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Meus Contos & Crônicas 02
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Sociedade Anônima
Sergio Ferraz
 


 Um dos homens mais ricos e poderosos do estado de São Paulo, ao completar setenta anos, resolveu convidar algumas pessoas para comemorar seu aniversário. Até então suas festas eram esplendorosas, com a participação de toda a nata da sociedade, da cidade, do estado, do país e até de outros países, tal era a exuberância de sua fama e riqueza.
  Porém, desta feita, o poderoso empresário iria convidar apenas quinze  pessoas para a festa de seu aniversário. Os convites, impressos na melhor gráfica do estado, todos em letras douradas e tendo  fios de ouro como  ornamentos, foram entregues um por um aos quinze  convidados especiais.
  Assim, foram convidados dom Giuzeppe, bispo da região, responsável por dezenas de paróquias; o pastor Clemildo, de uma denominação religiosa local;  Roberto, gerente da agência do banco local; o vereador Salgado, da Câmara Municipal; o fazendeiro -  e também prefeito da cidade de Fariséia, Fernando Silva; Igor Santalucia, proeminente cientista do estado; o soldado Fagundes, do destacamento militar da cidade; Alcebíades, deputado estadual; Luiz,  presidente de um clube filantrópico; a bem informada Margarida, colunista social do jornal da cidade; João Paulo, dono de uma poderosa emissora de tevê; o advogado Roberval; a beata Clarice, uma senhora religiosa, de grande influência na comunidade; José, funcionário de uma das várias empresas do poderoso homem; e, por fim, o Benedito, um cidadão comum, sem profissão definida.
  Sem que nenhum convidado ainda soubesse do outro, todos se sentiram honrados em ser convidados para a festa de aniversário daquele homem. Eles já sabiam que na mansão daquele empresário já havia pisado artistas, embaixadores, chefes de estado, enfim, as maiores personalidades deste e de outros paises. Portanto, a honra era infinda. Apenas Benedito não havia entendido a razão do convite. Todas as outras pessoas se julgavam merecedoras daquela honraria, mas Benedito, homem comum, embora muito conhecido na cidade, pois era uma pessoa simpática, dada com todos e, principalmente, fanático por futebol e pescaria, não entendeu porque fora lembrado por tal homem tão poderoso. Ele nunca havia pisado ou sequer passado perto da mansão daquele homem e  tampouco se julgava à altura nem para cortar a grama dos jardins da propriedade daquele milionário. Era realmente estranho tal convite. Dando de ombros, procurando não cansar o cérebro com suposições, ele resolveu aceitar. De uma forma ou outra, era uma "boca-livre" e que boca, imaginava Benedito. Quem estava acostumado com churrasquinhos de final de semana jamais poderia desperdiçar uma chance daquela.

E finalmente chegou o grande dia, na opinião dos quinze convidados. Era uma sexta-feira e, de acordo com as brilhantes letras do luxuoso convite, era aguardada a presença de todos na mansão às dez horas da noite. Todos eles, claro, colocaram suas melhores roupas. José, o funcionário, gastou o último centavo do seu salário na compra de um "smoking" e Benedito, com sua lábia, fez com que uma das lojas da cidade lhe vendesse a roupa para pagar em prestações à perder de vista.
  Às dez horas em ponto, os carros, a maioria guiados por motoristas particulares ou funcionários públicos, começaram a despejar seus valiosos passageiros à entrada da mansão. José e Benedito, embora tivessem carros, sentiram que estes eram um pouco velhos para serem vistos nas redondezas da riquíssima mansão, e também resolveram ter seus próprios motoristas particulares. Foram de taxi.
  A mansão, que ocupava infindáveis alqueires, ficava fora da cidade. Circundando toda a propriedade, altos e arrogantes muros e, dentro dos muros, por entre os imensos jardins, guardas armados passeavam com seus ameaçadores "dobermans" protegendo toda aquela ostentação de poder e riqueza.
  Verificados pelo chefe da guarda todos os convites, e identificados seus portadores, os quinze convidados foram introduzidos na imensa sala da mansão e as portas foram fechadas após eles. Novamente somente Benedito raciocinou sobre aquilo. Os demais convidados estavam demais envolvidos com o brilho da ocasião - e pelo seu próprio brilho. Benedito achou estranho ter apenas aquele punhado de pessoas presentes à festa de aniversário do tal poderoso homem, e mais ainda constar no convite que acompanhantes, mesmo maridos ou esposas, eram proibidos. Ele era separado e, pelo que sabia, outros dois convidados, Margarida e o vereador Salgado, dono de uma rede de supermercados, também o eram. Os religiosos eram solteiros, a beata e o dono da emissora eram viúvos e  o prefeito e o deputado, eram casados, como também o soldado e o funcionário José. Do filantropo Luiz, do gerente do banco, do advogado Roberval e de Igor Santalúcia, ele nada sabia. Mas assim que um mordomo impassível, trajando roupas impecáveis que pareciam jamais serem portadoras de uma insignificante dobra, aproximou-se com as bebidas, Benedito esqueceu-se de suas pequenas ponderações.
  Como sempre acontece, o grupo rapidamente se desfez em subgrupos. Os dois religiosos começaram a falar sobre religião; os políticos e mais o dono da emissora de tevê, se agruparam do seu lado, falando sobre política; o gerente do banco procurou tecer comentários com Igor sobre os últimos avanços da ciência; mas o cientista estava deslocado e não deu atenção a Roberto, que acabou indo se juntar ao grupo onde estava o prefeito. O presidente do clube filantrópico, o advogado, a colunista social e dona Clarice, que não tirava os olhos encantados de sobre o bispo, se juntaram de um lado, falando amenidades; e por fim, em outro canto, se juntaram o soldado Fagundes, o funcionário José e Benedito, falando sobre mulher, futebol e pescaria.
  Assim, todos devidamente locados, à exceção do cientista, bebericavam e zunzuavam, observados silenciosamente pelos imensos candelabros de cristal que pendiam luminosos do teto da sala da mansão, pelas luxuosas cortinas carmins que cobriam as imensas janelas do salão e pelos quadros de Vincent Van Gogh e Francis Bacon, que ornavam as brancas paredes. No centro da sala, numa grande mesa cercada por quinze cadeiras,  no melhor estilo clássico inglês, a prataria  emitia os reflexos da abastança.
  Cerca de quarenta e cinco minutos depois, o taciturno mordomo, apenas monossilibando um por favor, acompanhado de um gesto direcional, convidou-os para tomarem lugar à mesa. Depois que todos haviam se assentado e um silêncio meio desconfortante foi se interpondo entre as palavras dos assuntos que já pareciam se esgotar, o som da quinta sinfonia de Beethoven foi tomando conta do ambiente. No começo, quase inaudível e depois foi crescendo, mas sempre mantendo um volume aceitável.   Alguns gostaram da sonoridade da música; outros, não. José e Benedito gostavam mais  de um som de pagode e Margarida, que jamais confirmaria isso em público, pois posava de intelectual assinando a coluna social do jornal, gostava mesmo era da música das duplas sertanejas.

A música do gênio alemão foi executada três vezes, initerruptamente, levando alguns dos quinze convidados a ficarem alienados ainda mais do sentido de tudo aquilo e outros a se irritar, pela repetição já monótona. Apenas Margarida, querendo mostrar seus dotes intelectuais, começou a explicar para Roberval que o músico procurou, através daquela composição, retratar a chegada da morte na crueldade e insanidade da guerra. Roberval, que estava mais preocupado com uma ação judicial para a segunda-feira seguinte, pouca atenção deu à jornalista.
  A música então parou repentinamente, mergulhando o salão num pesado silêncio. Os convidados para a festa se entreolharam, sem nada entender. Agora todos eles, tal como Benedito no início, estranharam o clima denso que estava sendo criado, em nada parecido com uma alegre e descontraida festa de aniversário. Então potentes caixas de som emitiram a saudação do anfitrião. Não se via a aparelhagem de som e tampouco o dono da mansão. Apenas se ouviu sua voz calma, pausada e forte, apesar dos seus setenta anos de idade.  Igor ponderou consigo mesmo que a voz era um tanto rouca e parecia um pouco cansada, mas sendo de um velho de setenta anos, estava dentro da normalidade.
  - Boa noite, senhoras e senhores. Agradeço imensamente terem aceitado meu convite para esta festa, se é que podemos chamar assim esta reunião de um grupo tão especial.
  Margarida deu um sorrisinho vaidoso e o prefeito piscou para o vereador. Benedito olhava para a enorme porta de mogno, por  onde vira o mordomo passar antes, na esperança de vê-lo entrando com a comida. Afinal já eram onze horas da noite e seu estômago dava mordidas no vazio, sentindo que àquela hora, até um pão com mortadela seria bem-vindo.
  - Como meus convidados podem notar, quis comemorar meus setenta anos de uma maneira especial. Não mais com as grandes festas que costumava fazer, convidando centenas de pessoas. Desta vez resolvi convidar apenas pessoas, que de uma maneira ou outra, representassem todo nosso universo humano. Assim, decidi que dezesseis pessoas, incluindo a mim mesmo, representariam todas as demais, desde pessoas da nossa comunidade, até pessoas de outras cidades, estados e países. Enfim, uma representação miniaturizada deste nosso sofrido Planeta. Aqui nós temos dois religiosos e ainda a senhora Clarice, que bem representam a área da religião; temos o representante do nosso capitalismo, e outros, das ciências  e da política; temos os comunicadores,  o jurídico e o policial,  o filantropo e, é claro, meu bom José, funcionário de uma das minhas empresas; e por fim, aqui também está o senhor Benedito, figura muito conhecida em nossa cidade e que representa o homem comum. 
  José, de olhos semicerrados e sorriso no rosto, estufou o peito e ajeitou-se orgulhoso na cadeira. Afinal, tivera a honra de ter seu nome  citado pelo homem mais rico e poderoso de todo o estado e que, felizmente, era seu patrão. José só o conhecia por fotos, sem jamais ter tido a oportunidade de vê-lo pessoalmente. E agora, quanta felicidade. Ali estava, sentado à mesa daquele poderoso empresário, sentindo ainda ressoar nos ouvidos seu nome citado por ele. "Meu bom José..."
  Benedito, irritado com a fome, de nada gostou de ser classificado como homem comum. Gostaria de ter gritado quando viria a comida, mas, para não dar vexame, preferiu alisar nervosamente o bigode e se calar.

Após uma pequena pausa, a voz do anfitrião retumbou novamente no salão de festas da mansão.
- Hoje completo setenta anos de idade. Setenta anos...com tal idade você já viu e viveu tudo nesta vida. Nasci de uma família pobre, trabalhei e estudei muito e há muitos, muitos anos, comecei meu império. Primeiro foi uma pequena indústria, que depois virou uma multinacional...na sequência investi numa empresa de transportes e depois imóveis e assim por diante. Creio que parte dessa história todos vocês já conhecem.
  Os convidados anuiram com a cabeça, num respeitoso silêncio que só era quebrado pelos roncos famintos do estômago de Benedito. O milionário continuou:
- Minha luta foi enorme, tanto para crescer, como para manter o que havia conquistado. Subornei autoridades corruptas, destrui concorrentes, ajudei políticos a chegarem ao poder, pois minhas empresas precisavam de lobistas lá em Brasília...enfim, fiz tudo que era ruim, sob a ótica dos padrões morais e religiosos. Dizem que é preciso ir ao inferno para ver Deus...Pois eu fui ao inferno e somente encontrei almas penadas, como a minha mesmo. Descobri que o homem é realmente o lobo do próprio homem e que na Terra se fazem leis, mas não se pratica a justiça. Como escreveu um humorista certa vez, a justiça dos homens é cega, surda e manca.
  O milionário fez nova pausa e quase que o advogado Roberval o interpelou, pois acreditava piamente no adesivo colocado em seu carro e de seus colegas de profissão, cuja frase dizia que Sem advogado não se faz justiça. Porém, como era o único jurídico no local, resolveu engolir o que para ele era um insulto, e atentou para a retomada do monólogo do anfitrião. Quando o sujeito saisse do seu esconderijo e viesse para a mesa, Roberval iria provar a ele que a justiça dos homens, baseada em códigos constitucionais, era perfeita. 
- Eu conclui que nunca havia ido ao inferno, pois eu era meu próprio inferno e, segundo Sartre, também o inferno dos outros. Assim, quando percebi que eu era meu próprio demônio, já era tarde demais. Estava na época com 67 anos de idade e era corroído por um câncer que, segundo meus médicos, me permitiria viver mais ou menos uns três anos. 
  Todos os 15 convidados se entreolharam abismados. Pelo que puderam entender, o milionário não os convidara para uma festa de aniversário, e sim para uma festa de despedida.
- Se vocês já fizeram uma soma mental, ao comemorar hoje meu septuagésimo aniversário, estou festejando minha própria morte. Apesar de todos os males que causei, jamais fui castigado pela ignóbil justiça humana, pois meu dinheiro sempre comprou homens que, por menos que paguei por eles, sempre tiveram um preço muito alto. Mas eu fui julgado aqui na Terra e condenado pela única, verdadeira e incorruptível Justiça: a de Deus. Meu castigo não foi a dor do câncer e nem a ciência da morte, e sim a consciência das minhas ambições e consequentes maldades. E nem que eu fosse mil vezes mais rico do que sou, não poderia fugir à Justiça divina e nem poderia subornar a morte, que é a única justiça real no mundo dos homens  e tampouco me livrar do açoite da consciência do mal. 
   Àquela altura todos pareciam ter até parado de respirar, tão absortos estavam com o monólogo do milionário. Até Benedito esqueceu-se do estômago, prestando a máxima atenção às palavras do homem. O bispo e o pastor, por sua vez, se entreolharam rapidamente, com um semi-sorriso de aprovação. A eles parecia que alí estava uma alma arrependida, confessando a todos os seus pecados. Pela satisfação no rosto dos dois religiosos, parecia que só esperavam o milionário decidir qual das religiões iria abraçar doravante, pouco antes da morte atroz. Se bem que ele era tão rico, que mesmo não se decidindo por uma ou outra, daria uma boa fatia para cada uma...Eles cruzaram as mãos sobre as barrigas (imensa a do bispo e esquelética a do pastor), e suspiraram complacentes ante as pecaminosas confissões do milionário.
- Criei o inferno, vivi nele e, infelizmente, só na proximidade da grande justiceira é que encontrei Deus. Ou melhor dizendo, Ele quis me encontrar, creio eu.

