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Meus Contos & Crônicas 
Ir para Contos 07

Série Contos de Fadas ainda podem ser contados

A PRINCESA E O PLEBEU
  Sergio Ferraz


Ilustração -Cinderela, dos Estudios Disney

   Erik era cavalariço do rei de Maron, e, por ironia do destino, acabou se apaixonando pela bela princesa Karla, que por sua vez, também se apaixonou por ele.  Ao chegar a época de dar a mão da filha em casamento, o rei publicou um edito por todo o reino, conclamando todos os jovens que pretendessem casar-se com a princesa, que comparecessem ao castelo. Erik sentiu que não teria nenhuma chance, mas Karla insistiu para ele ir, pois não podia se ver casada com outro. E o jovem assim foi. O rei  falou aos jovens que daria a mão da princesa àquele que amealhasse a quantia de 100kg de ouro, e que lhe trouxesse, como dote. Erik desanimou mais ainda. Ele ganhava poucas moedas pelo seu trabalho e, para conseguir tanto ouro, só se trabalhasse por uns 500 anos!
  Triste, apesar de saber que tal dote seria também muito difícil ser conseguido por qualquer outro jovem do reino, sentou-se cabisbaixo à sombra da tenda de Zadigi, o velho sábio do reino. Este, que conhecia o jov, ficando a par da situação, deu a Erik um tapete mágico e mandou ele ir ao Egito, onde deveria participar de um estranho concurso. Erik obedeceu,  foi e inscreveu-se no tal concurso que o sábio dissera. No concurso, que era de sabedoria, o candidato deveria decifrar um enigma, respondendo o que anda com quatro pernas de manhã, com duas ao meio-dia e com três ao entardecer. O prêmio, para quem acertasse a resposta, eram exatamente 10 barras de ouro de 10kg cada, o que totalizava justamente os 100kg exigidos pelo monarca de dote do pretendente à mão da princesa.
 Erik, sem saber a resposta, já estava para desistir, quando o tapete voador alvoraçou-se perto dele. O rapaz estranhou aquilo e foi verificar o que estava acontecendo. Quando olhou sobre o tapete, viu a resposta do enigma escrita nele. Erik agradeceu a Zadigi em pensamento, pois sabia que aquilo só podia ser mágica do velhote. Então, tão rápido como as letras apareceram escritas sobre o tapete, elas desapareceram. Mas já não importava, pois Erik tinha memorizado a resposta. Foi até o juiz do concurso e deu a resposta. Estava correta, e Erik ganhou o tão cobiçado prêmio.
 Voltando a Maron, agradeceu ao mágico, devolvendo-lhe o tapete mágico, e correu para o palácio, onde foi entregar os 100kg de ouro ao rei. Ninguém podia atinar como o pobre Erik havia conseguido a quantia enorme de ouro, mas ele não se importava e nem dava explicações. Como, se  ele mesmo tinha dificuldade de entender?
Erik, é claro, ganhou a mão da princesa e os dois casaram-se, tendo o velho Zadigi de padrinho. E, como terminam todos os contos de fadas, eles foram felizes para sempre!


