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Meus Contos & Crônicas 
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Frango Caipira
Sergio Ferraz

  Eu estava aquele dia como sempre na maioria das vezes me encontrava: pra baixo como bunda de sapo. Quando passei em frente ao portão de uma certa casa, vi a placa de “vendo frango caipira”. Pensei um pouco e disse a mim mesmo: por quê não? 
  Eu havia nascido na roça e,  apesar de estar na cidade há vários anos e já ter me desacostumado da vida no sítio, guardava boas lembranças dos frangos ensopados que minha mãe fazia, acompanhados, claro, de uma enorme tigela de angú... 
  Assim, com as lembranças da infância ativando minha glândula salivar, veio água à boca e eu resolvi comprar um frango caipira, como diziam as letras na placa. 
  O dono da casa – e dos frangos, me mandou entrar e escolher o frango que quisesse. Acompanhei-o até os fundos da casa, onde num velho e pequeno galinheiro as pobres aves se espremiam, com olhares angustiados, não sei se temendo serem compradas e irem parar num panela, ou por causa do calor e da sede, pois não vi nenhum vasilhame de água à disposição das coitadas. 
  Assim, meio que penalizado, poderia até comprar todos os frangos, se tivesse um sítio ou mesmo uma chácara, e lá os deixaria, soltos como gostam, ciscando e correndo atrás de alguma minhoca incauta. Mas eu não tinha, e assim resolvi escolher o frango que me pareceu mais esperto e simpático. Não ia querer levar um frango fraco e doente para meu já calculado ensopado com polenta. Polenta, sim, pois agora vivia em São Paulo, e paulista, acho que devida à descendência italiana, come polenta, e não angú, como nós, os mineiros. Para mim era tudo a mesma coisa, mas eles batiam o pé que não era. Paciência... 
  Minutos depois, após pagar o preço devido, deixei a casa em direção ao carro com o frango preso firmemente sob o braço. Como disse, eu nascera na roça e sabia o trabalho danado que dava pegar um frango fugitivo. Por isso tomei todo o cuidado. Coloquei-o no banco da frente, bem ao meu lado, para poder ficar de olho nele, no caso de uma possível intenção de fuga, se bem que o pobre empenado estava com os pés amarrados, o que lhe dificultava qualquer movimento maior. 
  Ele acocorou-se quietamente no banco, e eu entrei no carro e dei partida, em direção à minha casa, que ficava num bairro bem distante do centro. Daí, pra passar o tempo, fingi entabular uma conversa com o frango. 
- Sabe, não sei por que esse negócio de chamar a gente de caipira. Quando eu vim aqui para São Paulo, detestava que me chamassem assim. Só porque a gente vem do interior, já vêm esses almofadinhas gozando a gente. Caipira...caipira...Nem vocês pobres aves, escapam disso. Sabe que até os ovos eles chamam de caipira? Rá! Como se ovo falasse caipirês! 
- Mas nem eu falo! – Disse o frango. – Aliás, eu cacarejo como qualquer frango, seja da cidade ou da roça. 
Por vários segundos, penso eu, não pude atinar com aquilo. Eu ouvi alguém falar ao meu lado. Pensei ser brincadeira de algum amigo cretino, e olhei o banco de trás. Não havia ninguém. Olhei o frango, que também olhava para mim, mas meu cérebro se recusava a computar a realidade. Como disse, foi uma pequena fração de segundos, mas o susto foi enorme. Por pouco não colidi com um carro estacionado. E assim, mais tonto do que peru de Natal, eu parei o carro, automaticamente, para evitar o pior. Olhei novamente para trás, olhei para fora. Nada. Aí, já suando apavorado, olhei o frango. 