Agora quero me absolver dos meus pecados perante os homens, já que no tribunal divino não sei se o serei. Já que de nada me adiantou minha fortuna, pois eu não a usei para o bem e sim, na ambição de aumentá-la, somente causei o mal, quero ainda em vida corrigir isso. Eu não quero nenhum dos presentes que vocês me trouxeram, porém, quero dar toda minha fortuna de presente a vocês!
   Se até aquele momento os 15 convidados pareciam não respirar, ao ouvir aquilo eles pareciam que iam sufocar. Ninguém dava mostras que acreditava nas últimas palavras do milionário. Todos os convidados olharam os presentes que haviam trazido e de repente parecia a eles que tinham trazido cada um uma simples gulousema para dar ao aniversariante que agora lhes oferecia de presente uma doceria completa, com os mais saborosos doces. Os que ainda seguravam o presente, colocaram o pacote discretamente no chão. Sem nenhuma palavra, boquiabertos, olhavam na direção de onde vinha o som da voz do anfitrião.
- Eu nasci aqui em Fariséia e gostaria de deixar para a cidade toda a minha fortuna. Não quero que ela fique nas mãos dos urubus do governo.
Ouvindo estas palavras,  o prefeito Silva quase babou, antevendo o que poderia fazer com toda a fortuna do homem mais rico do seu Estado. Mas logo ele engoliu a própria baba, ao ouvir a continuidade das palavras do milionário.
- Mas não existe uma maneira legal de se deixar uma fortuna para uma cidade...e eu, como sabem, não tenho descendentes. Desse modo, quero propor algo a vocês...aliás, foi para isso mesmo que os convidei. Se vocês aceitarem minha proposta, um de vocês, apenas um, irá herdar todos os meus bens.
Todos se mexeram na cadeira, aflitos para saberem o que o milionário pretendia. Caramba, pensou Benedito. Um deles iria faturar toda a grana do velho, só bastando aceitar sua proposta. Então porque o maldito milionário não dizia logo o que era e acabava com aquela angústia? E todos praticamente pensavam igual a Benedito. A ansiedade parecia saltar dos seus olhos e grudar na parede, de onde, presumiam, vinha a voz do milionário. Este, parando de falar, parecia que absorvia toda a expectativa dos convidados e saboreava cada segundo da ansiedade deles. Finalmente resolveu continuar.
- Pensei que algum de vocês fosse me perguntar qual é minha proposta, mas já que não o fizeram, vou explicar: nesta noite eu confessei todos os meus pecados a vocês. Agora quero saber dos pecados de vocês!
Um frio estomacal generalizado percorreu a barriga de todos os convidados. Eles estavam esperando muita coisa, e a principal, claro, era meter a mão na fortuna daquele homem. Mas nem imaginavam uma coisa assim. Agora todos estavam ainda mais boquiabertos. Ninguém conseguiu murmurar uma única sílaba. Ele continuou:
- Não quero ninguém se ajoelhando e confessando hipocritamente os pecados que lhe forem convenientes confessar. Eu não sou Deus para perdoar ninguém. O que eu quero é formar um pequeno tribunal com vocês, ao qual poderemos chamar de O Julgamento do Dia Final. Eu farei as acusações, o advogado Roberval fará a defesa de vocês, e Deus será o Juiz.

Roberval, irado, talvez se esquecendo da possibilidade de herdar a fortuna do seu anfitrião, ou acreditando que tudo aquilo era uma brincadeira sem graça, acabou quebrando o monólogo.
- Desculpe, senhor, mas creio que já é hora de acabar com esta comédia. Viemos até aqui a seu convite, para a festa de seu aniversário, sem imaginar que o senhor queria apenas brincar com nós. O que o senhor está propondo é ridículo e eu me recuso a continuar sendo feito de bobo!
- Porque você acha ridículo, caro advogado?
- Porque com a lei não se brinca. O que o senhor está propondo é um desrespeito às leis constituidas deste país. E creio que já somos um pouco crescidos para brincar de tribunal.
- A lei, ora a lei...para que lei, se não há justiça? Além do mais, eu não brinco, caro advogado. Vamos formar um tribunal aí nesta sala e, repito, eu vou acusá-los e você vai defendê-los. Deus será o Juiz de todos nós. Ah, sim, apesar de vocês, causídicos, acharem tolo aquele que defende a sí próprio, em seu caso você terá que assumir essa tolice, pois não há outro advogado para defendê-lo.
- E eu serei acusado de quê, caro senhor? - Quis saber Roberval, já com o rosto congestionado de raiva.
- No momento exato você saberá.
Roberval pensou um pouco, talvez avaliando o grau de loucura do milionário, e em seguida observou:
- Digamos que eu aceite esta brincadeira estúpida, cadê os jurados e testemunhas pertinentes a cada caso?
- Vocês quinze serão os réus, os jurados e as testemunhas.
Roberval desabotou o paletó, soltou o nó da gravata que parecia fazer seu rosto ficar mais inchado e vermelho ainda, e disse:
- O senhor é um louco! Eu vou embora! 
- Se eu fosse o senhor não faria isso. Primeiro, todas as portas de acesso a essa sala estão trancadas; segundo, lá fora existem mais de dez cães bravios à solta, que o dilacerariam em poucos minutos; e terceiro, meus guardas têm ordens de atirar em qualquer pessoa que tente sair daqui, sem minha autorização.
Todos os convidados se levantaram horrorizados, alguns derrubando suas próprias cadeiras. Assustados, eles falavam entre sí, sem ninguém entender ninguém. O tumulto se generalizou, até que Alcebíades, fazendo uso da sua posição parlamentar, gritou:
- Calma, amigos...calma! 
- Mas como calma? - Inqueriu a colunista Margarida - Esse homem está louco!
Alcebíades nem a ouviu. Com olhar entre assustado e indignado, ele procurava pelas paredes localizar de onde vinha a voz do milionário.
- O senhor está louco, realmente! Por acaso não sabe que isso configura crime de sequestro?
- Ora, parabéns, nobre deputado! - ironizou a voz -  Para sua informação, estou pouco me importando se isso é um crime ou não. Agora, por favor, o senhor já é a terceira pessoa que me chama de louco aí nessa sala...poderiam, por gentileza, usar outro adjetivo? - Brincou.
- Mas o senhor disse que ia dar sua fortuna a um de nós! - Lembrou o gordo bispo, suando por todos os poros, apesar do ar condicionado. Pelo jeito ele pouco estava se importando com as ponderações de Roberval e Alcebíades.
- E vou, senhor bispo... E vou. Peço apenas que os senhores serenem os ânimos e voltem a sentar, para eu poder falar sobre minha oferta. Vocês acham que um homem de setenta anos, morrendo de câncer, teria alguma vontade de brincar? Eu disse que vou doar todos meus bens a um de vocês, e é isso que pretendo fazer, após nosso pequeno julgamento de Nuremberg. Aquele que for julgado inocente – ou menos pecador nesta noite, receberá todo meu dinheiro, jóias, carros, mansões, indústrias, ações e tudo o mais que eu tenha. Ao encerrarmos nosso simbólico julgamento, já que ele não terá caráter oficial, como o advogado Roberval sabe, cada um de vocês será liberado e poderá voltar ao seu lar em paz...se conseguir.
Ao ouvirem tais palavras, os convidados ficaram mais calmos. Afinal, pensaram eles, se o sujeito queria brincar um pouco, porque não brincar com ele? Nada de mal poderia ser provado contra eles. Todos os quinze eram cidadãos íntegros, trabalhadores e cumpridores da lei. Então, o que temer? E, por fim, se o velho estivesse falando a verdade, como parecia estar, um deles tinha a chance de sair dalí como um novo milionário. A oferta era tentadora demais para ser olvidada. Todos se curvaram sobre a mesa e confabularam num tom de voz quase inaudível com Roberval. Pouco depois este se levantou e disse em tom irônico:
- Muito bem. Eu e os demais convidados aceitamos a brincadeira.
- Fico feliz com isso e com o coração menos pesaroso por vocês aceitarem tudo como uma brincadeira. Que assim seja.
O milionário não disse nada por cerca de uns três minutos, enquanto observava, através do circuito interno de tevê que mandara instalar para a ocasião, que o grupo voltava a se acotovelar sobre a mesa, parecendo trocar idéias entre sí. Então o milionário interveio:
- Senhores e senhoras, já passam das onze horas da noite e creio que devam estar famintos. O jantar será servido neste momento e à meia-noite, em ponto, iniciaremos o julgamento dos seus pecados!
Os convidados se entreolharam, novamente sentindo um frio percorrer suas espinhas, mas como já estavam mais calmos, lembraram-se da fome que assolava seus pobres estômagos. 
- Comamos e bebamos, pois amanhã um de nós estará milionário! - Brindou o prefeito, fazendo um trocadilho, logo que o jantar foi servido.
Mas apesar da expressão leviana, o jantar não foi alegre como se presume, fosse um jantar grego. Todos estavam quietos, cabisbaixos e, claro, entremeando o cérebro com dois pensamentos:  de quais pecados poderiam ser acusados, que era preocupante, mas que logo se diluia em cândida certeza de inocência, vislumbrando o Nirvana proporcionado pela fortuna que cada um tinha a certeza de ganhar.
- Pecado...não lembro de nenhum, a não ser as maldades da infância, mas que não chegam a ser pecados - Ponderou em pensamento João Paulo, o dono da emissora de televisão. Em seus pensamentos já antevia-se ainda mais rico, quem sabe comprando uma rede de tevê americana e expandido seus negócios de telecomunicações por todo o Planeta.
O pastor Clemildo pensou que não mais  teria de ficar coletando as poucas ofertas dos fiéis de sua pequena igreja em Fariséia. Com a fortuna que por certo iria ganhar, de acordo com seus pensamentos, iria construir templos formidáveis pelas grandes cidades, que arrecadariam muito mais ofertas, que dariam para construir templos em outros países e que arrecadariam cada vez mais e mais.
O bispo, por sua vez, ansiava uma oportunidade de sair da região e ir tomar conta de paróquias de regiões maiores e mais abastadas, dirigindo a diocese de uma grande cidade. Mas agora, herdando tal fortuna, não mais ansiaria uma grande cidade, e sim o Vaticano! Porque não, pensava. De posse dos bens do milionário, poderia comprar uma bela mansão em Miami, colocar algum nos bancos e ainda sobraria dinheiro bastante, deduzia, para garantir sua roupa de cardeal em Roma e, quem sabe, mais tarde, chegar a papa?
Margarida, de olhos semi-cerrados (e sem se descuidar do regime), saboreava o doce da sobremesa e a certeza de já no dia seguinte ser a madame Margarida. Nunca mais precisaria escrever colunas sociais rasgando seda para aquelas cocotas pobres da socialite fariseiense.

Ela é quem doravante iria aparecer nas colunas sociais, e não nas do pobre jornal da cidade, mas nas colunas sociais do Rio de Janeiro, Paris e Mônaco.
A beata Clarice, que era viúva, já se via em uma bela mansão, com piscina, mordomo e outras mordomias, em pleno centro de Roma. Não mais ia rodear padrecos do interior, já que, milionária, poderia estar perto do papa! 
Roberval, entre uma garfada e outra, listava num pedaço de papel os nomes dos demais convidados, acreditando piamente que seria muito fácil defendê-los, mesmo num tribunal de verdade, já que conhecia quase todos, com excessão do funcionário José e de Benedito, e os sabia pessoas íntegras, pilares da sociedade fariseiense. 
Porém, mesmo julgando que derrotaria facilmente o velho milionário que queria brincar de promotor público, sabia que provando a completa inocência de um dos convidados, estaria também se auto-derrotando, pois ele não iria ficar com a fortuna e sim a pessoa considerada mais inocente (ou menos culpada), de acordo com os loucos parâmetros que com certeza seriam adotados pelo velho maluco.
- Maluco e filhadaputa! - Pensou Roberval, mordendo agora, não a comida do garfo, mas a ponta do lápis. - Se eu ficar, o bicho come; se eu correr, o bicho pega...desgraçado! Como é que posso me sair bem dessa? Bom, eu posso fingir acaloradas defesas para eles e, para mim, eu faria realmente um defesa verdadeira.
Pensando ser essa a melhor saída, já que, é claro, Roberval também queria meter a mão legalmente na fortuna do velho, ele se quedou a pensar no que poderia fazer com tanto dinheiro. Primeiro, jogaria o diploma fora, pois não iria precisar mais dele, como também não precisaria mais se aporrinhar defendendo ninguém em um tribunal, aguentando chateações de juizes mau-humorados, cheios de sí, metidos a deuses. Segundo, é lógico, compraria um belo iate e iria para uma ilha paradisíaca, de onde, cercado por lindas garotas, comandaria todo seu império econômico.
 Roberto também pensava que, com aquela fortuna,  poderia ter seu próprio banco e não ser mais um gerentezinho de uma agência local, à serviço dos poderosos banqueiros. Ele também se tornaria um poderoso banqueiro e, com seu conhecimento, multiplicaria aquela fortuna! O vereador Salgado nem se deu ao luxo de pensar muito. Ele já se viu como prefeito, de imediato, e depois governador e presidente da República. Aliás, o prefeito também pensava isso. Só que, como já era prefeito, já galgou mentalmente os postos de governador e presidente, não só do Brasil, mas quem sabe até de outro país? O deputado Alcebíades já se viu em pensamento recebendo a faixa presidencial e também pensou na sequência em ser presidente de um outro país. Quem sabe os EUA? O dinheiro era a mola mestra do mundo e ele agora seria um dos donos desta mola. O deputado se deliciou imaginando-se brincando com as teclas do telefone vermelho da Casa Branca. Por instantes chegou a pensar em sexo oral, mas logo tirou o pensamento da cabeça. Como presidente dos Estados Unidos da América, ele ia se dedicar a conquistar outros países. Jamais perder tempo com sexo. Se bem, pensou suspirando, sexo não era nada mal, principalmente para alguém como ele, que já há muito não tinha uma noite de amor com a esposa...