O ESPÍRITO DO TESOURO
Sergio Ferraz 1993

  Há muitos, muitos anos, ainda quando os violentos piratas singravam os Sete Mares com suas ferozes bandeiras desfraldadas, vivia em uma aldeia da costa francesa um rapazinho chamado Leonel. Apenas Leonel. Sem nenhum sobrenome, sem saber de onde veio, pois não conhecera seus pais e nem tampouco o lugar onde nascera.
  Para o jovem Leonel, o mundo se resumia, na sua visão de órfão de 16 anos de idade, à aldeia onde morava com o tio, um pobre e velho pescador. Por muitas vezes Leonel se quedava sentado na praia, fazendo mil imagens de seus pais e do mundo além do horizonte do mar azulado e nuvens brancas.
 O pai de Leonel, forte e valente, como seu tio contara, morrera de desgosto dentro de um frio calabouço, após ver a mãe de Leonel ser queimada viva por alguns homens que se diziam cristãos, e que, após um julgamento cruel e covarde, concluiram que a pobre mulher era feiticeira. O pai de Leonel, enlouquecido pelo destino que a Inquisição dera à sua amada, tingiu a lâmina de sua espada no sangue ruim de vários inquisidores. Dominado pelos soldados, foi lançado para sempre na prisão.
  Leonel desconhecia toda esta história, até que seu tio, doente e já prevendo ser chegada a hora da partida, resolvera revelar a tragédia acontecida aos pais do garoto.
- Filho, desde a mais tenra idade você vive comigo e com sua tia... O velho tossiu, cansado, e continuou, fixando os olhos lacrimejantes no rapaz sentado ao lado de sua cama Seu nome é Leonel, e ele significa que você é um pequeno leão. E é como leão que você irá assumir meu lugar nesta casa, quando eu me for ao encontro do Criador...Sua tia, velha e já sem forças, vai precisar do seu amor e da sua destreza na pesca, conforme ensinei a você.
-  Pode ficar tranquilo, meu tio. Nada irá faltar à minha tia. Juro pelas almas dos pais que não conheci!
- Obrigado, pequeno leão...Eu sei que você não vai deixar este lar desamparado...
  O velho homem do mar tossiu novamente, sorveu devagar a caneca de chá que a esposa lhe ofereceu, consultou-a com o olhar, e prosseguiu:
- Filho, já é hora de você tomar conhecimento da verdadeira história dos seus pais...
  E assim o jovem Leonel ficou conhecendo o cruel destino dos seus pais.  E após a morte do tio, herdou a enorme responsabilidade de prover a casa e zelar pela velha tia. Mal ele poderia imaginar o que lhe estava reservado pela mão do destino...
Dois anos depois...
- Então, filho, melhorou a pesca? Perguntou a velha senhora, já sabendo de antemão a resposta, pela expressão desanimada no rosto do rapaz.
- Nada, tia. Parece que os peixes simplesmente desapareceram da costa. Se assim continuar, daqui um mês os pescadores vão deixar a aldeia, levando suas famílias.
  Com a alimentação cada vez mais escassa, devido à má fase da pesca, Leonel se preocupava cada vez mais com a já enfraquecida tia. Certa madrugada, sem falar com a tia, para não preocupá-la, o jovem resolveu que iria tentar a sorte em alto-mar. Aquela época, em pleno inverno, o mar estava muito bravio e agitado, e nem mesmo os pescadores mais experientes se arriscavam a tal aventura.
  Mas a preocupação de Leonel com a tia era maior que a cautela, e assim, naquela madrugada, partiu com sua embarcação, enfrentando ondas gigantescas e violentas, em busca do alimento sagrado que, ele imaginava, encontraria no seio das águas bravias.
  O mar, bonito, misterioso e assustador, poderia tanto tirar a vida dos valentes que se aventuram em seus domínios, quanto dar a vida, através dos seus alimentos. Leonel, agora assustado e ansioso, rogava aos Céus que o mar lhe concedesse a segunda opção.
  O vento forte que encrespava as águas, então começou a soprar para o sul, empurrando o barco do jovem pescador para uma ilha desconhecida. Extenuado pela luta contra os elementos, Leonel lançou âncora e, antes de tentar a pesca, resolveu deitar-se na areia quente e aconchegante da praia.
  O sono que embalou o inocente rapaz foi espantado por uma dor súbita e lancinante. Leonel, acordado violentamente, tentou levantar-se, mas a bota do pirata atingiu novamente suas costelas, e ele rolou pela areia, gemendo.
- O que você está fazendo em nossa ilha, miserável?
  Quando o musculoso e mal-encarado pirata ergueu Leonel pela gola do blusão, o jovem, ainda que aturdido,  pôde reparar no enorme navio ancorado a pouca distância da praia. Leonel também notou, atemorizado, a sinistra caveira que ornava a bandeira no alto do mastro principal. Na praia, cercando o rapaz e o pirata que o segurava, uma dezena de piratas, armados até os dentes, saboreavam em ruidosas gargalhadas a sofrível situação de Leonel.
- Descul...desculpem...eu, eu cheguei aqui sem querer...
- Vamos, capitão! Mate-o logo e vamos enterrar o tesouro! Gritou um dos piratas, cruel e impacientemente.
- Não...deixe o garoto, capitão. Ele não oferece perigo. Condoeu-se um dos piratas.
  O chefe dos malfeitores deixou Leonel de lado e dirigiu-se ao homem que opinara em libertar o rapaz.
- Seu cretino! Não podemos deixá-lo ir, agora que ele sabe a localização da nossa ilha!
- M...mas eu não vou contar a ninguém!   Garantiu o jovem pescador. 
  O líder dos piratas, sem nenhuma compaixão, virou-se para o homem mais próximo ao rapaz e disse:
- Mate-o!
  De joelhos, Leonel viu entre assustado e resignado o pirata se aproximar com a espada em punho. Ele fechou os olhos, antevendo sua cruel morte, quando de repente, quando tudo parecia perdido para ele, uma enorme bola de fogo surgiu como se do nada e envolveu o homem que se preparava para matá-lo. Aos gritos, consumido pelas chamas, o malfeitor caiu morto sobre a areia.
  Leonel, agora de olhos bem abertos, não acreditava no que estava ocorrendo. Os piratas, sem atinar com o fenômeno, corriam apavorados de um lado para o outro da praia, enquanto a bola de fogo ia envolvendo-os. Nisso Leonel viu uma figura que parecia um guerreiro, brilhando entre as chamas. O aço da sua espada, tão brilhante quanto as chamas, ia abatendo os piratas, uma a um. 


