A nobreza da porrada!


Cassius Clay, o famoso Muhammad Ali


O nosso demolidor Maguila

  Amantes das lutas de boxe desde os últimos socos de Éder Jofre, nosso campeão peso-pena e até quem nunca havia se aproximado de um ringue, espalharam-se pelas mesas do Palace para ver aquele sergipano de 1,85m, bíceps de 0,38cm de diâmetro e pernas com 0,40cm. Cara de bravo, falador, o brasileiro estava diante do seu primeiro e único peso-pesado de então. 
  Maguila ia enfrentar o argentino Juan Antonio Musladino, de 33 anos de idade, 55 lutas e nunca nocauteado. Um páreo duro, somado a que dos lutadores de boxe da América Latina, o lutador argentino sempre foi o mais resistente, pra cair só com uma boa tijolada. E foi mais ou menos esta tijolada que atingiu Juan no sexto assalto, quando um upper de Maguila foi direto ao seu queixo. E Juan foi direto para a lona, nocauteado pela primeira vez!
  Acostumado a brigar desde o nascimento, não por uma vitória no ringue, mas pela própria vida, Adilson Rodrigues nasceu em uma família de 19 irmãos num sítio nos arredores de Aracaju, Sergipe. Seis dos irmãos do lutador morreram ainda bebês, mas ele sobreviveu, vencendo sua primeira grande luta no mundo. Já rapaz, veio para São Paulo tentar ganhar a vida como pedreiro. Muito feijão e farinha de mandioca, segundo ele mesmo falava brincando, formou  o corpo rijo e musculoso. As brigas na rua começaram, claro, já que paulista gosta de gozar nordestino. Quem zombou de Maguila ficou sem dentes para rir da brincadeira de mau gosto...
  Luís Antonio Trajano, o Luisão, ex-campeão brasileiro de levantamento de pesos, mentor e treinador de Maguila, percebeu o potencial daquele sergipano que não levava desaforo para casa e arranjou patrocínio para Maguila com o Executivo, clube onde trabalhava de segurança. E, logo em seguida, com as vitórias de Maguila, veio também o patrocínio da Condugel e a vida foi melhorando, melhores treinamentos, melhor alimentação balanceada por nutricionistas e Maguila ficou ainda mais forte e perigoso em cima do ringue. Campeão sul-americano de pesos-pesados, ele também conquistou, além de uma grande massa de fãs, o patrocínio da Olivetti.
  Numa de suas lutas internacionais com o desafiante sul-africano Louis Pergoud, no Ginásio do Ibirapuera, capital de São Paulo, Maguila teve uma vitória polemizada pela mídia especializada, que não concordou com o resultado. Mas isso, no boxe, acontece com os maiores campeões, e Maguila, sem tomar conhecimento, pegava o microfone com sempre fazia e ficava um bom tempo agradecendo a todo mundo. Acho que mais que sua pegada e suas vitórias, foi este carisma, esta simplicidade que o fazia agradecer as pessoas, e para ele tanto fazia se era um gari ou um doutor, ele tinha esse carinho para com todos. Então, mesmo naquela polêmica luta, Adilson Rodrigues, o nosso Maguila, primeiro peso-pesado brasileiro, continuou invicto!
 Depois sofreria algumas derrotas no ringue e também na vida, o que o levou a afastar-se das lutas e montar uma academia de boxe. Hoje, mesmo adoentado, Maguila está resistindo bravamente aos jabs, diretos e cruzados da vida. 

A nobre arte


Rocky Marciano, o mais famoso e mais imitado boxeador

  O boxe, também chamado de “a nobre arte dos punhos”, é um esporte sangrento, perigoso e até mortal, mas tem um carisma que nenhum outro esporte na área dos quebra-ossos jamais teve. As MMA (Artes Marciais Mistas) tomou conta de um público mais jovem, seduzido pela violência nua e crua, selvagem e animal. O sucesso do boxe, que foi caindo, foi, no Brasil, pela falta da transmissão das lutas de boxe em tevê aberta. A Globo, última detentora dos direitos de exibição, abriu mão e somente quem tem tevê paga pode assistir e isso, é claro, deixou o grande público, que é o povo em geral, principalmente os mais pobres, principalmente jovens que se espelhavam em determinado lutador e acabava indo para uma academia, sonhando em ser um vencedor.
 Acabaram com isso, no cinema, que já fez grande filmes de boxe, tanto histórias reais quanto fictícias, não acabaram com Bruce Lee, mas por vários anos dominaram os pontapés de Vandame e os sopapos de Seagal. Mas isso também passou e a tevê deu guarida aos violentos combates de MMA, com sua pura violência, ossos quebrados e sangue. Nada que se aproxima do boxe, que por isso mesmo tem o codinome de “nobre arte”. 

Cultura grega e 110 rounds de pancada!