  Eu me recusava, preservando minha integridade mental, perguntar ao frango o que ele havia dito. Imagina! Bichos não falam. Pelo menos humanês, não. Então, como todo bom caipira, lembrei das histórias de “assombração” contadas pelos mais velhos, e senti os pelos do corpo arrepiando. Olhei para o frango de olhos esbugalhados (eu, não o frango), e praticamente gritei, colocando os dedos em cruz: 
- Vade retro! Pé de pato mangalô sete vezes! 
Fechei os olhos, evitando a visão do “frango endemoniado” ao meu lado, e na esperança de que ele desaparecesse. Abri os olhos, devagar...e o frango ainda estava lá, e balançava a cabeça, em sinal de reprovação do meu ato. 
- Meu, cê tá maus! Isso é coisa dos nossos avós. Deixa de ser besta e pára com isso! 
Saindo do meu torpor, consegui balbuciar algumas palavras de constatação e incredulidade, ao mesmo tempo. 
- Ma...mas...vo...você fala?! Isso não é possível! Devo estar sonhando! 
- É possível, sim, e você não está sonhando! 
- Como não? Galinhas não falam! 
- Êpa, êpa!...Olha o respeito. Eu sou macho, meu caro. Que negócio é esse de galinha? 
- Tá bom, desculpe...frango, então. 
- Melhorou. Agora vamos conversar direito. Escuta, dá pra você desamarrar meus pés? Já estou ficando com cãimbras! 
Tirei a corda dos pés do frango, mas ainda me achando meio zoró. O frango agradeceu, se ajeitou melhor no banco, e disse: 
- Tá legal. Sei que você ainda não está acreditando. Diga aí, então, o que você quer saber. 
- Simplesmente quero saber que loucura é esta. Você realmente fala? 
- Mas é claro. Não precisa correr para nenhum psicólogo. Isso é normal. 
- Mas como, normal? 
- Ora, ora...me diz que você, quando morava no sítio, jamais imitou o cacarejar de uma galinha, o pio de um pássaro ou o relinchar de um cavalo! 
- Humm – Cocei o queixo, buscando recordações distantes – sim, eu costumava imitar patos, mas eu era muito bom mesmo imitando os latidos dos...ei! Eu estou entrando na sua! Frangos não falam, e pronto! Me recuso a conversar com você! 
Cruzei os braços, irritado com aquela situação insólita. Depois dei uma rápida olhadinha para fora do carro, para ver se não havia ninguém por perto. Já imaginaram se alguém me visse falando sozinho, como eu imaginava, estivesse? Iria pensar que eu endoidara de vez. E se me vissem conversando com um frango então, por certo me mandariam para um sanatório. O frango quebrou o rápido silêncio: 
- Você percebeu? 
- Percebi o quê, ô galinha-de-angola? – Perguntei, ainda irritado. 
- Sem ofensas, por favor. Só perguntei se você percebeu que, se um humano pode imitar a ‘voz’ dos animais, nós também podemos imitar a voz de vocês. 
Cocei novamente o queixo e não pude deixar de concordar. 
- É...nisso você tem razão. 
- Falou, cara. Liga o carro então, e vamos embora. Vá dar cumprimento ao meu cruel destino! 
Meio abestado, obedeci ao frango. Dei partida e sai devagarinho, com o cérebro ainda dando mil voltas. Eu pensava e olhava pro frango e olhava pro frango e pensava. Mas, apesar de algumas dúvidas não sanadas, fiquei calado. Foi ele quem começou novamente a conversa, perguntando de sopetão. 
- Como você pretende me comer? 
Olhei para ele novamente e, um pouco mais calmo, respondi evasivamente. 
- Sei lá...acho que, ensopado...é ensopado. Era essa minha idéia, quanto comprei você. 
- Ufa! Ainda bem! 
- Por quê “ainda bem”? 
- É que tenho trauma de frigideira. Sabe, aquele óleo fervendo...vigi mãe...detestaria morrer frito! 
Ai a coisa ultrapassou todo meu entendimento humano, e, sem mais nada a entender, pois não havia mesmo, comecei a rir da preocupação do frango. 
