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Carta ao meu avô


 
  





  Caro avô Antonio Rodrigues Ferraz, quando eu nasci o senhor já havia partido, e eu não tive a honra de conhecê-lo. Nem ao senhor, nem ao vô João Câmara e nem à vó Maria Rabelo. Só conheci, e mesmo assim só vi duas vezes, a vó Rosalina Schwenk. O que sei do senhor, especificamente, é o que meu pai, seu filho, e minha mãe me contavam. Meu pai em questão, só lembrava das cacetadas que levava e que deixou de ir à escola quando o senhor deu uma chicotada nele por causa do mesmo estar “cantando” a tabuada.
  O senhor era bravo mesmo, hein, vô? Bem, meu pai também se lembrava das vezes em que ele e os irmãos o acompanhavam nas caçadas. Ele dizia que o senhor tinha o costume de jamais olhar para trás, e assim, quando o senhor jogava fora o cigarro de palha que fumava, meu pai e meus tios aproveitavam para dar umas boas tragadas às suas costas. Eu imagino o que iria acontecer se o senhor visse isso...
  Não estou dando uma de dedo-duro, mesmo porque meu pai e minha mãe já estão aí em cima com o senhor e meus outros avós. Só estou lembrando o que me contavam a seu respeito, e que eu ouvia com olhos arregalados de criança. Sempre imaginei o senhor uma espécie de super-homem. O que faço até hoje.
  Minha mãe sempre falava dos tempos difíceis, quando o senhor e minha vó, ainda jovens, deixaram Ilhéus e vieram para o sertão mineiro. Era tudo mata virgem, e o senhor armou uma barraca numa clareira, para se abrigar com minha vó, e provido apenas de um machado, foi abrindo outras clareiras e lavrando seu chão. E em pouco tempo, o senhor, que segundo minha mãe, tinha apenas uma calça, a qual minha vó tinha de lavar no rio à noite e secar numa fogueira para o senhor usar no dia seguinte, se tornou o maior fazendeiro da zona da Mata. E de Antonio passou a ser chamado de “senhor Rodrigues”.
  O senhor foi um baiano lutador, de garra e inteligência e, pelas próprias imposições da vida selvagem, quando começou, também tornou-se um homem duro, extremamente severo. Mas minha mãe dizia que o senhor era também muito hospitaleiro, e nenhum viajante que passasse por suas terras ficava sem comida, sem um lugar para dormir e sem que seus animais também fossem cuidados.
  Agora fico recordando esses tempos relatados por meus pais, e me ponho a pensar no que aconteceria se o senhor vivesse nos dias de hoje, os quais, graças a Deus, o senhor não conheceu. De acordo com historiadores familiares, o senhor era daquele tempo em que um fio de barba era documento, pois a honra era levada a sério. Se o senhor visse hoje, vô...com poucas exceções, o que um homem fala de pé, não cumpre sentado. Sabe aquelas pragas daninhas que davam no cafezal? Pois hoje temos pragas ainda piores, e não dão só nos cafezais. Elas infestam todo o País, das pequenas às grandes cidades e, principalmente, a capital federal. No seu tempo a capital era o Rio de Janeiro e em 1961 ela passou a ser Brasília, uma cidade criada por um presidente aí das Minas Gerais, que se chamava Juscelino Kubitscheck. Parecia ser um homem formidável, apesar de ser político.
  Mas como eu dizia ao senhor, as pragas que infestam o País hoje são os políticos. Piores que pragas daninhas, vô, já que estas podem ser eliminadas com um bom pesticida, mas os políticos de hoje, são tantos e tramaram a coisa de uma tal maneira, que não podemos nos livrar deles. Temos que pagar um salário danado pra eles, que nada fazem, a não ser criar leis absurdas, sempre a favor deles, e contra o povo. Como as pragas daninhas acabam com uma plantação, eles estão acabando com o País, vô.