-Não, nem pensar! - Descartou os pensamentos - A presidência dos EUA está bom.
Luiz, o do clube filantropo, sentia a cabeça dando voltas e mais voltas, sem conseguir atinar com o que poderia fazer com a fortuna do velho. Seu sonho era morar na Europa, de preferência na Espanha, já que  lá era a terra dos seus pais. Lá ele seria dom Luiz e nunca mais iria precisar se desgastar vendendo rifas de pizzas para arrecadar fundos para seu clube.
O cientista Igor mentalizava as possibilidades de desenvolver grandes pesquisas com um inimaginável e moderno laboratório. Poderia contratar como auxiliares, os melhores cientistas do Planeta e, claro, todos os avanços científicos conseguidos em seu superlaboratório, seriam creditados a ele. Com uma fortuna dessas poderia superar, quem sabe, a própria fama de Eisntein.
Para o soldado Fagundes, José e Benedito,  por mais que tentassem contabilizar os benefícios de ficarem milionários de um dia para o outro, não conseguiam, pois pouco entendiam de economia. Então restava pensar em coisas mais imediatas. Fagundes logo vislumbrou-se numa fazenda, sem a farda, claro, e cuidando de gordos porcos, saudáveis galinhas e algumas belas cabeças de gado; José pensou logo em tornar-se seu próprio patrão, montando uma grande e próspera construtora de prédios de apartamentos, já que achava o ramo imobiliário um dos melhores. E Benedito, bem o Benedito pensou muitas coisas. Entre elas, montar um clube de futebol e um clube de pescadores em Fariséia. Ia pagar todas suas contas no comércio, comprar um belo carro zero quilômetro e um barco, ou talvez uma lancha ou um iate, o que iria possibilitá-lo pescar em alto-mar, onde iria fisgar aqueles enormes peixes das fotos de revistas de pescaria. O resto do dinheiro ele ia guardar e pronto. 
- Ah, sim! - Abrindo de novo os pensamentos milionários, Benedito lembrou que ia também ajudar um pouco sua ex-mulher.
De repente, as doze badaladas da meia-noite começaram a soar no grande relógio de parede, que refletia o brilho de filetes dourados como atestado do seu valor monetário. Os convidados levaram um susto ao terem centenas de felizes e milionários pensamentos espantados pelo som inesperado e repentino.
- Senhores, senhoras, espero que o cardápio tenha lhes sido agradável. - Disse a voz do milionário, invadindo subitamente o salão. - Agora, se todos já estão prontos, passaremos ao nosso simulado tribunal de Nuremberg ou, do Juízo Final, como quiserem.
- O senhor vai ler as acusações que pesam sobre cada um de nós, meritíssimo, ou quer que cada um confesse seus "crimes"? - Perguntou o advogado, com sarcasmo.
- Eu prefiro que cada um fale dos seus piores pecados, ou melhor, do que eles considerem seus piores pecados, caro advogado de defesa.
- Pois então eu vou entrar na brincadeira primeiro. - Adiantou-se Roberval. Com os braços abertos, andou ao redor da mesa, encarando com  um sorriso enigmático aqueles que seriam  jurados, testemunhas e réus ao mesmo tempo. - Vou confessar meus crimes e espero que vocês, o juri, se apiedem de mim! - Completou, como se estivesse se divertindo com tudo aquilo.
- Pois bem, sr. Roberval. Quando quiser. - Autorizou a voz.

- Bem, meu caro anfitrião, meu pecado, ao que me lembro, foi um dia ter deixado de defender uma pobre viúva. Ela não tinha dinheiro nem para pagar a consulta e eu, ainda no começo de carreira, sem que naquele tempo existisse ainda a justiça gratuita, onde a pessoa não tem que pagar ao advogado designado pela promotoria, pois o Estado é quem o faz...
- Eu sei disso, meu caro Roberval. - Interrompeu o velho. - Evite os pormenores, senão ficaremos aqui uma semana, até ouvir todos.
Roberval olhou para o piso, desviando seu olhar de ira, e completou:
- Pois foi esse meu pecado, e me arrependo até hoje por não ter atendido àquela senhora. - Concluiu, fingindo um arrependimento que jamais havia sentido.
- Só isso, advogado?
- Que eu me lembre, é só - Respondeu, sorrindo com ironia para as demais pessoas à mesa.
- Pois muito bem. Então vamos aos jurados. Vocês absolvem ou condenam Roberval por ele ter negado ajuda à citada mulher?
Todos se entreolharam rapidamente e depois se quedaram em pensamentos. Se absolvessem o advogado, poderiam eles mesmos ser condenados mais à frente; se o condenassem, ficariam sem defesa, ainda que todos julgassem-se "santos" e, portanto, sem necessidade de um advogado. 
Enquanto Roberval, de pé no meio da sala aguardava o veredito do "juri", eles sussuravam entre sí a melhor saída.
- Isso é como um jogo de xadrez, disse Luiz, do clube da cidade. - Temos é mais que ir eliminando os "soldados". A torre é o velho e o rei ou a rainha, será quem ficar com a fortuna dele. 
- O que você quer dizer com isso? - Quis saber João Paulo, o empresário da mídia. Luiz, com um olhar entre maldoso e debochado, já que, por promover ações beneficentes através do seu clube, se achava um perfeito cristão, respondeu sem titubear:
- Isso quer dizer que é cada um por sí aqui, e o melhor dará o xeque-mate!
Houve um breve zunzum, com alguns discordando de Luiz e outros de acordo e, como a ganância sempre falou mais alto no coração dos homens, resolveram lutar cada um por si.
- Caros jurados, vocês também estão atrasando este "tribunal"... – Disse em tom brincalhão o milionário - Poderiam ser um pouco mais rápidos em suas considerações?
Todos se viraram para o local de onde parecia vir a voz, e responderam:
- Já temos o veredito pronto, senhor! - Adiantou-se o prefeito.
- Ah, é? E não temos, entre os 14 jurados nenhuma testemunha contra ou a favor do sr. Roberval?
- Não. - Respondeu novamente o prefeito, secamente, e sentenciou:
- Eu e meus colegas consideramos o advogado Roberval, culpado por crime de omissão!
- O quê?!? - Berrou o advogado, que mesmo com toda sua malícia jurídica, jamais esperaria uma sentença assim, e pior: unânime. Ele disse meia dúzia de palavrões, xingando todos na sala, e foi sentar-se à mesa, rubro como um tomate maduro, tal a sua cólera.
- Mas vocês nem deram direito de defesa ao sr. Roberval! - Ponderou o milionário.
- E nem precisava. - Explicou Luiz - Pela sua ganância, ele foi maldoso e omisso em relação à viúva.
O milionário soltou uma sonora gargalhada e depois, já sério, disse:
- Para não estendermos muito nosso julgamento, proponho aos senhores e senhoras, que me permitam ir indicando o próximo réu, sucessivamente.
- Faça o que o senhor achar melhor! - Anuiu o prefeito. Afinal, como a batalha seria entre eles mesmos, tanto faz quem seria o primeiro a ser "julgado" ou o último...
- Então continuamos com o senhor, agora...Qual foi seu maior pecado, sr. prefeito?
- Nada que me arrependa, sou sincero em dizer, mas certa vez, quando apoiei um deputado numa eleição, ví, pelas urnas, que num dos bairros da cidade, ele não havia obtido nenhum voto e, de vingança, cortei a água para aquele bairro, por uns dias. Não acho que isso foi um pecado e, por isso mesmo, não vejo razão para arrependimento.

- Muito bem - Disse o milionário e, dirigindo-se aos outros: - o nosso júri vai condenar ou absolver o nosso vingativo prefeito?
Desta vez os "jurados" não perderam tempo. Roberval, por raiva e os outros 13, já de caso pensado, levantaram-se e a beata, desta feita, foi quem representou o júri, falando o veredito:
- Nós achamos o senhor prefeito culpado! Culpado pela injustiça cometida contra um bairro inteiro, apenas por causa do deputado que ele defendia!
Fernando, o prefeito-fazendeiro, não se irritou, como o fizera Roberval. Apenas abaixou a cabeça e voltou ao seu lugar. Então a voz do milionário irrompeu, irritada:
- Ora, ora, vocês parecem fazer pouco da minha inteligência ou sanidade mental! Vocês todos vão praticamente se declararem culpados, confessando um ou mais pecados que lhes forem convenientes, e assim vão arrastar este julgamento, até eu decidir quem é o menos pecador e lhe conceder minha fortuna ou, ainda quem sabe, vocês todos não se unam para decidir o "inocente" final, que depois repartirá minha fortuna entre todos...Eu já esperava isso. Portanto, se tal idéia lhes passou pela cabeça, para que não suceda que, como disse Roberval, isso aqui vire uma simples brincadeira, passo eu agora a acusá-los. E que cada um se defenda, se o puder. Não haverá mais advogado e nem mais júri, já que vocês decidiram agir cada um por sí, assim o será.
- Maldito velho, pensou Luiz, pois a ele parecia que o homem havia lido seus pensamentos ou ouvido seus sussurros à mesa.
- Como disse, - Continuou o milionário - vocês aqui representam a nossa Humanidade, se é que podemos nos chamar assim. E, como seres humanos, eu sabia que a maioria iria buscar uma saída, mesmo que não honrosa. Mas aqui, repito, não há saída, e entre os homens, a honra hoje é uma coisa tão rara como um diamante cor-de rosa.
O velho parou por instantes, talvez para tomar fôlego, e recomeçou:
- Assim, agora eu vou levá-los ao inferno, expondo o que cada um tem de mais horrível, ou seja, o seu pior pecado. Quem escapar do inferno, herdará minha fortuna, só que, para isso, eu sei que vocês, que se julgam tão honrados, vão se transformar em verdadeiros demônios, cada um se mostrando um anjo de luz, enquanto em seu coração será o adversário do outro. Vocês vão querer galgar a saída do Hades, mas verão que as portas do inferno são intransponíveis. Lá, só se entra; jamais se sai, a não ser pela misericórdia de Deus!
Mais uma pausa e novo recomeço:
- Como eu já confessei diante de vocês meus pecados, me achando indígno de Deus, todos vocês irão deixar esta casa carregando visivelmente seus pecados às costas. Somente um, entre os quinze, além dos seus pecados, levará também minha fortuna. Isso eu decidirei. Quanto ao perdão dos seus pecados, será entre vocês e Deus.
Desarmadas as possíveis idéias de enganar o milionário, os quinze convidados, permaneceram em silêncio. Mas, mesmo assustados, eles estavam dispostos, cada um em seu íntimo, a sair dali, carregando seus pecados, mas também a fortuna do velhote. 
 Cada um deles se julgava menos pecador que o outro. E o milionário sabia disso, pois após ter se dado conta do seu miserável estado físico e espiritual, passara a estudar os homens, para saber até onde a sede de fortuna, fama e sucesso podia levar cada pessoa. Ele havia sido levado ao inferno e tinha voltado, como dissera, e agora buscava Deus, e sabia que nem mesmo toda a fortuna do mundo seria suficiente para adquirir uma forma de achá-Lo. Somente se pode encontrar Deus se Deus Se deixar achar, descobrira ele.
  Ele aprendera isso, mas julgava que muito tarde, pois estava velho e doente para seguir os passos de Jesus. Assim, o que ele podia fazer, a não ser mostrar aos homens, representados por aquelas quinze almas aflitas (e ambiciosas) na imensa sala de sua mansão, que todos são pecadores, indígnos da misericódia de Deus e do sacrifício de Seu Filho? Quem sabe assim, expostos à sua própria miséria humana, eles não poderiam se corrigir e encontrar o verdadeiro Caminho?