- Ah! Ah! Ah! Mas você é uma besta mesmo! Se for ensopado ou frito, você não saberá, pois já estará morto, sua anta! 
- Eu sei, ô infeliz, mas é a sensação da forma da morte que incomoda, que assusta. 
Dei nova risada, agora já me divertindo com as inteligentes observações do galináceo, e perguntei se ele tinha um nome, além de “frango caipira”. 
- Tenho sim...é Cacáti! 
- Cacete! Que nome esquisito! Parece coisa de índio ou sei lá o quê! 
- Bem, a origem do nome eu não sei, mas também acho esquisito. E, por falar nisso, qual é o seu? 
- Praxedes...Praxedes da Silva! 
Eu detestava este nome, pois sempre causava risos em quem o ouvia. Mas disse ao frango, pois achei que uma ave não teria senso de zombaria. Me enganei redondamente...O maldito frango caiu na risada, e quando conseguiu falar, observou: 
- É, Praxedes, realmente nós dois temos nomes esquisitos! Ah! Ah! Ah! 
- Eu sei...eu sei...dá pra parar de gozar? 
- Tá bom, desculpe. – Disse ele, enxugando os cantos dos olhos com uma das asas. 
- Me chame de Dedé – Disse eu, sério e taxativo. 
- Tá bem, Dedé. Mas quem botou esse nome ‘disgramado’ em você? – Ele perguntou e caiu na risada de novo. 
- Ré, ré...muito gozado. E quem botou esse nome de fresco em você? 
O frango então subitamente ficou sério, tomando um ar de tristeza, e após alguns segundos, contou: 
- Tudo bem, sei que você está zangado...mas, não é nome de fresco. Foi uma criança que colocou este nome em mim. 
Fiquei na minha, apenas ouvindo. E o frango continuou: 
- Sabe aqueles sítios lá em Minas, onde no terreiro tem um galo e várias galinhas? 
- Sei...Eu também sou de Minas Gerais, e nasci num sítio. 
- Pois bem, no caso dos frangos, é ao contrário dos humanos. Uma mulher sem muito juizo na cabeça, anda com vários homens, engravida, e depois nem sabe direito quem é o pai da criança, não é? 
- É... – Concordei automaticamente, querendo ver aonde o frango queria chegar. 
- Já no caso das galinhas, os pintinhos têm mais dificuldade de saber quem é a mãe, do que quem é o pai, já que só tem um galo no terreiro. Então por constatação, sabe-se quem é seu pai, mas não a mãe... 
- O que é que meu pai tem a ver com isso? – Perguntei, grilado. 
- Ah, larga mão, sô! Tô falando “seu pai” num sentido genérico. Não me referi a SEU PAI, especificamente. Entendeu? 
- Ahann... – Eu não havia entendido bulhufas, mas não queria deixar o frango perceber que era mais inteligente do que eu... – Vai, continua a história! – Mandei, impaciente. A impaciência e a consequente estupidez são as saídas contumazes de todo ser humano medíocre. E acabei atropelando a narrativa do pobre frango. – Você ia falar sobre seu nome, me parece, e foi lá atrás, quando você ainda era um ovo! 
- É para você entender melhor... 
Olhei com cara de bravo pro frango. Cara de bravo também é uma ótima saída para quem se acha em desvantagem intelectual. Mas mesmo assim senti que o frango estava me chamando de burro, por tabela. 
- Eu somente exemplificava a diferença antropológica entre mulheres e galinhas, entre homens e galos e entre crianças e pintos... 
- Chega, pô! Fala logo sobre seu maldito nome! – Gritei, perdendo as estribeiras. 
- Tá bem, tá bem, não se estresse, por favor. 