  E o povo, igual àqueles bois de carro, fortes, mas que se deixavam dominar pela canga, faz o mesmo. Vai mugindo sua miséria e, desconhecendo a própria força, se deixa dominar por esses parasitas chamados políticos. E o povo vai cada vez pior, vô, pois não têm cultura, desconhecem as leis de Deus e apenas se conforma com tudo e acaba imitando os políticos. Por isso a inteligência, a moral e a honra estão em extinção.
  Agora ninguém precisa mais pegar um machado e conquistar seu pedaço de terra, como o senhor fez, vô. Aliás, nem dá pra fazer isso, pois o governo é dono de tudo. Até do subsolo, imagine. Aquelas caçadas de porcos-do-mato que o senhor fazia, nem pensar. Hoje, se o cidadão matar um animal para comer ou mesmo derrubar uma árvore para acender um fogão à lenha, vai preso. Os únicos que podem derrubar árvores à vontade, são os poderosos e os políticos.
  Olha, vô, inventaram tantas leis, oprimem o povo com tantos impostos, que o senhor, por mais força que faça, não conseguirá nem imaginar o quanto a coisa ficou ruim.
  Isso na parte política. Na parte pessoal, ninguém faz mais nada, a não ser apertar botões. Usa-se o carro - não o carro-de-boi que o senhor usava, mas uma coisa mecânica, que basta entrar nele, ligar uma chave, apertar um pedal e ele sai feito louco...na maioria das vezes com um louco dirigindo ele, mas como dizia, usa-se esse tal carro para tudo, até para ir à esquina comprar pão. O homem parece, esqueceu-se que tem pernas...Em casa, inventaram um tal de controle remoto, que o cara nem precisa tirar a bunda do sofá para ligar um rádio ou a tevê. Bem, o senhor nem chegou a conhecer a tal de tevê. Eu explico: é um caixote com uma tela de vidro que todo mundo tem em casa, e que passa programas gerados por uma emissora. Por exemplo, lá no Rio de Janeiro tem uma emissora de tevê, e ela põe um sujeito dando notícias e a gente vê e ouve o cara dentro da nossa casa. Essas emissoras geram programas de notícias, esportes, religiosos, carnaval, novela e até um tal de ”big brother”.
  Ficou na mesma, né vô? Pois bem, notícias, religião e esportes sei que o senhor sabe mais ou menos o que é; carnaval é uma coisa que inventaram há anos, ainda antes do senhor, mas que era apenas uma brincadeira dos portugueses...é, aqueles que descobriram o Brasil e quase levaram todas nossas riquezas, não fossem os políticos que os impediram, roubando eles mesmos hoje as nossas riquezas que sobraram. Bem, o tal de carnaval hoje é uma coisa que o pessoal chama de diversão, mas sai todo mundo, quase nú, pela rua, dançando, bebendo, tomando drogas, traindo e sendo traido e por aí à fora. O que é droga? É o seguinte, além dos políticos, tem também uns caras chamados de traficantes, que vendem a tal de droga para milhares de pobres coitados, sem rumo na vida, e acabam ficando milionários com isso. Os traficantes; não os pobres coitados.  Além do carnaval, tem também as novelas, que são histórias que duram meses, mostrando na base do faz de conta tudo o que acontece com a gente no real. E, finalmente, agora tem um tal de big brother, que é uma coisa tão idiota, que fica até difícil explicar. O pessoal da tevê pega um punhado de rapazes e moças, jogam dentro de uma casa e ali eles ficam por meses, enquanto o povo liga a tevê e fica olhando diariamente o que aquele punhado de jovens estão fazendo. Eles brigam, dizem palavrões, fazem coisas ainda mais obscenas, escovam os dentes, tomam banho, conversam bobagens o tempo todo, e o povo assiste, encantado.
  É, meu avô, o senhor não imagina como as coisas mudaram. Casamento hoje, não vale quase nada. Tem gente que casa num mês e já se larga no outro...coisa louca, vô. Olha, vô, a coisa ficou de tal maneira bagunçada, ou, como o senhor diria, ficou tanta a pouca-vergonha, que até surgiu uma tal de AIDS, uma doença brava, que leva o sujeito pra terra dos pés juntos, mesmo. E essa doença é mais contraida no contato sexual...Vô, não deixe a vó Maria ler esta carta!