- O senhor não acha que já está levando longe demais esse seu divertimento? Nem a sua doença e nem tampouco, sua fortuna, podem dar-lhe o direito de nos humilhar, obrigando-nos a praticamente nos tornarmos verdadeiros selvagens, só pela promessa de herdar seus bens. Além disso, quem nos garante que o senhor cumprirá sua palavra, dando a fortuna a quem o senhor julgar o menos culpado de nós?
- Interpelou dom Giuzeppe, o bispo daquela região, da qual Fariséia fazia parte.
- Muito bem, bispo! Pensei que o senhor não fosse abrir sua boca! - Ironizou o milionário. - O senhor tem razão no quesito da garantia de que minha fortuna irá para um de vocês. E eu já cuidei disso. À esquerda da sala, tem um telefone diretamente ligado ao escritório na capital da empresa Maximilian Advogados, a qual, creio todos devem saber, é uma das mais idôneas, com escritórios aqui no Brasil e nos EUA. Eles já têm em mãos a papelada transferindo minha fortuna para uma pessoa, só faltando eu lhes passar o nome. Quem duvidar, pode ligar para eles agora mesmo, pois eu mandei que eles esperassem o nome em questão, ainda hoje...- O milionário fez uma pausa, esperando que alguém fosse ligar, mas, como ninguém se manifestou, ele continuou: - Bem, se isso os convenceu da minha sinceridade, volto ao dom Giuzeppe, para concluir minha resposta a ele...O senhor, caro bispo, disse que eu os estou obrigando a se tornarem selvagens, por causa da fortuna...Ora, devo lembrar ao senhor e aos outros minhas palavras quando os senhores e senhoras aqui chegaram: eu disse que ninguém poderia sair, e só. Não lembro de ter feito nada para obrigá-los a participar do pseudo-tribunal que organizei. Eu apenas fiz a promessa de um prêmio, ou seja, minha fortuna àquele que provasse ser o menos pecador de vocês, e a ganância de vocês é que os obrigou a participar.
Todos se entreolharam novamente, atônitos desta vez. O milionário tinha razão! Até José, o empregado dele, e Benedito, que era o menos preocupado com tudo aquilo, entenderam o que o homem dissera. Ele os ameaçou, para que ninguém deixasse a sala da mansão e, ao mesmo tempo, lhes colocou à frente a promessa de um deles se tornar milionário naquela noite. Em troca, ele queria que cada um confessasse seus pecados ou seu pior pecado, segundo o entendimento de cada um, mas realmente ele não havia, em nenhum momento, dito que eles eram obrigados a participar.
- Esse puto desse velho é mais esperto do que imaginei... - Pensou Roberval, não deixando de se sentir imbecil por tudo o que havia dito e feito no início e, ao mesmo tempo, até sentindo uma ponta de admiração pelo velho. Que excelente advogado ele daria, continuou sua linha de raciocínio, sacudindo a cabeça em seguida como a espantar os pensamentos de admiração. O velho era um sacana, isso sim! Desviou a atenção de todos do principal, que era somente se recusar a participar do "julgamento"...Mas, não era isso que um bom advogado faria? Então todos os bons advogados são sacanas? 
Sentindo que sua linha de raciocínio estava se esticando demais, Roberval sacudiu novamente a cabeça, agora para por um fim aos pensamentos e decidiu ficar quieto e estudar o velho. Uma hora ou outra ele poderia "derrapar" e aí ele, o grande advogado Roberval, o apanharia. O homem agora, ferido em seu maior ego, que era o orgulho, somente compartilhado por ele mesmo, de ser o melhor advogado da cidade e de toda a região, chegou a se esquecer da fortuna do velho por momentos, com o firme propósito de por a limpo quem era o advogado alí, ele ou o velhote? E qual dos dois seria o melhor?
A voz do velho interrompeu seus elevados pensamentos causídicos:
- Meus amigos, agora que, creio,  está tudo explicado, já que nenhum de vocês nada retrucou, vamos iniciar o verdadeiro julgamento, pois já é quase duas horas da madrugada e eu não quero correr o risco de nenhum dos meus réus dormir sentado... - Apesar de ter feito o que se poderia considerar uma brincadeira, nem o milionário riu e tampouco seus convidados - Pois bem, vou novamente começar a pedir a cada um, chamando-o pelo nome, para que se levante e diga seu maior pecado e, ao fim, eu darei o veredito, não do maior pecador, mas do menor, e que levará o grande prêmio da noite. E, já que começamos pelo sr. Roberval, como ele mesmo o quis, e houve esta grande interrupção, com vocês resolvendo que iriam julgar todos culpados, sem direito de defesa, como deu para entender, vamos reiniciar tudo, e daremos nova chance ao sr. Roberval, e com direito de defesa, se ele achar necessário...