Eu não sabia explicar, mas continuava com a nítida impressão de que o frango  me gozava...Ele se ajeitou no banco, colocou as asas sob a cabeça e cruzou as perninhas. Agora só falta ele me pedir um cigarro, pensei com meus botões. O frango limpou a garganta e continuou: 
- Então, como dizia, sendo apenas um pintinho, com um pai que só pensava em galinhas e uma mãe que estava mais preocupada em fugir dele, o dono do sítio vendeu a mim e mais uma centena de pintos, na vila. 
- Ôrra, meu! Seu pai era uma fera, hein? 
- Ele dava bem conta do recado. Ciscou e bobeou, lá estava o velho conferindo...O que tinha de galinha grávida no terreiro, não tá no gibi! 
Enquanto o abestado aqui ficou imaginando como seria uma galinha grávida, o frango continuou: 
- Bem, pra encurtar a história, fui comprado por um senhor e dado de presente para seu filho, um garotinho de uns oito anos de idade. Ele então foi quem começou a me chamar de “Cacáti”, e o nome pegou. A gente conviveu juntos por um ano, e eu aprendi muita coisa com o garoto. Até a ler história-em-quadrinhos, que era uma paixão dele. Ele chegava da escola e a gente almoçava juntos. Ele, com o prato, e eu empoleirado na mesa, beliscando na beirada do prato. A mãe dele não gostava muito, dizia que eu estava ficando mal acostumado, mas ele não ligava. Depois ele sentava-se no assoalho da sala e ia ler seus gibis, e eu, empoleirado em suas pernas, ia olhando as figuras. Era um barato! 
O franguinho estava fazendo uma “viagem ao passado”, literalmente, e estava tão empolgado em suas recordações, que o deixei tagarelar à vontade, sem interferir, a não ser quando eu quis saber como ele tinha vindo parar em São Paulo. 
- Ah, foi meio inacreditável! 
- Pois conte, uai! – Disse eu, que àquela altura poderia acreditar até em discos-voadores. 
- A família do garoto mudou-se para São Paulo, e o pai dele insistiu que não dava pra trazer um frango numa mudança tão longe. O garoto, chorando desesperado, não querendo  deixar-me para trás, me pôs sob seus bracinhos e foi sentar-se num morro próximo à sua casa, onde passava a linha da Maria Fumaça.  E como o trem passava bem devagarinho ali, ele teve a idéia de me colocar em um dos vagões-cargueiro, dizendo que a gente se encontraria em São Paulo. 
- Puxa! – Foi só o que consegui balbuciar, ouvindo a inacreditável história. 
- É puxa, mesmo...Ninguém sabe o que se passa na cabeça de uma criança. É dificílimo, pois uma criança raciocina com o coração, e não com o cérebro. 
- É verdade...é verdade. – Concordei meio que pensativo, e tasquei logo a pergunta final: 
- E daí? O plano dele deu certo? Vocês voltaram a se encontrar? 
- Necas de piriquitiba! Isso já faz dois anos e eu nunca mais vi o garotinho. 
- Então foi assim que você veio parar aqui...assombroso! – Comentei. E estava sendo sincero. 
Logo depois chegava em casa. Coloquei o carro na garagem, passei a mão no frango e fui pra cozinha. 
- Pô, meu, tá com fome, hein? Já vai me depenar? – Quis saber o frango, meio que preocupado. 
- Calma, amigo. Só vou deixar você aqui na cozinha e vou tomar um banho. 
Dito isso,  deitei água numa vasilha e milho em outra, e coloquei frente ao frango. 
- Vai se virando aí, enquanto eu pego uma ducha, tá legal? 
- Legal...obrigado. – Agradeceu o frango, me parecendo meio incrédulo com minha gentileza. Aliás, nem eu acreditava. Já debaixo do chuveiro eu lembrava abestado que havia chamado o frango de “amigo”. Deve ser a maldita solidão, pensei. E realmente era um fato. Desde que perdera meus pais, eu morava sozinho. Primeiro em pensões, as famosas “cabeças-de-porcos”, até conseguir um bom emprego e poder financiar minha casa própria. 