 Nas roupas hoje, as mulheres não escondem mais nada. Moças e até mulheres mais velhas, usam umas blusinhas curtinhas, sem sourtien e com a metade da barriga de fora. As calças (das mulheres, vô) são tão justíssimas, que o infeliz nem precisa se dar ao luxo de imaginar como é o corpo dela. Dá pra ver tudo, milímetro a milímetro, de cabo a rabo!
  E tem mais, vô: os homens passaram a usar brincos! De rapazes a marmanjos de mais de 40 anos, usam brinquinhos...E rapazes e moças, além disso, usam um tal de “piercing”, que é um pedaço de metal que eles usam nas orelhas, no nariz, na testa e no umbigo. O local é furado e eles atravessam ali o tal do “piercing”. Um horror!  Agora sei que o senhor me chamou de mentiroso. Mas é a pura verdade, vô!
  E pra terminar, meu querido avô, se na sua época e até um pouco depois, o cara com seus 16, 17 anos de idade já saia de casa e ia cuidar de arranjar a vida, hoje eles ficam grudados na barra da saia das mães até os 30, 40 anos...Não se casam, pois não querem compromissos e não saem da casa dos pais nem com reza brava. Medo de enfrentar o mundo? Sei lá. Mas que é uma coisa estranha é, não é? Só psicólogo pra explicar. Ah, desculpa, vô. O senhor não sabe o que é psicólogo. É assim. É como um doutor, só que ele trata da mente da pessoa. Também, com este mundo que eu descrevi pro senhor, imagina a mente das pessoas! Pois então o cara marca uma consulta com o tal psicólogo, fica lá no consultório uma hora mais ou menos, falando da sua vida particular, e o psicólogo só ouvindo.Tempos atrás esses tais psicólogos falavam que não se devia bater em criança...Eles não conheceram o senhor! Pois bem, eles disseram que não se devia bater em crianças, e o que temos hoje é moleque de 10 anos e até menos, que não respeita ninguém. Nem os pais e muito menos as pessoas mais velhas. Daí os tais psicólogos estão voltando atrás e dizem agora que umas palmadas não fazem mal a ninguém...Eles não conheceram o senhor!
  Bem, vou parar por aqui, meu avô. Nem sei se deveria ter escrito esta carta ao senhor, mas como nunca pude conversar com o senhor, acabei tendo esta idéia. Sei que o senhor deve estar assombradíssimo a esta altura, sabendo como o mundo que o senhor e  a vó Maria conheceram, virou de pernas pro ar. Não gostaria de estar escrevendo sobre isso para o senhor, mas já não há mais nada de bom sobre a face da Terra, com exceção das maravilhas de Deus, que são as matas, o sol e as estrelas, os rios, os animais e aves, as montanhas e a terra fôfa e carinhosa, que o senhor tão bem conheceu, e amou. Só que, vô, sem querer parecer um urubu, quero informar ao senhor que o homem de hoje está destruindo até as maravilhas do Todo Poderoso.
  Já acabaram com a maioria das matas, não para plantar, como o senhor, mas para fazer pasto ou loteamentos. Os rios estão sendo envenenados e estão morrendo, as aves e animais estão desaparecendo e a terra fôfa e generosa está quase que toda sendo coberta por uma coisa preta chamada asfalto. Este tal asfalto  cobre a maioria das estradas para que o homem possa correr cada vez mais com o tal do carro de que eu falei acima. É, meu avô. O homem de hoje tem pressa, e corre feito louco. Só que tem um detalhe: ele corre para ir a lugar algum, pois nem sabe aonde quer chegar.
Fico infeliz de não ter convivido com o senhor, mas, ao mesmo tempo feliz pelo senhor, meus outros avós e meus pais, já estarem aí em cima, pois vocês se foram enquanto ainda havia honra e um pouco de justiça sobre a face da Terra.
  E olha, vô: se eu disse uma mentirinha que seja aqui, quando eu chegar aí, pode me “cortar de cinta”, tá?
Um grande beijo do neto que nunca te conheceu, mas que sempre te amou.

 
Sergio Ferraz

 

 

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