Roberval agora, mais ponderado, procurando fazer o jogo do velho, para ver se o pegava em sua própria armadilha, como ele os havia pego, levantou-se, ajeitando o paletó e posicionou-se novamente no meio da sala.
 - Sr. Roberval, o sr. confessou diante de todos que seu maior pecado foi não ter atendido a uma pobre viúva, pois essa não podia pagar seus honorários, correto?
- Correto.
-Poderia ser, sr. Roberval, mas seria um pecado até que perdoável, dado à sua ambição de começo de carreira. Isso se passou há cerca de 10 anos, e eu tenho provas de que o seu pecado foi bem maior do que o senhor imagina.
-Provas? Mas como? – Assustou-se o advogado. – Como o senhor sabe que foi há 10 anos o ocorrido e que raio de provas são essas de que está falando?
-Quando eu soube da minha doença, já prognosticada incurável, comecei a planejar tudo o que está acontecendo hoje. Assim, como sei que um dos pecados mais frequentes do homem é a mentira, cuidei de reunir provas para as acusações, para mostrar-lhes seus verdadeiros pecados, já que sabia que nenhum de vocês iria contar a verdade, nua e crua. Não é assim que procedem num julgamento?
 Roberval, buscando em seu agitado cérebro lembrança de algo grave que havia cometido, não respondeu ao milionário. E este continuou, deixando todos na sala, com exceção do soldado, do funcionário José e de Benedito, completamente perplexos e assustados. Cada um se perguntava que maldita prova o velhote poderia ter conseguido contra ele, e como...A resposta, para deixá-los ainda mais apavorados, veio em seguida:
-Dessa maneira, não acreditando no ser humano, que traz em si a essência da mentira, contratei, não simples detetives particulares, mas ex-agentes federais, homens de grande experiência em investigações, já aposentados, mas nem por isso menos profissionais. E quem duvidar das acusações, poderei mostrar as provas através  do telão que está se abrindo neste momento na parede, às costas de vocês.
Todos se voltaram à uma para olhar. Um grande painel na parede se abria mecanicamente e um telão aparecia. A tela enorme, silenciosa e fria, pareceu a todos um ameaça acusatória, causando ânsias e dores de estômago na maioria. Aos convidados, de olhos esbugalhados, parecia que fantasmas de pecados cometidos às ocultas, desde  a infância, poderiam de repente aparecer no telão, para vergonha de cada um deles. Até Benedito, que tivera um “caso” com a égua do sítio onde nascera e morara bom tempo, ficou apavorado desta vez.
A voz do velho milionário arrancou-os das lembranças mais secretas, trazendo-os à nua realidade do salão, que agora parecia a todos maior, frio e cinzento, como uma masmorra da Inquisição.
-Senhor Roberval, posso provar – mas creio que o senhor abrirá mão das provas, confessando ou aceitando a acusação, que seu maior pecado não foi o de não ter atendido à viúva. Ela estava com sua casa hipotecada pelo banco do senhor Roberto e, com a perda recente do marido e ainda com um filho pequeno e doente, não havia como ela pagar a hipoteca. O que ela foi procurar com o senhor foi uma maneira para que a defendesse junto ao banco, procurando parcelar as dívidas até ela começar a receber a pensão do marido. Porém,  o vereador Salgado cobiçava a casa dela, pois era um ponto ideal para ele ali construir um supermercado. Então ele ofereceu dinheiro ao senhor Roberto, o gerente do banco e este, por sua vez, disse que lhe daria uma boa soma, desde que não assumisse a causa da viúva. Além do dinheiro do vereador, ao próprio banco interessava  retomar a casa da senhora, pois seria mais lucrativo.
-Estão certos os fatos que narrei ou preciso mostrar as provas?
-Não...não precisa...sussurrou o até pouco antes presunçoso Roberval.
O milionário continou:
-Meus agentes fizeram um levantamento geral, desde quando o senhor negou seus serviços à viúva, que não quis nada de graça, como o senhor disse, mas apenas pediu um prazo para também pagá-lo. Isso, não fosse a patifaria de vocês contra uma pobre e desamparada mulher, seria de rir só de olhar o adesivo que o senhor tem a petulância de ter em seu carro, onde diz que, sem advogado não se faz justiça!
O milionário parou um pouco, como se estivesse pensando nas próximas palavras, mas seu propósito era de deixar um vazio, um pesado vazio entre os boquiabertos convidados, para dar a estocada final, como numa esgrima espiritual:
-A citada senhora, senhor Roberval, senhor Roberto e sua excelência, vereador Salgado, a citada senhora, com a perda da casa, mudou-se para uma cidade próxima daqui, onde ficou em grande penúria e acabou perdendo seu filho, já que não tinha dinheiro e nenhum hospital ou médico quiseram cuidar do garoto de graça. E eu tenho testemunhas dos fatos narrados por ela, antes do seu suicídio!
Roberval quase caiu sentado com a notícia; Salgado e o gerente do banco não conseguiam fazer as pernas pararem de tremer, mesmo estando sentados e, quanto aos demais, pareciam querer afundar em suas cadeiras, entre perplexos e indignados com os fatos narrados.
O milionário, sem perda de tempo, foi taxativo:
-Por tudo isso, senhores Roberval, Roberto e Salgado, eu os acuso perante os presentes, de vis criminosos. Este é o pecado de vocês e a sentença é que vocês levarão pelo resto de suas indígnas vidas o sangue desta senhora e de seu filho sobre suas cabeças. 
-Neste momento, tirando um pouco os presentes de sua perplexidade, um homem de grande estatura, de forte constituição física, trazendo uma arma pendurada rente à coxa direita, entrou no salão.
O velhote então ordenou:
-Acompanhe os senhores Roberval, Salgado e Roberto até à rua. Eles já podem ir. – E dirigindo-se aos três homens que saiam cabisbaixos:
-Eu provei o terrível pecado de vocês e a sentença que proferi, não é minha, mas será sempre de suas próprias consciências, se as tiverem. Mas o Grande Juiz é quem os poderá condenar definitivamente ou absolver. Que Ele tenha piedade de suas almas!
-Os três deixaram a sala e a mansão, acompanhados do corpulento segurança e os doze restantes, se tivessem o poder, certamente se evaporariam, tal era o medo que já se apossara de todos. Nem era bem medo, era terror mesmo em ter seus pecados, já que a essa altura, todos aceitaram intimamente que os tinham aos montes, revelados publicamente.
Após um silêncio constrangedor de todos à rebuscar a memória pelos seus pecados, o milionário recomeçou:
-Senhores e senhoras, creio que já podemos dar continuidade ao nosso pequeno julgamento...Gostaria agora que a senhora Clarice nos contasse algum grande pecado seu.
-A beata empertigou-se ao levantar-se, e dirigiu-se ao meio da sala, surpreendendo a todos com sua presumida segurança.
-Se eu tenho algum pecado, é o de ter faltado um dia à missa e menti depois ao padre, dizendo que estava doente – Clarice abaixou os olhos e colocou os braços para trás, mostrando-se meio envergonhada por confessar-se assim, justo ela que era a mulher mais respeitada da paróquia de Fariséia. E depois concluiu, erguendo um pouco a voz, como justificativa do seu erro: - Sabe, ia passar o último capítulo da novela que eu vinha acompanhando, e eu não queria perder...
Os onze demais convidados poderiam rir daquela confissão tão infantil, mas ainda estavam assustados demais para demonstrações de humor. Mas o velho milionário, pela segunda vez naquela noite, soltou uma sonora gargalhada.
-Antes fosse isso, dona Clarice...antes fosse. Mas só para refrescar sua memória, havia em Fariséia um mendigo, pelo qual a senhora nutria verdadeiro ódio. A senhora, tão pura, detestava ver o mendigo justamente nas escadarias da igreja, a pedir esmola. Então a senhora, que é amante do soldado Fagundes, mandou que esse prendesse o mendigo e lhe aplicasse uma surra e, no dia seguinte, deveria expulsá-lo da cidade...
-Ela mandou, mas eu não fiz isso! – Gritou o soldado Fagundes, erguendo-se colérico.
-Cala a boca, seu covarde! – Gritou a beata, que do jeito gentil de cristã já não tinha mais nada. De rosto avermelhado, ela fitou o soldado com ira. – Ele não tem nenhuma prova disso. – E virando-se para o local onde parecia vir a voz do milionário, disse, de dedo em riste: - O senhor está levantando falso testemunho...está inventando coisas a meu respeito. Isso também é pecado!
-Certamente que é, minha cara senhora mas, como já disse, eu os cometi todos. Porém, mesmo assim, não é um testemunho ou melhor adequando a palavra, não é uma falsa acusação. Temos fotos e filmes de vários encontros seus com o soldado Fagundes, meus agentes descobriram várias pessoas que gravaram, sem saber, depoimento falando sobre a senhora e o ódio que não escondia do mendigo e, na cadeia pública, um dos presos, que fingia dormir, assistiu ao castigo imposto pelo soldado Fagundes ao homem. Além disso, temos o registro do Pronto-socorro para onde Fagundes levou o pobre mendigo, alegando que o havia encontrado naquele estado e que julgava que ele tivesse sido atropelado.
Como ninguém àquela altura nem respirasse, somente se ouvindo os gemidos lacrimosos da beata, o milionário resolveu também concluir logo o julgamento:
-Como vê, sr. Fagundes, o senhor excedeu na surra e acabou matando o indigente e, como disse, temos todas as provas sobre você e a senhora Clarice. Portanto, condeno ambos a viver daqui para diante sob a acusação de assassinos, também, já que dona Clarice, por tê-lo mandado surrar o homem, e depois, sabendo da morte do mesmo, calou-se a respeito, pois indiretamente fora a mentora do crime.
Clarice, numa crise de nervos, caiu desmaiada. Ninguém se preocupou em ir socorrê-la. Nem mesmo o soldado. E, como da primeira vez, novamente o homem corpulento, que certamente era chamado por rádio-comunicador pelo milionário, adentrou à sala. A ordem, como antes, era para que ele acompanhasse a beata e o soldado até a calçada, do lado de fora do terreno da mansão, e lá os deixasse. 
A mulher voltou à si quando o brutamontes a puxou do chão violentamente e, chorando e capengando, ela deixou o salão junto com Fagundes.
-Muito bem, continuemos então. Gostaria, já que o senhor prefeito confessou seu “pecadinho” de vingança contra os habitantes de um bairro da cidade, que o senhor nos explicasse isso melhor.
Fernando Silva, levantando-se, ajeitou a gravata ao redor do gordo pescoço e foi para o meio da sala. Com certeza, ia pensando, ele iria se safar, pois o velho parecia ter engolido a história da vingança eleitoral.
-Bem, meu senhor e distintos companheiros – Começou, como se fosse fazer um discurso político, dirigindo-se ao invisível milionário e aos nove restantes convidados. – Realmente eu cometi aquele desatino e cortei a água do bairro, só para me vingar daqueles que não haviam votado em meu candidato. É só isso, e reconheço meu pecado. – Concluiu, abaixando a cabeça, como se arrependido.
-Então é somente isso, senhor prefeito? Pelos relatórios em minhas mãos, enviados pelos meus agentes, primeiro, não foi uma vingançazinha, como o senhor quer fazer parecer, pois o senhor, abusando do seu poder, poder este que o próprio povo de Fariséia lhe conferiu, cortou o abastecimento de água de um dos bairros da cidade, por um mês, e antes das eleições! E nem ao menos caminhões-pipa para amenizar o problema criado pelo senhor, foram socorrer aquela gente.
Agora sim, o prefeito sentiu realmente a vergonha atingí-lo do alto da cabeça já meio calva, às pontas dos reluzentes sapatos. O milionário continuou, ante o silêncio quase tétrico que havia se apossado de todos ali.
-Não preciso dizer aqui que a água é um presente sagrado e vital, que Deus coloca gratuitamente para todo o ser humano sobre a face da Terra, mas que vocês, políticos e empresas de energia elétrica se apoderaram desse presente para ganhar dinheiro com ele, sujeitando o povo nas cidades a pagar por algo que Deus nada cobrou. Este, ao meu ver, já é um grande pecado, já que vocês segam aonde não plantaram. Mas, como são os políticos e as empresas de energia elétrica que fazem isso, posso considerar como um pecado coletivo, e que, por isso, não entrará em julgamento aqui.
Mas eu pergunto ao senhor e a todos os demais presentes: vocês já se imaginaram vivendo 30 dias sem uma gota de água, nem para beber e nem para tomar banho ou outras necessidades?
-Ninguém respondeu, tão absortos estavam no desenrolar dos fatos ali escancarados pelo milionário.
Ele continuou, perdendo o tom de voz suave, embora irônico, e impondo um tom de voz mais áspero, talvez pela sua indignação com a maldade do homem.
-É algo que nem se pode imaginar, mas esse homem aí, que deveria ser o mais honrado da cidade, devido ao seu cargo, fez isso! E o fez premeditadamente. E a troco de quê, já que o deputado que o senhor defendeu na época, foi eleito? E teve, segundo consulta nossa ao Tribunal Eleitoral, uma enorme votação em Fariséia. Mas eu vou dizer, embora o senhor já saiba, mas alguns convidados, não, a troco de quê você fez tal injustiça. A troco do maldito dinheiro, senhor prefeito, dinheiro esse lhe oferecido pelo deputado Alcebíades, que além do dinheiro, prometeu várias benfeitorias para sua fazenda, e com esse amaldiçoado dinheiro, o deputado também comprou o silêncio do senhor João Paulo, da emissora de tevê local, para que ele não os delatasse!
O senhor conseguiu seu dinheiro, teve sua fazenda recebendo várias melhorias e o senhor João Paulo, além do dinheiro, ganhou mais uma concessão do governo, através do deputado Alcebíades, para aumentar seu império da mídia.
Mas eu não os condeno por isso e tampouco pelo corte de água, que, segundo o senhor, foi uma vingança. Não. Não foi uma vingança e sim um plano diabólico concebido pelo senhor e pelo deputado, com a anuência do silêncio do senhor João Paulo, que tinha o sagrado dever de denunciá-los. Então eu os condeno porque vocês fizeram o corte de água para o usarem depois como ameaça a todos os eleitores da cidade, dizendo-lhes, indiretamente, que o mesmo iria acontecer por toda a cidade, se o deputado não fosse eleito. Eu condeno vocês três pelos pecados da maldade, da ambição e, principalmente, da falta de misericórdia para com o povo!
Pela terceira vez o segurança entrou na sala e, sem mostrar nenhuma emoção, tão frio como um bloco de gelo, praticamente empurrou o prefeito, o deputado e o dono da emissora para fora do salão. Os três seguiam o mesmo caminho dos outros cinco.
-Eu creio que os próprios habitantes da cidade, a partir de agora, darão aos três a devida sentença.
Alcebíades, voltando-se repentinamente, disse que aquilo não ia ficar assim, que ia querer ver as provas e que tinha imunidade parlamentar.
-As provas, caro deputado, já estão nas mãos do presidente da Assembléia Legislativa, do presidente do Tribunal Eleitoral e espalhadas por toda a imprensa séria desse Estado, apesar de ser pouco hoje as que denunciam os fatos...Mas, felizmente, ainda existem. E, quanto à sua imunidade, ela poderá servir diante da lei dos homens, mas de nada lhe adiantará diante da Justiça de Deus! 
Com um safanão, o segurança praticamente jogou o deputado pela porta. Esta se fechou e o silêncio sepulcral voltou ao salão. O milionário também havia se quedado quieto e nenhum dos sete convidados restantes ousavam sequer olhar um para o outro, tal era o fantasma do medo de seus pecados que os assombrava cada vez mais. 
-Caros convidados restantes... – Ecoou repetinamente a voz do milionário. – Já são quase 3 horas da madrugada e vocês, creio eu, devem estar com fome. Meu mordomo irá lhes servir um café, e depois continuaremos.