Ilustração do jogo Legend II - Inferno sangrento

  Alguns, em desespero, ainda tentaram reagir, mas suas espadas e nem os tiros de suas pistolas causavam dano algum ao guerreiro. Era como se tentassem abater o próprio vento.
  Em pouco tempo, ante o olhar atônito do jovem pescador, apenas um pirata estava vivo e de pé. Era justamente o homem que havia intercedido pela vida de Leonel. O guerreiro de fogo aproximou-se lentamente do apavorado homem, e falou com uma voz que parecia o barulho das ondas no quebra-mar:
- Como você demonstrou piedade, sua vida será poupada. Você irá voltar com o rapaz e deverá se afastar para sempre da pirataria, antes que o castigo dos seus companheiros abata-se também sobre sua cabeça!
- S...sim, senhor! Concordou o pirata, caindo ao chão de joelhos, sem atrever-se a olhar para o guerreiro. A bola de fogo que havia espalhado o terror entre os piratas, aproximou-se do guerreiro, e diminuindo de intensidade, foi desaparecendo, até surgir em seu lugar uma linda mulher de longos cabelos dourados. O guerreiro tomou-a pela mão, e juntos aproximaram-se do rapaz.
- Filho, pela pureza e bondade do seu coração nos foi concedido o dom divino de vir em sua ajuda. Você não nos verá mais, porém, sua mãe e eu vamos lhe deixar nossa dádiva!
  Dito isso, o guerreiro entregou a espada fulgurante ao rapaz. A mulher, tirando do alvo pescoço um cordão de onde pendia uma pedra de cor púrpura, colocou-o com um sorriso amoroso no pescoço de Leonel, que a essa altura não conseguia emitir nenhuma palavra, dado à magia do acontecido. 
 -   Continue no caminho reto, meu filho, seguindo as normas do seu bondoso coração. Aconselhou o guerreiro de fogo - Enquanto você trilhar a estrada do Bem, a espada e o cordão irão protegê-lo. Quando você alcançar idade avançada, e a espada e o cordão não forem mais necessários, você irá presenteá-los a alguém que, como você, traga o amor e  a justiça no coração. Mas não se aflija, pois isso ainda está muito longe de acontecer, e quando se tornar preciso, você saberá a hora e a quem doá-los!
  Com dificuldade, as lágrimas emocionadas lavando o espanto de seu rosto, Leonel finalmente conseguiu falar:
- Pai...mãe...e quanto à minha tia? Ela está passando por privações, devido à nossa extrema pobreza. Posso levar algo do tesouro dos piratas?
- Não, filho. Este tesouro teve seu brilho tingido pelo sangue de inocentes. É amaldiçoado e você não deverá tocá-lo! Explicou o guerreiro O espírito do tesouro não se encontra aqui, mas seus passos serão guiados pelo seu próprio coração, para que você encontre tesouro ainda maior. E não se preocupe com sua tia, pois ela terá uma vida ampla e abastada ao seu lado!
  Quando o guerreiro terminou de falar, a mulher beijou a fronte de Leonel e disse:
- Agora vá, filho meu...Este homem irá ajudá-lo no retorno à aldeia. Depois deixe-o ir, pois no destino dele irá cumprir-se o seu!
  Sem entender a maioria das palavras da mulher e do guerreiro, mas tendo em seu coração que estivera frente a frente com seus pais, um ainda abismado, porém feliz Leonel, entrou no barco com o pirata. Quando após algumas poucas remadas, ele olhou para trás, para um derradeiro adeus, , não viu mais a figura altiva e brilhante do guerreiro e nem a linda mulher. Mas sim uma bola de fogo, de proporções muito maiores do que a primeira, que cobria toda a ilha. Os corpos dos piratas e seu sangrento tesouro, sumiram ante a violência das chamas, e logo depois, o sinistro navio deles tinha o mesmo destino. 
  Meses depois desse acontecimento, uma horda de piratas invade o reino de Vanille, que ficava ao norte da fronteira da França. Vorazes e impiedosos, os fora-da-lei não puderam ser impedidos pela guarda real, e muitos soldados tombaram, fiéis ao rei e à missão de proteger Vanille. O pacato reino do rei Moaran de repente se transformou num inferno de chamas, gritos furiosos e gemidos dos feridos. Não bastasse saquearem o palácio e todas as casas do reino, os piratas raptaram também a filha do rei Moaran e exigiram mais tarde uma grande quantidade em ouro para libertá-la.
