Vasco Cinquini
O último vôo do herói
 
 
 


Da esquerda para a direita, Newton Braga, João Ribeiro, Washington  Luís, presidente do Brasil na época e que negou apoio 
a João Ribeiro. Ao lado,  João Negrão. Atrás de Negrão, desconheço a pessoa e, marcado com o círculo, o herói Vasco Cinquini



  Na Praia José menino, em Santos, SP, Vasco Cinquini, mecânico da gloriosa equipe de João Ribeiro de Barros, heróis no Brasil e na Itália, perde a vida  a poucos quilometros da praia e à vista de uma multidão. Uma ironia para quem cruzou o Atlântico ao lado de 3 companheiros, tendo apenas o céu e o mar por testemunhas e passando por toda espécie de dificuldades e perigos, num vôo espetacular da Itália ao Brasil. Uma outra ironia, é que dois anos após, na mesma praia, o herói Santos Dumont, inventor do avião, entraria em depressão ao ver sua invenção sendo usada para a guerra. Dumont, mais tarde, suicidou-se no hotel de Santos, onde estava hospedado.

Desenhando a fatalidade...

  O dia nascia aparentemente intranquilo naquele 11 de janeiro de 1930. O sol tentava em vão furar o bloqueio provocado por algumas nuvens carregadas que insistiam em cobrir os céus da cidade. Defronte ao majestoso Hotel Internacional do José Menino, situado no pé da areia na direção da Ilha Urubuqueçaba, quatro homens empurravam uma pequena aeronave, modelo Breda-15, italiana, de dois lugares, posicionando-a para a decolagem. Desde 1923, quando do pouso do Anhangá (famosa aeronave nacional) naquele trecho da praia santista, o José Menino virara referência para aviadores aventureiros de passagem pela cidade, a ponto de existirem hangares no local.
 Entre os empurradores da chamativa engenhoca voadora, estava seu proprietário, o mecânico Vasco Cinquini, reconhecido herói da aviação nacional,  integrante da célebre travessia do Oceano Atlântico realizada pelo hidroavião “Jahú” em abril de 1927, a primeira sem escalas da história da aviação mundial.
Cinquini, que também havia se tornado piloto, tirando seu brevê em meados de 1929,  estava eufórico com o avião comprado na Europa e que tinha acabado de desembarcar de um  navio vindo da Itália. Vasco não se conteve de alegria ao ser notificado da chegada de seu avião e logo desceu a Serra do Mar, de trem, acompanhado pelo companheiro mecânico Irany Correa, a fim de executar a montagem do aparelho. A idéia era voltar para São Paulo pelos ares, como realmente gostava de viajar.
Assim, como uma criança que ganha um brinquedo de Natal, Cinquini se dedicou a montar, peça por peça, o Breda-15 italiano, auxiliado por Irany e Reynaldo, além do aviador Barreta, também seu amigo, e o mecânico Arthur Mitscke, que havia se prontificado para fazer um teste de voo assim que o equipamento estivesse pronto. Depois de seguir fielmente todas as instruções da fábrica italiana, a equipe concluiu o trabalho de montagem da aeronave no dia 10 de janeiro. Ansioso por ver sua aeronave nos céus, Vasco decidiu que faria o primeiro voo imediatamente.
 Cinquini sonhava com o dinheiro que iria ganhar promovendo passeios e excursões aéreas. Era essa sua motivação pela compra do equipamento. Afinal, tinha mulher e dois filhos pequenos para cuidar. No entardecer daquele dia 10 de janeiro, com a ajuda dos companheiros, Vasco levantou voo e ganhou os céus de Santos. A aeronave elevou-se a uma altura de 200 metros. O aviador fez várias evoluções por cima das praias santistas. Mas algo parecia não muito bem. Durante o curto trajeto, Vasco notou que havia uma anormalidade na estabilidade do avião. O Breda mostrava uma leve tendência de se inclinar para um dos lados. Após alguns minutos, resolveu aterrissar, pousando junto ao hangar na praia. Já na areia, confessou aos amigos que sua aterrissagem não lhe pareceu muito segura.
 Enquanto retornava a aeronave ao hangar do amigo Reynaldo, Vasco reafirmou a intenção de partir rumo a São Paulo na manhã do dia seguinte, 11 de janeiro. Barreta, após ouvir os relatos sobre a tendência de inclinação da aeronave, tentou demover o amigo da ideia de partir sem antes encontrar uma solução para aquele defeito. Ainda alertou para o fato de a aeronave italiana não ter vindo com uma bússola, o que dificultaria, e muito, a navegação aérea caso tivesse que enfrentar nevoeiro pelo caminho, como era comum no alto da Serra do Mar. Cinquini, no entanto, parecia decidido a prosseguir com sua ideia, confiando, naturalmente, na sua perícia de piloto. À noite, Vasco, que se hospedara no Hotel Internacional do José Menino, recebeu a visita inesperada de um de seus companheiros da viagem heroica do “Jahú”,  o comandante João Ribeiro de Barros, que e fora a Santos para também receber as peças do seu novo avião, que receberia o nome de sua mãe, Margarida. 