Mal ele havia acabado de falar, o taciturno mordomo irrompeu na sala, empurrando um carrinho cheio de tantas e apetitosas delícias, que Benedito, esquecendo-se dos medos anteriores, quedou-se a pensar que, se o velho chamava aquilo de café, como não seria algo que ele chamasse de banquete?
Salgados e doces, frutas e sucos de todos os tipos imagináveis e inimagináveis, foram silenciosamente dispostos sobre a mesa, pelo eficiente empregado. Alguns dos 7 convidados que restaram, mesmo ainda com o cérebro dando voltas em busca de pecados inconfessáveis, e portanto, sem muito apetite, sentiram que este voltava com a visão do abastado coffee brake. 
Cerca de uns quinze minutos depois, a voz  (agora assustadora) do milionário, se fez ouvir novamente:
-Caros convidados, se já estão devidamente alimentados, creio que podemos recomeçar nosso julgamento de pecados cometidos e esquecidos ou, quem sabe, simplesmente escondidos.
O mordomo passou retirando pratos, talheres, copos e restos de comida de sobre a mesa, mas os convidados nem o perceberam, já que a tensão voltara. Apesar de energizados pelo alimento, o espírito de cada um estava tão cansado como se tivesse acabado de cruzar o Saara.
Gostaria de falar agora, em sequência, com o senhor Igor e após, com o dom Giuzeppe e o pastor Clemildo.
Igor não se assustou tanto, pois já esperava que a qualquer momento o milionário falasse seu nome, mas o bispo – e  também o pastor Clemildo, acreditavam piamente que não seriam chamados e que seriam os últimos dos convidados e, claro, um dos dois esperava ansiosamente ser o ganhador da fortuna do milionário. Porém, deduziram, se eram chamados antes de Luiz, José Margarida e Benedito, certamente o milionário deveria ter alguma acusação grave contra eles e os mesmos também seriam enxotados para a rua, como seus antecessores. Tal pensamento chegou a causar desconforto gástrico no gordo religioso e tremedeiras no magricela pastor.
-Senhor Igor, o senhor, anos atrás, realizou várias pesquisas na região do Amazonas, através do custeio da Secretaria de Ciências e Pesquisas...certo?
-Sim, senhor.
-O senhor se lembra se nesse trabalho, ou mesmo em outro, dentro da sua área, tenha praticado algum pecado, por mínimo que seja?
-Não senhor. – O cientista, do alto de sua cultura e sabedoria armazenadas ao longo de anos de estudos, mantinha uma postura ereta, nem desafiadora e nem de humildade. Em sua mente, prodigiosa em relação aos homens comuns, ele estava acima daquela “palhaçada”, havia pensado e talvez, dado à sua contribuição às ciências, fosse verdadeiramente o único dígno de herdar a fortuna do seu interlocutor. Mas estava enganado...
-Tenho em mãos um relatório mostrando que o senhor, no trabalho no Amazonas, procurava criar, através da vasta flora da região, uma espécie de polivacina, que combateria centenas de doenças viróticas. Está de acordo?
-Completamente, e o relatório que o senhor tem aí, não é novidade, pois foi o mesmo que eu enviei, após concluir as pesquisas, para a Secretária de Ciências.
-É...eu o sei. E o senhor conseguiu criar a tal vacina de múltiplas funções?
-Infelizmente, não. O governo cortou a verba e eu tive que desistir.
-Ah, mas isso foi um pecado! – Ironizou o milionário.
O cientista não ligou para a ironia, apenas respondendo formalmente:
-Do ponto de vista científico, creio que poderíamos citar o fato como um pecado, sim.
-E do ponto de vista divino, senhor Igor?
-Divino? Pelo que eu saiba, não existe tal ponto de vista!
O milionário sabia que Igor era ateu, e somente a citação da palavra “divina”, fez o homenzinho se encolerizar.
-Pois existe, e eu, pelo que aprendi, sei que é justamente por tal ponto de vista que o senhor está aqui agora. Não fui eu quem o trouxe, e sim, Deus.
-Deus não existe, meu caro senhor, e eu aqui estou em razão do seu convite, e não de uma ordem desse Deus que o senhor citou!
-Eu não vou discutir com o senhor questões tão grandes, que sua pobre mente não pode e jamais poderá alcançar, então, vamos diretamente aos fatos: o senhor mandou um relatório ao governo, e nisso foi sincero, só que, talvez pelas grandes teorias que transitam por seu cérebro, o senhor esqueceu-se de outro relatório, o qual, como o senhor já pode deduzir, veio parar em minhas mãos através dos meus agentes...e, creio eu, com a ajuda de Deus, em quem o senhor não acredita.
O cientista sentiu um leve tremor, dividido agora entre a ira e o medo, mas nada disse. O milionário continuou:
-Realmente o governo cortou sua verba, mas não pela sua demora em criar a tal vacina, e sim, porque foi descoberto, mas não provado, que o senhor vendeu valiosas informações a laboratórios estrangeiros e também  pela denúncia, não comprovada, de que o senhor estava usando pobres índios de uma tribo da região, como cobaias, para suas experiências.
-Não nego as acusações, mas, como o senhor mesmo acaba de dizer, nada foi comprovado! – Retrucou Igor, agora com um meio sorriso maldoso em seus finos lábios.
-Correto, senhor Igor. Mas eu comprovei que você engordou sua conta em bancos no Exterior e, já que sua experiência com a vacina não estava dando certo mesmo, o senhor pouco se importou com o corte de verbas. O senhor simplesmente abandonou as pesquisas, deixou para trás os mosquitos da selva e veio viver uma vida regalada, talvez esperando cair alguma grande idéia em seu colo, para iniciar outra pesquisa. Enquanto isso, para encobertar seu insucesso como cientista, o senhor usa a desculpa do corte de verba.
O cientista também nada respondeu desta vez. Irado ao extremo, ele se perguntava que pecado havia em ter largado um experimento que não ia dar certo mesmo e ter saido daquele inferno verde, quente, úmido e cheio de mosquitos, para o conforto da cidade?
-Mas o senhor não deixou para trás somente os mosquitos, caro cientista. Você voltou para a cidade e pouco se incomodou se os índios usados como cobaias por você, a troco de miseráveis presentes, poderiam ter alguma reação em seus organismos, sob o efeito das drogas aplicadas neles. – A voz do milionário, até agora calma, ganhou a altura da ira incontida, e atravessou a parede quase que num grito de raiva:
-Não eu, miserável, mas Deus, esse Deus no qual você não acredita, já o condenou. Não pela sua traição à Pátria, não pelas suas mentiras, não por você ser um ateu arrogante e idiota, mas pela sua crueldade, pela sua completa insensibilidade para seres humanos como você. Sei que nunca deve ter se preocupado com isso, mas da centena de inocentes silvícolas usados por você em sua insanidade, vinte morreram envenenados pelas suas drogas e outro tanto ficou para sempre incapacitado física e mentalmente.  Por isso, nosso tribunal humano, aqui nesta sala, o condena por genocídio. Quanto à sentença de Deus, certamente ela virá depois, neste ou noutro mundo, mas certamente virá!
Novamente o segurança e novamente mais baixa no já reduzido número de convidados.
O milionário parou um pouco, talvez descansando e recuperando suas já poucas energias para continuar, mas daí a uns cinco minutos, retomou o julgamento, desta vez dirigindo-se ao bispo.
Sua voz já havia retornado ao tom calmo, e foi assim que ele dirigiu-se ao religioso...
-Dom Giuzeppe, a madrugada já irrompeu e eu ainda tenho cinco convidados restantes. Portanto, vamos diretamente aos fatos, já que o senhor, deduzo, não usará de mentiras e nem irá querer contestar minhas palavras a seguir, já que os fatos são verdadeiros e de conhecimento de quase todo mundo.
-O bispo ficou calado, em pé no meio da sala, mãos às costas. O homem continuou:
-Sua igreja foi causadora de vários genocídios, desde o  poder  a ela outorgada por Constantino, até à época das Cruzadas e da terrível e diabólica Inquisição. E depois ainda, não sendo a responsável direta, mas se omitindo diante da crueldade cometida pela Espanha e outros países e depois por Hitler, contra os judeus. Esses, como disse, são fatos conhecidos pela Humanidade e reconhecidos, antes da sua morte, pelo próprio papa João Paulo II.
Então, para não perdermos tempo, devo lhe dizer que tenho comigo vários relatórios de casos de pedofilia cometidos pelos padres nesta região, onde o senhor é o chefe espiritual. O senhor não pode negar, pois temos testemunhos das crianças e de seus pais, da maldade cometida pelos homens que deveriam ser exemplo de moral e santidade. E seu grande pecado, bispo, foi se curvar ante os ditames de sua diocese e, mesmo sabendo da verdade dos fatos, acobertou os criminosos, deixando alguns casos cairem no esquecimento e, quanto aos mais graves, fazendo a transferência dos criminosos para outras paróquias, onde o senhor sabe, eles voltarão a praticar seus sórdidos atos. Eu o condeno, bispo, pelo pecado de fazer uso do Santo Nome de Deus. Nos Mandamentos está escrito: não tomarás Meu Santo Nome em vão e o Filho de Deus disse para amarmos nosso próximo como a nós mesmos. Seus subordinados são pedófilos e pederastas e mais pecadores diante de Deus do que aqueles a quem pregam a Santa Palavra, e o senhor é pior do que eles, pois mostra-se como o sacerdote Eli, sem forças e coragem para fazer justiça. Esses homens vão certamente responder pelos seus atos diante do Altíssimo, mas eles, antes disso, precisavam de ajuda médica e espiritual. E o senhor, nem os pune e nem os ajuda, deixando-os afundar ainda mais na lama do pecado e, o pior, fazendo um mal a inocentes que dificilmente será apagado de suas tenras memórias. Passar bem, senhor bispo, se o puder...
Um novo segurança, menos truculento que o outro, adentrou ao salão, retirando o cabisbaixo religioso para fora da mansão, deixando um tenso e trêmulo Clemildo à espera da espada acusadora que o milionário iria colocar sobre seu pescoço. Mas, pensou, eu sou evangélico e, com certeza não terei acusações tão pesadas quanto às que cairam sobre o bispo. E tal pensamento o tranquilizou um pouco, até ouvir seu nome ser chamado pelo milionário...
-Por favor, pastor Clemildo e senhora Margarida, queiram levantar-se. 
Os dois, olhando receosos um para o outro, se postaram no meio da sala, como os demais acusados já o haviam feito.
-Caro pastor, o senhor conhece os 10 Mandamentos?
-Claro – Respondeu o homem, engolindo em seco, ansioso em saber o que iria cair sobre ele.
-É bem interessante como os cristãos se relacionam com os 10 mandamentos, o senhor não concorda? 
-Não estou entendendo...
-Ora, o primeiro mandamento é que se ame a Deus sobre todas as coisas e que somente a Ele se adore e preste culto.
O segundo, sequência do primeiro, é que não se faça imagens de nada para as adorar ou prestar culto. Posso dizer, após estudar o ser humano – e a mim mesmo, claro, que uma mínima parcela da Humanidade obedece a esses dois  mandamentos. O terceiro mandamento é para não se tomar em vão o Nome de Deus. Também noventa e nove por cento dos seres humanos não o obedece. Agora, vamos pular o quarto mandamento e vamos para o quinto, que é honrar pai e mãe. Infelizmente são poucos os que o fazem...Vamos agora pular o sétimo, pois voltaremos a falar dele e vamos para o sexto, não matarás e o oitavo, não furtarás ou roubarás...O senhor sabe que quanto a esses dois mandamentos, apesar de termos ladrões e assassinos aos montes, muitos deixam de desobedecê-los, não por temor ou amor a Deus, mas por medo da cadeia, já que furto, roubo ou assassinato estão inseridos como crimes no Código Penal.
-Aonde o velho pretendia chegar com todo esse lenga-lenga sobre mandamentos, perguntou-se Clemildo. Ora, ele conhecia os 10 Mandamentos de cor e salteado e não precisa que um pecador recém-arrependido os repetisse a ele, justo a ele, pastor já há anos, com uma congregação de mais de 200 membros fervorosos. Mas, malgrado seus pensamentos, o milionário continuou:
-O nono, não dirás falso testemunho e o décimo, não cobiçarás, creio eu que são os menos obedecidos ainda. Concorda, pastor?
-Concordo, mas, devo explicar ao senhor, que certamente não conhece bem a Bíblia ainda, que após a vinda de Jesus, as leis mosáicas e tudo o mais do que chamamos Velho Testamento, foram abolidas.
-Está aí algo que eu não entendo, realmente. Então é por isso que a maioria das religiões não guarda o sábado, e sim, o domingo? Acho que é por isso então que o quarto mandamento, que manda santificar o sábado, e o qual eu havia pulado, para entrar nesta questão, não é obedecido?
-Perfeitamente. Guardar o sábado, até hoje, é coisa para o judaismo. A igreja primitiva adotou o calendário gregoriano e consequentemente, com a mudança de datas, o dia certo para se guardar para o Senhor, é o domingo.
-Compreendo. Mas o domingo, como o senhor deve saber, era um dia dedicado ao deus sol, pelas religiões politeístas. Então, apesar disso, os cristãos preferem guardar o dia do deus sol e, ainda por cima, seguir uma data imposta por homens, desobedecendo a Palavra de Deus?
-Olha, meu senhor, isso é muito complicado de ser explicado, ainda mais para uma pessoa não religiosa como o senhor, que não conhece bem a Bíblia, como já disse.
-Vou concordar com o senhor por enquanto, mas, mesmo que fosse certo os cristãos  santificarem o domingo, e não o sábado, o que vocês fazem no domingo, além de irem à igreja, fazer um culto ou uma missa de uma hora mais ou menos e depois voltarem para casa? Pelo que pude constatar, ninguém guarda um dia para Deus, realmente. O sábado judaico, como o senhor disse, é guardado do pôr-do-sol da sexta-feira até o pôr-do-sol do próprio sábado, e nesse período, eles não fazem nada, não trabalham, não fazem comida, não vão para a praia e nem ficam tomando cerveja num churrasquinho animado, contando piadas imorais...
O pastor, já um pouco petulante, sentindo o medo de uma acusação grave afastar-se dele, já que, ao que parecia, o homem só queria discutir coisas da Bíblia, sentia-se cada vez mais seguro e já respondia ao velho milionário como um adulto responde a uma criança, sem considerar muito suas colocações. Margarida sim, esta ainda estava tensa ao extremo, pois além de não entender nada que os dois estavam falando, estava aflita para saber qual seria a acusação sobre ela.
Clemildo, sorrindo, retrucou:
-Como já expliquei ao senhor, são coisas do Velho Testamento e que já não têm valia após o sacrifício remidor do Nosso Senhor Jesus Cristo!
-Bem, meu caro pastor, como eu também disse a todos nessa sala, eu não procurei Deus, mas Ele me encontrou e deu a mim a chance de me redimir das minhas maldades, antes que meus pés toquem a última estrada trilhada pelos homens neste mundo. Então, a partir disso, eu procurei ler a Bíblia e lutei com todas as minhas forças restantes, para entender o que Deus nela fala, desde o Gêneses até o Apocalípse. Assim, para encerrarmos esta parte e darmos sequência ao nosso tribunal faz-de-conta, queria colocar algumas perguntas para o senhor: se o Velho Testamento não tem mais importância após o advento de Jesus, porque tem religião que considera o sangue sagrado, não aceitando a transfusão dele, mesmo que isso implique em morte? Pelo que lí, o sangue é considerado sagrado no Velho Testamento. A segunda pergunta é porque o Filho de Deus disse que havia vindo para cumprir as Escrituras, e não para mudá-las? E a terceira e última pergunta é: se o Velho Testamento perdeu sua valia para os cristãos, mesmo que o próprio Jesus  tenha baseado todo seu ensinamento nele, porque o Mestre, quando interrogado por um jovem rico sobre o que deveria fazer para alcançar a vida eterna, respondeu, primeiro, que o jovem deveria seguir os 10 Mandamentos, e somente depois o Senhor disse para o jovem distribuir sua fortuna entre os pobres, e seguí-lo?