Quanto a uma mulher dentro da casa, não havia nenhuma, a não ser a Dita faxineira, que vinha uma vez por semana faxinar a casa, lavar e passar minhas roupas. Fora isso, eu não havia ainda tido a felicidade - ou infelicidade, de arrumar uma esposa. E antes que passe algum pensamento cretino na cabeça de vocês, eu também não era gay. Aliás, eu sou tão feio, que nem para gay serviria... 
  No meu entender, mesmo tendo um bom emprego, carro e casa própria e não achar nenhuma mulher que se interessasse por mim, deveria ser por causa da feiúra. A única mulher na vida que havia me achado bonito, era minha mãe, e assim mesmo com algumas ressalvas... 
  Literalmente eu não dava sorte com mulheres. Eu tinha uma maldita aptdão para me apaixonar por mulheres loiras, e estas, por consequência lógica, gostavam de homens morenos. Uma única vez que me apaixonei por uma morena, ela acabou me deixando por um mulato. Maldita natureza humana! Além de ser feio eu ainda tinha de lutar contra preconceitos coloridos. Branquelo, cabelos castanhos-esquisitos, eu nem uma cor definida tinha, e daí perdia feio para morenos, negros, mulatos e até para loiros de olhos azuis, desde que esses fossem bonitinhos... 
  Afastando os pensamentos étnicos da cabeça, fechei o chuveiro, me enxuguei, coloquei uma roupão e fui dar uma olhada no frango. Ele estava esticado no piso, deitado de costas e sua barriga parecia ter aumentado duas vezes. 
- Ei, você está bem? 
Ele apoiou-se na asa direita, e com um olho meio fechado e outro aberto, dei um arroto, desculpou-se e respondeu: 
- Rapaz, comi feito um frei! 
Ajoelhado ao seu lado, dei uma risada e perguntei: 
- Uai, frei come muito? 
- Bom, como todo frei que conheci era gordo, imagino que devem ser bons de garfo! 
Dei mais uma risada e ajudei-o a se por de pé. 
- Você não vai querer me cozinhar agora, né? Sabe...estou com a barriga cheia e entrar dentro d’água agora pode dar congestão! 
Ai não aguentei mais. Sentei-me no chão e ri à vontade. O frango, esperto como ele só, começou a rir também, mas sem tirar os olhos de mim. Então, após passar a crise de riso, percebi que ele não fazia gracinhas por fazer, ele era realmente espirituoso, e fazia ou falava as coisas, inconsciente disso. 
  Porém, o mais interessante foi que eu, ali sentado no chão da cozinha, com o frango ao lado, notei também que desde que nos conhecemos, eu não havia sentido nenhum daqueles sentimentos frustrantes que me perseguiam em várias ocasiões e praticamente, todos os dias. Nem no chuveiro, pensando nos meus problemas com as mulheres, não fiquei deprimido como ficava. E além disso, estava conseguindo rir, livre e despreocupadamente como não o fazia desde meus bons tempos de criança. 
  Como eu havia ficado quieto, creio eu com um sorriso abestado na cara, pensando em tudo aquilo, o frango, por sua vez, deve ter imaginado que eu estava já sorrindo antevendo o belo ensopado que ia fazer com ele. Sua preocupação foi manifesta em apenas uma palavra: 
- Então... 
- Então o quê? 
- Quando é que vou para a panela? 
Fingi-me pensativo, olhando-o fixamente. Daí abracei-o, acariciando as penas da sua cabeça, dei uma risada e disse: 
- Sem essa, Cacáti! Quando é que se manda um amigo pra panela? Não se cozinha amigos...pelo menos é como deveria ser...Amigos não são pra jogar numa panela, e sim, pra guardar do lado esquerdo do peito, como diz o Miltão! 
- Que Miltão? 
- Milton Nascimento...um cantor...Depois te explico. 