- O que posso fazer, meus amigos? Perguntou o aflito pai aos seus conselheiros, após receber o pedido de resgate dos piratas. mesmo que eu pague o resgate da princesa Larissa, temo que os piratas não a libertem!
- Infelizmente seu temor tem procedência, majestade Concordou um dos conselheiros, no que os demais anuiram, balançando silenciosamente a cabeça Aqueles homens cruéis podem ficar com o ouro e ainda manter nossa princesa cativa...ou mesmo matá-la!
 No momento em que o rei e seus conselheiros conversavam, entrou um soldado, curvou-se ante os principais do reino, e disse:
- Majestade...conselheiros...tem aí fora um homem que garantiu conhecer alguém que poderá ajudar a libertar a princesa!
- Mande-o entrar imediatamente, soldado! Animou-se o rei Moaran. 
  O ex-pirata que havia sido poupado na ilha, e que agora vivia honestamente no reino de Vanille, soubera do ataque e da desgraça do rei, e resolvera vir contar o que lhe acontecera meses atrás.
  Após cumprimentar os nobres da Côrte, ele dirigiu-se ao rei:
- Majestade, mora numa vila de pescadores, próxima a este reino, um jovem que tem o auxílio de forças sobrenaturais e poderosas!
  E o ex-pirata narrou toda sua história ao rei. Após ouví-lo com a maior atenção, o rei, entusiasmado, enviou-o com uma escolta em busca de Leonel.
  Cerca de quatro dias a cavalo, e o ex-pirata e a escolta real chegaram à vila aonde vivia Leonel e sua tia.
- O rei lhe oferece muito, muito ouro, meu jovem, para que você livre a princesa das mãos dos piratas! 
  Leonel ouviu toda a história sobre o ataque dos piratas, do rapto da princesa e da tentadora oferta do rei Moaran, mas não aceitou a missão.
- Sinto, mas nada posso fazer! Nem mesmo eu posso explicar direito, até hoje, o que aconteceu naquela ilha. Mas após voltar para a vila, a pesca melhorou sobremaneira, e eu vivo tranquilo aqui, cuidando da minha velha tia. Diga ao rei que não me sinto à altura para tal empreitada!
  A comitiva real, ouvindo isso, despediu-se do rapaz, e com seus cavalos a trote lento, foram deixando a vila. Porém, antes que o último cavaleiro se  perdesse de vista, a espada que Leonel ganhara do guerreiro de fogo começou a brilhar intensamente, e levitando, deixou a cabeceira da cama onde o jovem a deixara, e veio pousar na mão do boquiaberto rapaz. Em instantes ele sentiu no coração o que a espada queria lhe dizer. Emocionado, acariciou a pedra de jaspe vermelho que sua mãe colocara em seu pescoço, e decidiu-se a ir com os homens do rei. Despedindo-se da tia, ele colocou a espada encantada na cintura, muniu-se de água e pão, e seguiu após a comitiva.
   Algumas léguas adiante, a comitiva havia parado para dar descanso aos animais. Eles estavam debaixo de frondosas árvores, ao lado de uma refrescante fonte. Homens e cavalos tomavam fôlego para a volta ao reino de Vanille. Mas apesar do belo e tranquilo local, os semblantes dos homens estavam tristes, pois a missão não tivera sucesso. Como amavam o rei e a princesa, pensavam sobre a aflição dele e no destino da moça. Após quase uma meia hora ali, eles, desanimados, já preparavam-se  para montar, quando viram surgir ao longe na estrada a figura de Leonel.
  Cerca de uns dez minutos depois ele aproximou-se deles. Informado pelo jovem que iria ajudar o rei, um dos conselheiros que estava junto com a escolta, alegremente ofereceu sua própria montaria ao rapaz, despachando-o à frente deles:
- Vá, meu jovem, porque o tempo urge!  Que o destino seja benevolente com todos nós e que os Céus abençoem sua missão!
Assim que chegou a Vanille, Leonel foi introduzido à presença do rei. Este, após abraçar e agradecer o rapaz, colocou-o a par da situação. O navio pirata estava fundeado a poucas milhas da praia, e Leonel, após comer e descansar, para lá se dirigiu na madrugada do dia seguinte, só em um pequeno barco, para não chamar a atenção e evitar reações imediatas dos malfeitores.