Clemildo desta feita não achou nenhuma resposta momentânea e, entre irado e meio perdido, respondeu:
-O senhor me desculpe, mas eu precisaria de um tempo a mais para poder responder tudo isso para o senhor.
-Pois não, pastor. O senhor terá todo o tempo do mundo! – Ironizou – Porém, enquanto esse tempo passa, lembro-me que deixei para trás o sétimo mandamento. O senhor também se lembra?
-Sim...é o que manda que não adulteremos.
-Isso!  E o senhor, como é um homem inteligente, versado nas Escrituras e temente a Deus, como aparenta ser em Fariséia e em sua congregação, deve saber que existem várias formas de adultério. Mesmo numa tradução de um livro, se o tradutor mudar uma letra sequer, ele estará adulterando a obra...- O milionário fez uma pequena pausa, igual a tantas que já havia feito, e depois continuou, com voz já perceptivelmente cansada:
-Mas o adultério, creio, de que fala o mandamento, é referente ao relacionamento promíscuo entre um homem e uma mulher. E Jesus, para dar mais peso ainda ao mandamento do Pai, disse que se um homem olhasse com cobiça para uma mulher, já estaria adulterando, certo?
-Certo. – Concordou o pastor, voltando ao início de sua insegurança, pois parece que o homem conduzia toda a conversa, a qual ele, Clemildo, por instantes pensara conduzir, para um desfecho final e, que pelo que ele já havia assistido naquele local, nada bom para os “acusados”.
-Então, se assim é, porque todas as igrejas ditas cristãs condenam o adultério, proibido por Deus nos 10 Mandamentos, mas  ao mesmo tempo deixam de seguir o quarto mandamento, só para citar um exemplo? Se um executivo dita 10 normas para uma empresa, as 10 normas devem ser seguidas ao pé da letra pelos funcionários. E porque vocês deixam de seguir os 10 Mandamentos ditados pelo Soberano do Universo, o Todo Poderoso? Isso não os torna hipócritas e os coloca ao lado dos mesmos fariseus que crucificaram Jesus?
-O pastor Clemildo desta vez nada respondeu. O milionário continuou, parecendo agora estar com um pouco mais de vigor.
-O senhor mesmo, pastor Clemildo, é um fariseu!
-O quê?! Como se atreve? – Clemildo gritou, furioso com a acusação. Mas a resposta do milionário o fez engolir em seco.
-O  senhor se esqueceu que eu tenho provas, pastor. Tudo que estou falando aqui, é fundamentado em provas, verdadeiras e reais...O senhor, ou a sua dita igreja, nada fizeram até hoje em benefício de ninguém, apesar da grande soma de dinheiro arrecadada entre seus membros. Eu tenho os documentos de suas contas em bancos e também de vários imóveis pertencentes aos senhor, já que não estão em nome da igreja. Também tenho provas de que o senhor é casado, de que abandonou há cerca de 12 anos sua esposa e filhos no Recife, aonde o senhor morava e já há alguns anos o senhor mantém um caso amoroso com a senhora Margarida, aqui presente.
Clemildo empalideceu tanto, que os outros três convidados pensaram que ele iria desmaiar. Já Margarida, de grande colunista social, mulher que vivia entre a mais alta classe social de Fariséia, sentiu-se como um grão de feijão pequeno e estragado, ali no meio do imenso salão da mansão.
E quanto à senhora, dona Margarida, é condenada por sua maldade, orgulho e hipocrisia, pois a senhora era casada com um bom homem, só que simples e sem grandes ambições, como a senhora. A senhora praticou o chamado assédio moral com seu próprio marido, levando-o a um estado tão lastimável, que mais ou menos um ano depois que a senhora o abandonou, ele, desgostoso, morreu. Como ele já não morava em Fariséia, a senhora calou-se sobre seu falecimento e continuou em busca do brilho da sociedade hipócrita, que mais se preocupa em ter do que ser, permeando uma vivência fútil e, consequentemente, inútil.
Desta mansão vocês somente serão expulsos e, lá fora, estão condenados a viver com sua própria consciência. O castigo virá, menos dia, mais dia, talvez não pelos homens, mas através da Palavra de Deus, que é eterna e não muda, seja no Velho ou no Novo Testamento. Concorda, pastor?
A ironia da pergunta final, deu o tempo certo para o segurança entrar e sair rapidamente com o casal.
Após um silêncio assustador para os três últimos convidados, que se degladiavam cada um com seus próprios pensamentos em ser o próximo a sofrer uma acusação horrível ou em ser o felizardo a herdar a fortuna do milionário, a voz do velho irrompeu na sala.
-Ah, como estou cansado!
A voz já um pouco rouca e fraca, mostrava realmente o desgaste do velho milionário. Era a primeira vez que ele se expressava de maneira tão informal, mas que no entanto demonstrava que ele, apesar da fortuna, era um ser humano como os três que estavam na sala. José e Benedito chegaram a sentir uma ponta de pena dele. Mas Benedito, logo trocou os pensamentos misericordiosos por tais como: foi ele que armou toda essa palhaçada...então, que agora aguente!
Mais uma pausa de descanso e mais uma vez o temido chamado. Desta feita ele chamou Luiz, o presidente do clube filantrópico e José, funcionário de uma das centenas de empresas dele.
Luiz tremeu nas bases, sentindo as pernas moles, mas José, sem que em todo o desenrolar do julgamento, tivesse achado algum pecado terrível sobre sua cabeça, não se perturbou muito, a não ser pelo fato de que, se ele e Luiz iam ser “julgados” agora, restava apenas o Benedito ali, o que, estava claro, conforme o já explicado antes da longa noite, que ele, o Benedito era o menos pecador de todos e, consequentemente, iria herdar toda a fortuna do velho!
Benedito, que de bobo não tinha nada, já estava quase arrancando o bigode do rosto, de tanto esfregar a mão nele enquanto contabilizava a situação justamente como José havia feito. Chegando à conclusão lógica, ele desceu a mão do bigode para a boca, para esconder o riso que teimava em aflorar e ainda a vontade de gritar: - Ganhei! Sou o menos pecador! Estou rico! Estou milionário! Estou...estou... – Com os retumbantes pensamentos dando voltas em seu cérebro, Benedito a custo se conteve de dar os gritos, de saltar sobre a mesa e sair dançando. Enquanto parecia que ia explodir por dentro, de custosa contida euforia, por fora ele procurou ficar o mais sério possível, para acompanhar o desenrolar dos fatos.
-Senhor Luiz, há quanto tempo! Como está o clube, após o incêndio? Acho que há uns 8 anos, se não me falha a memória...
-Olá, senhor Nezlinger...foi precisamente há 7 anos esse acontecimento lastimável.
José sabia o nome  do milionário, claro, embora sempre tivesse dificuldade em pronunciá-lo. Já Benedito, que nem mesmo saberia escrever tal nome, achou interessante, pois era a primeira vez que o nome do velho era citado naquela noite. 
-É verdade...7 anos...e, se bem me lembro, nessa época eu havia feito uma boa doação ao seu clube, certo, senhor Luiz?
-Certíssimo, senhor. Um pouco antes do incêndio, o senhor havia doado R$200 mil reais ao clube.
-E a troco disso, eu pedi que senhor direcionasse aquela quantia para a compra de agasalhos e remédios para as crianças e velhos desamparados, como também para alimento delas. O senhor se lembra?
-Claro. E o que o senhor pediu, foi feito.
-Muito bem. Pena que o incêndio daquela noite, há 7 anos, como o senhor recorda, destruiu boa parte do clube e praticamente toda a sala do escritório e arquivos.
-É, foi uma pena, mas, graças a Deus, o povo de Fariséia se uniu e ajudou a restaurar o clube, que voltou a funcionar normalmente, como o senhor sabe.
-Sim, sei, como também sei de toda a contabilidade do clube, antes e depois do incêndio...
Luiz, se tivesse um espelho à frente, veria que em segundos, após a observação do milionário,  mudou de cor e semblante umas três vezes, ao menos. Primeiro, o branco e a cara de espanto, passando depois para um semi-amarelado de dúvida para chegar ao roxo do desespero aliado à raiva de saber, naquele crucial momento, que o milionário sabia mais do que ele, Luiz, poderia imaginar. Afinal, na época, lhe pareceu o golpe perfeito ter provocado ele mesmo um curto-circuito nas instalações da sede do clube à noite, tomando o cuidado de que  os livros de contabilidade, principalmente eles, fossem queimados! Como o maldito velho descobrira isso?, perguntou-se.
-Então, senhor Luiz, como o senhor disse à pouco, o senhor aplicou parte da verba que doei, realmente para ajudar os infelizes. Mas essa parte foi apenas de R$20 mil reais, justamente o que o senhor lançou no livro da contabilidade do clube, enfiando em seu próprio bolso, deduzo eu, os R$180 mil restantes...E, com o livro-caixa queimado, sabendo que nenhuma investigação seria feita, dado à sua presumida idoneidade moral, o senhor achou que jamais ninguém descobriria seu covarde roubo. Mas o senhor não roubou de mim, senhor Luiz, e sim dos velhinhos e, principalmente de crianças pobres, as quais, o senhor desconhece, têm um temível Protetor.
-Luiz agora, com sua idealizada honra fragmentada em cacos invisíveis espalhados pelo piso do salão, parecia se colorir do verde dos vermes.
-Talvez sim, talvez não, você se pergunte como eu descobri isso, e aqui entra meu amigo José, aí ao seu lado. Ele era tesoureiro do clube na ocasião e, não sei porque cargas d’água, mas o credito à sua honestidade e eficiência, ele tinha a mania de fazer cópias de todos os lançamentos feitos no livro-caixa. E tais cópias, claro, ele as guardava em sua casa.
José, levado de susto ao ouvir seu nome citado repetinamente, ouviu perplexo o homem falar da mania que somente ele, José, sua esposa e mais uma pessoa, sabiam. Mas, diante de tudo que já havia ocorrido naquela noite, José não duvidava de mais nada, mesmo se o milionário falasse agora que existiam discos-voadores.
-Graças a Deus, que deu ao meu bom José o caráter para honrar o nome, que é o mesmo do grande José do Egito, homem de Deus, e que toda a vida agiu dignamente. E agora até mesmo meu amigo José deve estar se perguntando como sei disso também... – O milionário fez uma pausa, enquanto olhava de seu lugar um até então orgulhoso Luiz parecer se desmontar como um robô enferrujado. Mas não se deve ter misercórdia de pessoas vis, corruptas, maldosas e inescrupulosas. E assim, o velho continuou, não escondendo sua admiração pelo funcionário José.
-Desse procedimento de José, de fazer cópias de documentos contábeis do clube e os guardar consigo, só sua esposa sabia e uma pessoa em quem José confia e que, por esses mistérios que só Deus sabe, é seu chefe em uma das minhas empresas.
-Esse meu executivo sabia da minha doação de R$200 mil reais e havia comentado sobre ela com José, justamente após o incêndio. José, que jamais havia visto o lançamento de tal quantia, pegou as cópias para conferir e numa delas, onde deveria constar a verdadeira soma, estavam lançados apenas R$20 mil reais...Foi quando o chefe de José pediu a cópia a ele e a trouxe até mim.
O milionário deu uma boa risada. Não uma gargalhada, mas uma risada feliz, comentando:
-Deus age de maneira maravilhosa!
Enquanto Luiz era retirado pelo segurança, um embasbacado José permaneceu no meio da sala, enquanto Benedito, sem entender menos ainda, parecia ter uma pulga atrás da orelha, se perguntando porque José entrara no julgamento do homem, já que, ao que vira e ouvira a pouco, José estava mais para herói do que para pecador. E se José não era um vil pecador, o que seria dele, Benedito? Se não fosse condenado teria que dividir a fortuna com o José? Ele pegou o copo d’água e o sorveu de vez, enquanto mentalmente confuso, xingava todos os palavrões que havia aprendido em seus miseráveis 45 anos de vida.
-Meu bom José – Voltou o milionário – a que religião você pertence?
-Eu....
-Bom, isso não importa – interrompeu o velho – Não importa ao homem seguir essa ou aquela religião, e sim, obedecer a Deus, como Jesus diz: “Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Estes são dos dois maiores mandamentos”. Estas palavras benditas estão na Bíblia, José. Não sei se você já a leu alguma vez, mas aconselho que o faça, sempre. Eu aprendi muito, lendo a Bíblia.
José estava tão feliz com o tratamento carinhoso que seu poderoso patrão estava lhe dando, como também rememorava rapidamente que, graças a ele, foi desmascarada a falcatrua do presidente do clube, que havia roubado dinheiro que era para os necessitados, que se quedava embevecido, prestando a máxima atenção às palavras do milionário, e até tinha se esquecido porque estava ali.
-Então, José, pelo concebido por mim, conforme você assistiu nesta noite, seria você  a pessoa escolhida para herdar todos os meus bens. E isso muito me contentaria. Mas, antes de chegar ao ponto em questão, quero lhe dizer algo: a riqueza, meu caro José,  não corrompe o homem fisicamente, mas o corrompe espiritualmente, corrompe sua própria alma, como fez comigo. E eu não quero que você perca sua honra e sua dignidade. Por isso, conforme de antemão eu já havia decidido, vou passar para o seu nome uma das minhas construtoras de imóveis. Como você sonhava, e chegou a falar com seu amigo, a quem entregou a cópia do livro-caixa, vou realizar seu sonho. A partir de agora você não trabalha mais para mim, e sim, para você mesmo. Você é agora um empresário e eu espero e desejo, sinceramente, que você aplique sua honra e dignidade na direção da empresa que agora lhe pertence. 
José, até meio tonto de felicidade, parecia não acreditar em tudo que estava ouvindo. Mas era real. Ele não estava sonhando...
-A honra e a lealdade não têm preço, meu caro José, e peço que você olhe seus funcionários a partir desse prisma. Descarte-se logo dos que não querem colaborar para o crescimento da empresa, e nem para o deles próprio, mas mantenha sempre junto a si os leais e que querem crescer junto com você. Tais homens são imprescindíveis. Outra coisa que peço a você, é sobre algo que também aprendi na Bíblia: foi iniciado por Abraão e depois sacramentado por seu neto, Jacó, e vem de Deus tal coisa: a Deus pertence tudo, e a Ele sempre se deve dar primeiro, não porque o Senhor precise de algo, mas por honra e temor ao Todo Poderoso. Ao final do mês, quando fizer a contabilidade da empresa, primeiro você deve separar 10 por cento do faturamento, os quais você deverá distribuir entre igrejas, hospitais, asilos, orfanatos ou em qualquer outro local, onde se pratique a caridade e haja necessitados. Fazendo isso, Deus abençoará sua empresa e você só terá vitórias em seu caminho. Você compreendeu, José?
-Sim, senhor.
-Muito bem. 
O segurança entrou no salão, mas ao invés de carregar José para fora, como havia sido feito com os outros, ficou aguardando as ordens do milionário, que foram rápidas e precisas:
-Acompanhe o senhor José e mande um carro levá-lo até sua residência!
Quanta diferença agora. Dos 14 convidados, apenas José saia dali feliz, de cabeça erguida, com honra. Com o sorriso da paz, ele deixou o salão como se estivesse andando sobre nuvens, bem diferente dos outros, que dali sairam se arrastando como serpentes peçonhentas...
Faltava ele. Sim, faltava Benedito, o último e, consequentemente, o grande e felizardo herdeiro da fortuna do velho. Benedito sentia o peito explodir, se intercalando em seu espírito vontade de rir, de chorar, de gritar. Ele estava rico! E, sem conseguir mais se conter, ele levantou-se e ensaiou uns passos de valsa no salão, arrancando a terceira gargalhada do milionário.