Tragédia nos céus

 Eram pouco mais de 6h30 da manhã, quando os quatro homens finalmente posicionaram o Breda-15, ainda sem nome, com o bico voltado na direção da Ponta da Praia para, enfim, realizar sua primeira viagem. O dia não estava muito propício para o voo, mas o famoso mecânico insistia que não haveria problemas. Antes de partir para São Paulo, porém, Vasco decidiu fazer mais um teste com sua aeronave. No fundo, uma leve preocupação havia se instalado em sua cabeça, embora não manifestasse aos companheiros. Arthur Mitscke havia novamente se prontificado a testar o avião e tomou lugar no assento do Breda, consentido por Cinquini. Porém, antes de acionar os motores, Vasco mudou de ideia e pediu ao amigo que deixasse o lugar. Ele mesmo voltaria a fazer os testes.
  Eram precisamente 7 horas da manhã, daquele 11 de janeiro, um sábado, quando os motores do Breda-15 foram acionados. Na praia do José Menino, alguns banhistas observavam curiosos a movimentação no entorno da aeronave. Em poucos segundos, o pequeno avião ganhou velocidade e subiu, sob os aplausos de algumas testemunhas. O avião, na condução do entusiasmado Vasco, fez algumas evoluções por sobre a Ilha Urubuqueçaba. Em terra, os companheiros de Cinquini sorriam satisfeitos com o desempenho do amigo. De repente, algo inesperado. Ao fazer uma curva em declive, já buscando o posicionamento para o pouso, as asas do Breda-15 deslocaram-se para cima, tocando uma na outra sobre o aparelho, como se fossem orelhas de um coelho. Sem nenhuma chance de equilíbrio, o avião precipitou-se ao mar, chocando-se contra a água. Imediatamente, uma enorme coluna de fumaça subiu aos céus.
 Na areia da praia, desespero. Os companheiros de Vasco e várias outras pessoas que estavam no local correram até a beira d´água. Dois banhistas, João José Guedes e Luiz Bastos do Amaral, resolveram correr em socorro do aviador, utilizando uma canoa que se encontrava na areia da praia. O Breda-15 ainda podia ser visto fora d´água, flutuando. Com remadas vigorosas, os dois socorristas chegaram até o aeroplano acidentado. No local, testemunharam, aflitos, que o ocupante estava morto.
  Com muita dificuldade, Guedes e Amaral libertaram o corpo de Vasco do que sobrou do avião. No entanto, não conseguiram colocá-lo na canoa, devido às fortes ondas que mexiam o mar naquela manhã trágica. Decidiram, então, nadar até a praia apoiados na frágil embarcação, puxando o cadáver de Vasco Cinquini. Ao mesmo tempo em que os dois salvadores se debatiam lutando contra o mar picado, o povo se comprimia na Praia do José Menino, acompanhando lance por lance, os passos finais daquela tragédia. Para piorar a situação, uma onda mais forte virou a canoa. O choque foi tão forte que os dois banhistas largaram o corpo de Cinquini, que acabou desaparecendo. Desesperados, decidiram safar-se da fúria do mar, nadando para a areia da praia.

Um outro herói resgata o corpo do herói 

 O acidente aéreo chamou a atenção de uma lancha da alfândega, que se encontrava nas imediações. Sem pestanejar, o comandante da embarcação, o famoso esportista santista Edgard Perdigão, ordenou a partida imediata de socorro. Exímio nadador, Perdigão pulou no mar e mergulhou fundo, até que encontrou o corpo de Cinquini, trazendo-o para a lancha. O herói da aviação foi examinado no necrotério da Santa Casa, onde constatou-se a causa da morte. Cinquini sofreu traumatismo craniano, com várias fraturas expostas e ferimentos generalizados no tórax, além de queimaduras de 1º grau. O corpo do aviador foi embalsamado e encaminhado para São Paulo, de trem, para o sepultamento. Dos quatro heróis do Vôo do Jahu, restaram Newton Braga, João Negrão e o líder Ribeiro de Barros, que se reuniria a Cinquini 17 anos depois. Cansado e desiludido com o ser humano e ainda sentindo a ferida da perda da sua mãe, dona Margarida, episódio que nunca superou, João Ribeiro de Barros morreria em 1947, aos 47 anos de idade, na fazenda Irissanga, propriedade de sua família  em Jaú, SP. O local, que poderia ser aproveitado inteligente e culturalmente como ponto turístico, foi derrubado imbecilmente e em seu lugar foi plantado um cultural canavial...

NE – Não temos informações sobre qual jornal publicou esta matéria e nem quem foi o redator da mesma. Com poucas adequações, procuramos nos ater à informações mais importantes do nefasto episódio com o herói Cinquini.

NE 2 - Em alguns relatos é dado que o Margarida foi tomado de Ribeiro por força da lei imposta por Getúlio Vargas e, em outro relato, os próprios revolucionários obrigaram João a entregar o avião para que este compusesse a força aérea dos constitucionalistas.
 
 
 

 

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