Assim, após meus já passados 30 anos de idade, eu conseguia ter um amigo de verdade. Uma coisa um tanto inacreditável, reconheço, mas eu tinha ali, à minha frente, um sujeito de pouco mais de 20cm de altura, empenado, e que tinha no lugar da boca, um bico, mas era alguém que ia bater papo comigo, sem usar de metáforas maliciosas, que não se preocuparia jamais se era mais bonito ou feio que eu, pois não tinha vaidade no coração. Aquele novo – e único amigo, eu tinha certeza, não me decepcionaria como um ser humano normalmente faz com outro. 
  Então acertei os ponteiros com ele, fiz alguns ajustes nos nossos nomes e pronto. No dia seguinte fui trabalhar super feliz, pois sabia em meu coração que, além de ter uma casa para voltar, agora eu sempre teria alguém lá a me esperar. E atravessaríamos as madrugadas, batendo papo e rindo, sem maldade, sem malícia, sem críticas e nem falsidades. Coisas pertinentes aos seres humanos, e que eu sabia, jamais encontraria naquele meu amigo. Achar um amigo de verdade, é como encontrar um tesouro. E eu havia encontrado o meu, na figura daquele frango caipira! 
  Em pensamentos pedi as bençãos de Deus para o garotinho que havia, sem o saber, enviado seu amigo para mim. Estivesse ele onde estivesse, desejava que ele também encontrasse um amigo à altura daquele que ele havia me enviado, na sua doce inocência e na sua inconsciência do amanhã. 
-  Trimmm! Trimmm! 
- Pois não? Residência do sr. Dedé Silva! 
- Quem está falando? 
- Meu nome é WILLIAM CATI...sou secretário dele!...

   É O FIM! 


RODA VIVA

  Tião estava a ponto de explodir. Desempregado, ele recebeu a conta da luz em sua casa, e nesta vem um preço absurdo. Ele amassou a conta e jogou no chão, raivoso. Onde já se viu? Os caras da companhia de força e luz estavam aumentando a conta e ele não tinha dinheiro. Quando estava empregado, recebeu uma mixaria de aumento, depois de um ano ralado. E a maldita conta da luz aumentava todo mês. Se já estava ruim empregado, quanto mais agora, desempregado. 
Tião respirou fundo, tentando se acalmar, pegou o papel amassado no chão e foi falar com a mulher. Ele queria saber porquê aquela merda de "vates" tinha aumentado tanto. 
- Não sei, Tião. A gente quase não gasta energia elétrica. Aqui não tem nenhum aparelho que tem em casa de granfino. 
Tião já sabia a resposta. Sem falar nada, pegou o economicamente suado dinheiro para o supermercado e o revólver, colocou a grana no bolso e o "berro" na cinta, e foi até o prédio da companhia de força e luz. 
- Eu não tenho dinheiro para pagar tudo isso! Quero saber se vocês vão cortar a minha luz! 
  O atendente da companhia se mexeu preguiçosamente na cadeira e respondeu que primeiro haveria as multas por atraso, e depois sim, aí viria o corte. Tião foi até a porta, a cabeça parecendo entrar em parafuso. Ele tinha um filho pequeno e a mulher estava esperando outro. Sem emprego, ele não tinha condições nem de evitar o corte da energia elétrica. E era através dela que Tião podia proporcionar o único conforto para sua família, que consistia na velha e barulhenta geladeira. Com aquele calorzão todo, como ia dar uma água fresca para seu filhinho? E a mamadeira? Sem geladeira ela ia azedar. 
Tião lembrou de sua infância no interior, quando não precisava de gás, pois o fogão era à lenha e nem de energia elétrica, pois estavam acostumados com a luz de lamparina. Porém, já vivendo há muito tempo na cidade grande, haviam se habituado ao aparente conforto da vida moderna. Ele poderia bem passar sem aquelas coisas todas, mas sua mulher, barriguda de três meses e o filhinho pequeno, não. 