-Feliz, senhor Benedito?
-E como não? E como não? Eu sou o último e, se o senhor não estava brincando, sou eu o herdeiro da sua fortuna! Foi o que o senhor prometeu!
-E é verdade, senhor Benedito. O senhor é meu herdeiro, assim como prometi.
Benedito, nesta hora, passou da valsa para o samba, tendo até vontade de dar cambalhotas pelo salão. O velho, de onde estava, se divertia. Deu o tempo que achou necessário para toda aquela evasão eufórica do homem, e então interpelou:
-Então, senhor Benedito, vamos ao seu julgamento e, após, vamos tratar de assuntos pertinentes à herança.
Benedito, recompondo-se, perguntou, surpreso:
-Ué, mas se eu ganhei, porque tenho que passar pelo julgamento?
-Porque todos passaram, e seria injusto o senhor não o fazer também, concorda?
Benedito deu de ombros, em sinal de concordância. Afinal, se a fortuna já era dele, um julgamentozinho em nada iria mudar as coisas, mesmo que o milionário dissesse que ele fosse o culpado pela guerra do Vietnam.
-O que o senhor achou de tudo? – Perguntou o milionário, de supetão.
-Ah! Fora o Zé, o resto se fudeu, se me perdoa a palavra...
-Ora, uma expressão boçal dessa não fica bem na boca de um  agora milionário.
Para confessar ao senhor, eu tenho mais é pena deles. O que fiz foi somente mostrar a eles que aqui, na Terra, não tem ninguém perfeito ou justo. O que eu fiz foi fazê-los ter uma tomada de consciência e ficarem mais humildes, pois o orgulho a nada leva, a não ser destruir a própria pessoa. Esse pessoal que o senhor viu, senhor Benedito, com exceção do José, são apenas pobres almas perdidas na sua maldade e na ilusão de prazeres mundanos.
O velho deu uma profunda e sentida respirada, e continuou:
-E quanto ao senhor, lá, bem no âmago da sua consciência, não há nada que o acuse?
-Mas que velho mais chato! E ainda fica usando essas palavras difíceis que eu não conheço. Saco! - Praguejou Benedito, em pensamento – Mas com a grana do coroa agora, posso falar errado à vontade, posso arrotar em banquete, posso meter o dedo dentro do nariz num teatro, que ninguém vai me encher o saco. Afinal, quem tem dinheiro, é respeitado. Posso até andar de cuecas pela rua, que vão apenas me chamar de milionário exótico...Ah, mas se um pobre faz isso, coitado, é preso na mesma hora por atentado ao pudor.
Como dinheiro é bom! Você pode fazer o que quiser e andar do jeito que quiser, que todos aplaudem. A bem da verdade, o coroa tem razão, esse povinho é bem hipócrita mesmo! Aparência, para eles é tudo. Não importa o que a gente tem por dentro, e sim estar bem vestido. Isso é que importa, para esses fariseus. E, se você tem dinheiro, ai sim, o dinheiro é o mais importante. Ai você pode falar como quiser, andar como quiser e fazer o que der na telha. E é o que eu vou fazer agora, e garanto que a partir da hora que tiver abonado, ninguém vai me chamar mais de Dito...Vai ser, senhor Benedito!
Enquanto Benedito filosofava em sua simplicidade, o velho, por sua vez (e para desgosto do homem), também começou.
-Nós não sabemos de onde viemos e nem para onde vamos, senhor Benedito, mas descobri também, que nem ao menos sabemos por que estamos aqui. 
O velho queria mesmo filosofar, ao que parece, e Benedito, mesmo cansado, com fome e com sono, resolveu escutar, pois afinal, ele ainda não havia transferido a fortuna para ele, e ele não seria bobo de correr o risco de irritar o velho. Ele poderia mudar de idéia e aí era ele quem ia se fu...quem ia se sair mal, corrigiu o pensamento.
-Mas, estudando a Bíblia e o ser humano, - Continuou o velho - descobri em seguida, que realmente não faz sentido nossa vida sobra a face da Terra, a não por um propósito: adorar a Deus, que fez todo o Universo e a nós também, e o que o Senhor pede, é apenas que O obedeçamos, louvemos e adoremos, como o Grande Pai que Ele é. Nada mais. O resto seria desfrutar das belezas que ele colocou na Terra, como os rios, mares, montanhas, florestas e tudo o mais. Mas o homem, movido pela ambição, deixa o Criador de lado e trilha seu próprio caminho de agonia. Ele quer tudo para si e corre em busca de poder, sem mesmo atinar aonde vai chegar e, principalmente, que ele veio sem nada para este mundo e vai deixá-lo apenas com a roupa do corpo.
Então parou com suas divagações e, olhando Benedito, disse:
-Bem, creio que o senhor não está entendendo muito do que estou falando...vamos então ao seu julgamento. O senhor já encontrou alguma coisa grave que cometeu, de que se lembre?
Como Benedito sabia que da égua do sítio era impossível o homem saber, respondeu, seguro.
-Não.
-Então vou refrescar sua memória...o senhor casou-se jovem e pouco depois se separou. Já fazem 25 anos que o senhor está separado, não é mesmo?
-Acho que sim. Nunca fiz as contas.
-Mas eu fiz para o senhor. O senhor casou-se, mas não quis ter filhos. Sete anos depois de separado, o senhor voltou para sua esposa e ela então teve um filho do senhor, o qual está hoje com 18 anos de idade...pelo menos isso o senhor deve saber
-Sei, sei – Respondeu Benedito, um pouco irritado.
Assim que a criança nasceu, o senhor separou-se novamente, desta vez, em definitivo, e vive, de lá para cá, fazendo alguns trabalhos aqui e acolá e o dinheiro que ganha, o senhor gasta tudo em roupas, jogos e bebedeiras com mulheres fúteis, sendo frequentador usual de salões de dança e, quando não está trabalhando, dançando, bebendo ou dormindo, o senhor dedica-se ao seu esporte predileto, que é a pescaria. É isso?
-É! – De novo uma resposta mal-humorada, já que o velho parecia ter o condão de fazer as pessoas lembrarem justamente do que elas queriam esquecer.
-Que vida inútil, não senhor Benedito?
-Eu não acho.
-Pois eu acho, e tem mais: nesses 25 anos de separação, mesmo com o nascimento do seu filho, o senhor jamais ajudou sua ex-mulher e nem mesmo pagou-lhe a devida pensão. Ela, uma mulher dígna e lutadora, sobreviveu às suas próprias custas e criou e educou até agora o filho sozinha! E em nenhuma ocasião, segundo nosso levantamento entre testemunhas que os conhece e no Fórum, essa mulher o acusou por não pagar a pensão, que lhe era de direito.
    Nenhum som saiu agora da boca de Benedito. O que o homem dissera era para envergonhar qualquer um, mas não a ele. Para ele, o importante era viver livre e feliz, sem preocupações e sem compromissos com mulher e filhos...Isso era coisa de gente besta.
-E o senhor ainda se acha feliz!...
-Cacete! – Pensou o aparentemente novo rico -  Parecia que o velho lia seus pensamentos!
-Me acho, sim!... 
-E agora, milionário, mais ainda! – Completou o velho.
Benedito  abriu um largo sorriso.
-Mas é claro, sô!
-O velho deu mais uma de suas profundas respiradas, e resolveu dar fim ao diálogo que o estava irritando.
-Está certo, senhor Benedito. Apesar de eu o considerar um canalha, perto dos outros que foram praticamente expulsos daqui, o senhor é o menos pecador. E eu acho que canalhice não deva ser pecado, mas, se for, o castigo deverá ser bem menor para o senhor do que para os que daqui sairam.
Assim, já que empenhei minha palavra, malgrado sua falta de caráter e de ser uma pessoa inútil à sociedade, porém, assim mesmo devo confessar que o admiro, pois pelo menos o senhor é o que é...Não é hipócrita como a maioria. Então, só me resta declará-lo como herdeiro da minha fortuna! 
Bingo! Era isso que Benedito queria ouvir já há muito. Esfregou as mãos, ansioso, e um sorriso espelhou-se sob seu bigode bem cuidado. Mas, assim que o velho continuou, o sorriso foi aos poucos desaparecendo...
-Da minha fortuna, que é imensa, e que agora passa para o senhor, por direito, vou tentar amenizar um pouco os pecados dos que aqui estiveram...Assim, com uma pequena parte dela, já comprei todo o terreno aonde estava a casa da viúva e agora era um supermercado, o qual  já mandei demolir. Ali será erigido um monumento à viúva e ao seu pequeno filho, para que toda vez que alguém olhar para ele, se lembre da sórdida ação do vereador, do advogado e do gerente do banco. Quero preservar viva a memória daquela infeliz e, com isso, vou preservar também a vergonha desses três homens.
Quanto à tribo de índios, diabolicamente usada pelo cientista, já mandei uma equipe médica para lá, com todos os recursos e construi um mini-hospital para o atendimento deles. Enquanto viverem, eles serão tratados como seres humanos que são.
-E sou eu quem tenho que pagar isso?! – Perguntou Benedito, já aflito na contabilidade da sua fortuna.
-Não. Antes de acertar o prêmio que receberia o menos pecador, já havia cuidado de tudo isso. E meus escritórios de advocacia é que irão administrar tais trabalhos. Não precisa se preocupar... – Explicou o velho, colocando uma pitada de ironia nas últimas palavras.
Outra ação, que creio, mesmo o senhor deverá concordar da sua necessidade e importância, é que já vamos começar a construção de um hospital psiquiátrico infantil, que dará toda assistência gratuita, física e espiritual, às crianças vítimas de abusos sexuais, além também, de cuidar das com doenças comuns.
E, por fim, também já foi comprado o terreno onde será construída uma casa-abrigo para os indigentes, com acompanhamento médico e social. Eles serão recolhidos das ruas e receberão alimentação, roupas, remédios, tratamento e trabalho. Profissionais irão ensiná-los a fazer algum trabalho, para que depois, ao deixar o abrigo, ele possa sobreviver dignamente...Não é uma boa coisa? – Concluiu o milionário, já num tom mais alegre.
-Boa uma merda! – Xingou Benedito novamente em pensamento – Se o velho continuasse fazendo tanta coisa pros outros, ia acabar “dilapidando” a fortuna que agora lhe pertencia.
O velho, observando a carranca do homem, e talvez se divertindo com tudo aquilo, disse:
-É só isso, senhor Benedito. Um carro irá levá-lo agora à sua casa.
-Ei! Ei! E a grana? Como e quando receberei sua herança? – Perguntou, quase num grito de angústia.
-Ora, ora...me desculpe, senhor Benedito! Nessa idade normalmente algumas coisas nos fogem da lembrança...Eu estava realmente esquecendo de falar sobre isso.
-Eita velho sacana! – Foi o pensamento de Benedito, achando que o milionário estivesse querendo “passar a perna” nele.
-No contrato que mandei meus advogados fazerem, para os quais agora, como disse anteriormente, vou passar seu nome, tem uma cláusula que também será preenchida agora, a qual dita a maneira pela qual a fortuna será transferida.
Benedito só faltava bater a cabeça na parede, tal era a ansiedade e  irritação a que o velho o estava levando com toda aquele palavrório jurídico.
-Como o senhor foi o ganhador e, francamente, eu já esperava por isso, a cláusula está sendo preenchida, nesse momento, citando que, para sua ex-mulher, será concedida, a partir de agora, uma renda vitalícia de R$10 mil reais por mês e, para seu filho, agora completando 18 anos, estudo completo numa Universidade dos EUA, com tudo pago e uma pequena renda para suas necessidades mensais. Será comprado um apartamento para ele, onde ele morará até se formar. Ao concluir os estudos, será montada uma empresa para ele, com toda a assistência dos meus escritórios.
Benedito desta vez não pensou. Soltou um palavrão mesmo, pois pelo que via, em sua aflita contabilidade mental, daí a pouco iria sobrar para ele apenas umas fábricas, uns terrenos e alguns míseros milhões de dólares. Aos poucos o maldito velho estava diminuindo sua fortuna...
O milionário, além de ouvir o palavrão, pareceu novamente adivinhar os pensamentos do homem, que naquele instante parecia ir às raias do desespero, ao ver indo seu “dinheirinho” para os outros e, até agora, para ele, nada!
-Não precisa se desesperar, senhor Benedito. Como disse, minha fortuna é muito grande. Para o senhor ainda ficam vários imóveis aqui no Brasil, em Nova York e Paris; cinco indústrias que têm um rendimento anual líquido de milhões de dólares; esta mansão, orçada em mais de R$1 milhão de reais, além de obras de arte, ouro e muitas outras coisas, das quais não me lembro, mas o senhor irá receber a relação de tudo isso.
Benedito quase teve um desmaio ao ouvir tudo aquilo. Mesmo com o dinheiro “jogado” fora pelo velho em assistência social e as mordomias para sua ex-mulher e seu filho, ainda sobrava tanto dinheiro, que mesmo vivendo três vidas ele conseguiria dar fim. Novo sorriso sob o bigode já com alguns fios brancos. Agora as coisas estavam se encaixando e ele estava menos nervoso. Então o velho voltou a falar.
-Tudo certo, senhor Benedito?
-Ca-Claro! – Gaguejou, de olhos brilhantes, mas que logo se ofuscariam ao ouvir o milionário...
-Falta agora o seu castigo.
-Castigo? Mas como? Eu já fui julgado, sou o vencedor e herdeiro da sua fortuna, como o senhor mesmo prometeu. Que raio de castigo é esse? – Berrou Benedito, voltando a se irar.
-Questão de justiça, meu caro, como já lhe disse. Todos aqui, à exceção do José, foram julgados...e você também o foi. Depois, de uma maneira ou outra, todos tiveram uma sentença, ou castigo, como o senhor quiser, de acordo com suas ações. Então, agora, concluindo esta terrível noite, devo dar uma sentença sobre seus pecados, embora que mínimos.
-Tá bão! Tá bão... – Concordou Benedito, procurando se acalmar – E qual é minha sentença?
-Como eu disse, no documento de transferência da minha herança ao ganhador, ficou uma cláusula em aberto, para ser posteriormente preenchida pelos meus advogados. Assim, para não me tornar repetitivo, e dando fim ao nosso julgamento, sua sentença é que o senhor terá que aguardar 25 anos para ter direito a fazer qualquer uso da sua herança. E mais: também será estipulado que, se o senhor se aproximar de sua ex-mulher, qualquer que seja sua intenção, ou ainda vier pedir algum dinheiro a seu filho, a herança será transferida para entidades assistenciais em todo o País, e o senhor não verá um tostão sequer dela!
-Ma-mas isso não é justo... – Conseguiu retrucar o homem, pálido como um lençol branco.
-Pode ser injusto, senhor Benedito, mas somente estou repetindo a injustiça que o senhor cometeu com sua ex-mulher e seu filho. Foram 25 anos de abandono, e assim, aqui entra a justiça, o senhor esperará os mesmos 25 anos para herdar a fortuna.
-Mas o senhor prometeu...- Tentou dialogar Benedito, com voz débil.
-Prometi doar minha fortuna ao menos pecador, e é o que estou fazendo ainda hoje, somente não disse como faria tal doação e nem quando. Portanto, senhor Benedito, assunto encerrado!
Benedito deu alguns passos, cabisbaixo, com a alma tão afligida como se estivesse no inferno. De soslaio, ele percebeu que o segurança entrava no salão, para levá-lo.
Então ele parou, voltou-se para o lado da parede de onde aparentava vir a voz do milionário e tentou uma última cartada:
-Pelo que entendi, só vou ter direito à sua herança quando estiver com 70 anos de idade!...E como vou viver até lá?
-Talvez o senhor viva até os 70 anos, talvez não. Eu consegui. Quanto ao senhor, Deus é quem sabe. Referente à sua sobrevivência, se chegar  até a citada idade, o problema é todo do senhor. Passar bem, senhor Benedito.
O segurança acompanhou o arrasado homem até à porta, quando a voz do milionário soou, pela última vez para o último convidado:
-Aprenda uma coisa, senhor Benedito: como disse Bertold Brechet, o mundo é um esgoto, e todos nós fedemos! E, nesta noite, isso ficou bem claro aqui.

FIM

 

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