- Ó de bordo! Gritou, assim que seu barco encostou no casco do navio. Como não houvera nenhum alarme, Leonel calculou que os piratas ainda dormissem. Gritou novamente:
- Ó de bordo! Eu venho trazer o resgate da princesa!
Alguns piratas colocaram seus sonolentos rostos sobre a amurada, e logo atiraram uma corda, por onde Leonel começou a subir. O próprio rapaz estava estranhando a completa ausência de medo em seu coração. Era como se a espada e a pedra lhe dessem ânimo de guerreiro.
Assim que colocou os pés no convés, um  sujeito de alta estatura, que estava no tombadilho e que aparentava ser o líder dos piratas, quis saber:
- Então...cadê o ouro?
- E onde está a princesa? Respondeu Leonel com outra pergunta.
  O homem no tombadilho fez um sinal e um dos piratas foi até o porão do navio. Logo um homem velho, de aparência estranha, apareceu no convés, trazendo a princesa Larissa presa com uma fina corrente ao pescoço. Apesar da situação crítica, Leonel não pôde deixar de se encantar com a beleza de Larissa. Ela era tão linda quanto uma aurora na primavera, comparou em pensamento.
- Capitão... Chamou o velho com sua voz rouca e tenebrosa.
- Fala, feiticeiro!
- Sinto a presença do Bem ao lado daquele jovem, Seus homens não conseguirão combatê-lo!
  O chefe dos piratas deu uma sonora gargalhada. Afinal, ele tinha ao seu dispor naquela navio, 30 homens da mais alta periculosidade, todos eles peritos no manejo da espada. O que um garoto poderia fazer contra eles? Este foi seu pensamento. Então ridicularizou a cautela do feiticeiro.
- Ora, seu velho medroso...ele é apenas um rapazola!
- Eu sei, mas mesmo assim vou conjurar forças do mal para nos ajudar!
  O capitão, apesar de acreditar nas forças demoníacas a serviço do velho feiticeiro, as quais já tanto lhes havia ajudado na trilha do crime, não achou necessária nenhuma intervenção sobrenatural apenas por causa daquele jovem. Ele desceu do tombadilho e aproximando-se de Leonel, ordenou:
- Agora me entregue o ouro! Disse impaciente.
O sol começou a brilhar no horizonte do ainda escuro oceano, e seus raios se refletiram nos cabelos e no olhar sereno do rapaz. Ele então empunhou a espada, que ante o olhar espantado do pirata, começou a flamejar.  Mas o homem nem sequer teve tempo de atinar com aquilo, pois a lâmina afiada da espada decepou sua cabeça, num golpe preciso.
-   Aqui está seu ouro! Gritou Leonel, e partiu para cima dos demais piratas. Os golpes da espada de fogo iam tombando um a um, e os piratas, surpresos e assustados, demoraram a esboçar uma reação. Disso se aproveitou Leonel e chegando próximo à princesa, cortou a corrente que a prendia com um golpe certeiro, gritando para que ela ficasse ao seu lado. O feiticeiro correu para a proa do navio e os piratas restantes, aos berros, vieram com toda fúria para cima dos dois jovens.
  Ao passo que a espada de fogo fazia círculos brilhantes no ar e ia ceifando a vida dos sanguinários homens, Leonel mandou Larissa descer para o barco. Enquanto a princesa descia pela mesma corda que subira o rapaz, uma dezena de piratas atirava-se contra ele. No momento em que  a violenta batalha tinha sequência, na proa o velho feiticeiro, de joelhos e revirando os olhos maléficos, conjurava forças do inferno para virem ajudar os piratas. 
