por todos, a perna para fora da cama. O coração sangrando aos borbotões. Tancredo conta que procurou ampara-lo, enquanto Alzira abraçava-o. Ele procurava alguém com o olhar, que se fixou em Alzira, mais demoradamente, até que faleceu."
Ao seu lado, um papel cuidadosamente datilografado, em linguagem clara e com os pensamentos muito bem formulados. Era a carta testamento, cuja autenticidade foi contestada por muitos, por um único detalhe: Getúlio não sabia escrever à máquina. João Batista Luzardo, em depoimento a Glauco Carneiro, protesta contra essa versão:
"Mas, meu Deus, quem pode dizer isso? Está ali a idéia, o feitio dele; o pensamento, a plataforma do que queria e do que procurava fazer, quando fundou o PTB... Ali está a sua reação contra as pressões que sofria, contra os inimigos que o assediavam – quem pode contestar uma certeza destas? Não posso dizer que tenha sido ele quem escreveu as palavras, mas o conteúdo é dele, é dele”! 
Todo mundo sabia que o Maciel Junior era quem melhor expressava o pensamento dele, por escrito – o emprego dos termos, a maneira de falar do Getúlio. Captava até aquela linguagem coloquial do Getúlio, que tinha muito sucesso ao falar de improviso, porque não se alongava e era feliz – com expressão, com sentimento, com precisão, aferrando-se a idéias determinadas e as transmitindo muito bem ao público. 
“ Além do mais, o Maciel Filho, que tudo indica, foi quem passou a trágica despedida do presidente para o papel, através da máquina de escrever,  era confidente de Getúlio e com ele vivia dia e noite. Se o Getúlio deu as idéias gerais, e o Maciel as alinhou, onde é que o Getúlio deixa de ser o autor?" – Conclui Luzardo.

  Verdade é que, se o tiro da rua dos Toneleiros, acertando o major Vaz atingiu Getúlio Vargas, o tiro no peito de Vargas atingiu em cheio a União Democrática Nacional e seu porta-voz máximo, o jornalista Carlos Lacerda. O impacto do suicídio e o teor da carta-testamento sensibilizaram o trabalhador brasileiro, que voltou-se contra a UDN, retirando-lhe qualquer chance de chegar ao poder e dele participar. 

A Carta – testamento de Getulio Vargas

  "Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadeiam contra mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam-me; não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo, e principalmente os humildes. 
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de espoliação dos grupos econômico-financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei um regime de liberdade social. Tive que renunciar. 
Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalhador.
A Lei de Lucros Extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. 
Quis criar a liberdade na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero.
Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente. Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançaram até 500 por cento ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder. 
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma agressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo para defender o povo que agora se queda desamparado.
Nada mais posso dar, a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço, em holocausto, a minha vida. Escolho este meio para estar sempre convosco.
Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta, por vós e por vossos filhos.
Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu sangue será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência.
Ao ódio, respondo com o meu perdão. Aos que pensam que me derrotam, respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não será mais escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço de seu resgate. 
Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia, não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio.
Serenamente dou o primeiro passo no caminho da Eternidade e saio da vida para entrar na História".
 
 

Fontes: Jornais da época – Reportagem na Radio Mayrinque Veiga de 1954 – Revista O Cruzeiro
Getúlio Vargas e sua época – Coleção História Popular – Antonio Faria da Costa – Editora Global

 

 

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