 Se usasse lamparina, corria o risco de botar fogo na casa, que para mal dos pecados, era alugada; se fizesse um fogão à lenha, a polícia florestal iria prendê-lo por dano ao meio ambiente. Resolvido, Tião sacou o revólver, encostou o cano na cabeça do atendente e repetiu: 
- Eu não tenho dinheiro para pagar a conta da luz e, além do mais, esses aumentos são um roubo. Se você não abaixar a merda do preço, eu vou fazer uma loucura! 
 Trêmulo, o rapaz disse que não era responsável pelos aumentos e sim, seu chefe. Tião abaixou a arma e entrou pelo escritório da empresa, procurando o tal chefe. Assim que o achou, repetiu a ação, colocando a arma apontada para a cabeça dele. Mas o chefe, por sua vez, garantiu que também não era ele o culpado e sim, o gerente da companhia. 
Irritado, Tião deu um pé de ouvido no sujeito e foi atrás do gerente. Tião o encontrou refestelado em uma poltrona, com um dos joelhos apoiado na reluzente escrivaninha. A arma apontou perigosa para a cabeça do gerente, mas este também disse não ter culpa pelos aumentos da energia elétrica e garantiu que a única pessoa que poderia resolver aquilo era o gerente regional. 
 Faminto, pois não comera nada desde cedo, e cada vez mais nervoso, Tião também meteu o revólver na cabeça do gerente regional, mas o sujeito disse que o grande culpado por tudo aquilo era o presidente da companhia, que poderia ser encontrado na sede da empresa, lá na capital. Tião saiu do prédio, recontou o dinheiro que iria usar para pagar a conta da luz, caso conseguisse um preço justo, e resolveu pegar um onibus e ir até à capital. O presidente da companhia, assim que viu o negro cano do revólver apontado para ele, quase teve um troço. Suando feito um porco gordo, ele disse ao Tião que o culpado de tudo era o deputado que votava as leis e que portanto, havia permitido os abusivos aumentos. 
 Tião não se fez de rogado. Vendo que a grana não dava para ir até Brasília, apelou para uma carona. Em poucos minutos estava subindo à boléia de um enorme Scania, que por sorte estava indo para a capital brasileira. Tião conversou pouco com o motorista. Na sua cabeça fervia a resolução de resolver aquela pendenga de uma vez por todas. "Ou eu faço isso ou não me chamo mais Sebastião", pensava. Ele nem se preocupava mais em 
como iria voltar para casa, tal era sua raiva. "O mais certo
é eu meter uma bala no maldito deputado e ir em cana", ponderou, irrascível. 
 Finalmente Tião chegou a Brasília. Perguntou a um porteiro quem era o deputado e o sujeito apontou um homem gordo, muito bem vestido, que acabava de descer de um bonito automóvel. Mais do que depressa Tião foi até lá, e sem que o deputado se desse conta, o aflito homem já estava metendo a mão direita em seu engomado colarinho branco e com a mão esquerda apontava um revólver para sua cabeça. 
 Tião aproveitou a oportunidade e reclamou dos preços dos aluguéis, dos alimentos, dos remédios e da falta de escola, emprego e moradia. E principalmente reclamou do preço da conta da luz! 
 O deputado, após recuperar-se do susto, deu uma sonora gargalhada do alto dos seus 1,80m e 120kg de banha e disse ao Tião que o único culpado era o próprio Tião. 
- Por que eu?! 
- Ora, foi você que votou em mim! 
 Tião abaixou a arma, o olhar arregalado e incrédulo olhando o chão e em poucos aparafusados minutos chegou à cruel constatação de que o deputado estava certo. Ele, Sebastião dos Santos Reis, cidadão brasileiro, reservista, eleitor e abestado, era o único culpado. A mão que segurava a arma subiu vagarosamente em direção ao seu rosto. Aos poucos as polegadas do cano negro sumiram dentro da boca de Tião. E ele puxou o gatilho. A luz se apagou... 
 

 

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