  Leonel, ao ver que a princesa já estava no barco, saltou para lá também. A meia dúzia de piratas que sobreviveram, ficaram na amurada, lançando todo tipo de imprecações, enquanto o barco se afastava lentamente do navio.
  Repentinamente no céu até então claro, surgiram densas e negras nuvens e em instantes relâmpagos avermelhados envolveram o navio. Amedrontados, os piratas jogaram-se no convés. Então, bem no alto do mastro principal, começou a tomar forma uma figura demoníaca. Com corpo de homem, coberto de escamas e cabeça e cauda de dragão, a horrenda criatura tinha uns dez metros de altura. O feiticeiro, gargalhando diabolicamente, instigou o monstro a atacar o barco que levava os dois jovens.
  A cauda do monstro riscou o ar e foi se abater sobre a pequena embarcação, arrebentando o mastro e a vela.  Leonel desembanhou a espada, procurando nela ajuda para ferir o demônio, mas com o impacto do golpe da imensa cauda, a espada escapou da mão do jovem e foi cair no fundo do barco. Desesperado, o jovem apertou a pedra do cordão em seu pescoço, evocando uma ajuda que não acreditava que viesse.
Mas o jaspe vermelho começou a brilhar com a intensidade do sol. Um facho de luz saiu da pedra em direção à criatura envolta em negras nuvens.  O raio dissipou as nuvens e arrancou um grito de dor do demônio ao atingí-lo. A horrível criatura então se evaporou num grande estrondo, tão rápido quanto havia aparecido. O poderoso facho de luz continuou em sua intensidade, envolvendo o navio pirata e incendiando-o, junto com todos os homens que nele se encontravam.
  Pouco tempo depois, apenas uma brisa serena acariciava as ondas do agora calmo mar. Nada sobre sua superfície demonstrava que há pouco ali acontecera uma incrível batalha entre o Bem e o Mal. Leonel consertou o mastro e o barco, tranquilamente, os levou de volta à terra.
  O rei, emocionado e agradecido, ofereceu a Leonel, além das riquezas, o título de Cavaleiro do reino de Vanille. O jovem buscou a tia para morar com ele meio a todo conforto que o reino oferecia. Passado algum tempo, Leonel e a princesa Larissa, que já haviam se apaixonado desde o primeiro encontro, se casaram, sob as bençãos do rei e da velha e feliz tia.
  Anos depois, abastado de dias felizes, o velho rei Moaran partiu ao encontro dos seus antepassados, e Leonel e Larissa passaram a reinar em Vanille. O jovem acabou por descobrir o espírito do tesouro, do qual seu pai havia lhe falado na ilha. Reinando com amor e justiça, o espírito do tesouro habitou no reino, e ele teve prosperidade nunca jamais igualada. Leonel, com sabedoria, ponderava que seu tesouro maior era o amor que existia entre ele e Larissa.
  O rei Leonel, a espada de fogo e o cordão de luz viveram juntos ainda muitas aventuras, e o rei aguardava com ansiedade a calma velhice e o encontro com aquele que seria dígno de continuar empunhando a espada encantada e levar no peito a pedra de jaspe vermelho. Mas as outras incríveis aventuras do rei Leonel e seu encontro com seu sucessor, já é uma outra história...

FIM

 

 

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