Rocky Balboa e Ali, ficção e realidade mescladas pelo cinema

  O boxe surgiu na Grecia desde o ano 1000 (dC), mas era praticado de mãos nuas, o que causava muito mais ferimentos, tanto no rosto de quem levava o golpe como nas mãos de quem dava. Então as lutas foram proibidas e algumas eram feitas na clandestinidade, até o século XVIII, vindo a ressurgir legalmente em 1800, na Inglaterra. Em 1867, o marquês de Queensberry introduziu regras no boxe e, uma delas, era o uso obrigatório de luvas. Outras duas regras limitavam o tempo e a duração da luta. Segundo a história (ou lenda) já aconteceram lutas de boxe, que eram feitas na rua, como brigas comuns, que duraram dois dias de pancada e as lutas tinham até 30 rounds, levando os lutadores ao limite da resistência física e humana. Mas, com referência ao combate de boxe mais longo da história, ele aconteceu no duelo entre os pesos leves americanos Andy Browen e Jack Burke, celebrado em New Orleans nos dias 06 e 07 de abril de 1893. O confronto durou 110 roundes, começando às 21h15 do dia 06 e terminando às 4h34 do dia 07. O desfecho foi surpreendente, uma vez que os dois boxeadores perderam o folego e não tiveram condições para prosseguir. Depois de acaloradas discussões, as autoridades, considerando o enorme sacrifício dos boxeadores, resolveram decretar o empate. Pelo regulamento, acreditamos já em vigor naquela época, a decisão deveria ocorrer na verificação das papeletas. Quem tinha vantagem depois dos 110 roundes deveria ser declarado vencedor. Contudo, os dirigentes acharam que o bom senso teria que prevalecer, e determinaram que os braços dos dois boxeadores deveriam ser erguidos. 


Tyson (à direita) e Evander Holyfield. Confronto histórico e começo da queda profissional
de Mike Tyson, talvez uma das maiores e mais agressivas feras do boxe peso-pesado

 Hoje o boxe, além da luvas e do protetor de dentes, segue à risca o peso dos lutadores para cada categoria e os assaltos podem durar até 12 rounds com intervalos de 3 minutos para restabelecer as forças do lutador, colocar gelo numa pancada mais forte, estancar o sangue com vaselina e ainda ouvir as recomendações do treinador....É fácil não?
  O boxe tem golpes  precisos, é disputado em área determinada pelas regras, um lutador é preservado. Quando vai à lona três vezes perde a luta. No caso de nocaute, é aberta a contagem pelo juiz de 10 segundos para o atleta se levantar e mostrar que tem condições de continuar. Tem golpes proibidos como na nuca, nas partes baixas e cotoveladas. E, quando um dos lutadores, mesmo sem cair, demonstra que não consegue mais se defender, seu treinador pode jogar a toalha no ringue ou o juiz irá interromper a luta, de qualquer forma.
  No boxe, como ficou mundialmente conhecido e praticado no Ocidente, somente se usa os punhos e a arte vem da maneira como o lutador aplica os golpes, que podem ser uppers (soco de baixo para cima), cruzado de direita ou esquerda, podem nocautear quando bem aplicados na fronte ou na lateral do queixo. O cruzado sempre é curto e potente. Se for mais aberto, ele é chamado de swing, e é mais fácil de ser evitado. E tem o direto, quando um dos lutadores percebe a abertura da guarda do outro ou consegue, devido à potência do soco, abrir essa mesma guarda.
  Estas são as artes dos golpes. Depois existem as artes das fintas, que é o jogo de corpo para se livrar de um golpe. Tem também a arte do jogo de pernas, a arte de mudar da posição destro para canhoto, confundindo a defesa do adversário e a arte da assimilação do golpe, para diminuir seu impacto. Tem também, por fim, a arte de cansar o oponente, circulando em volta dele, evitando seus golpes e o cansando ou então deixando-o levá-lo às cordas e aguentar a chuva de socos bem guardado, para quando o oponente, cansado de abater, baixar a guarda, acertá-lo da maneira mais precisa e forte possível, virando o jogo até levá-lo às lonas. Sugar Ray Leonard usava muito a tática do jogo de pernas e Muhammad Ali, a tática de deixar o adversário acuá-lo nas cordas, para depois partir e revidar.


 
 
 

  São muitos e incontáveis lutadores de boxe, Rocky Marciano, Jack Dempsey, Ali, Sugar Ray, Mike Tyson, Rubin Carter, Foreman, Joe Frazier e os nossos Miguel de Oliveira, Popó, Eder Jofre e Adilson Maguila Rodrigues. 
  Então, pode existir a cultura dos tailandeses em seu boxe violento, tipo vale tudo, como as lutas de MMA e podem existir até outros vários tipos de luta, como a luta livre, praticada também na antiga Grecia, mas até agora não foi criada nenhuma luta tão violenta como a dos gladiadores do Coliseu e nem tão técnica, bonita de se ver, cheia de charme e arte, como o boxe, que apesar da violência dos seus golpes, da cara feia dos lutadores no início, cada um querendo intimidar o outro, tem um carisma que nenhum esporte dessa natureza jamais teve.

(Na foto acima, George Foreman, fazendeiro, pastor e campeão mundial de boxe)

 

GRANDES MATÉRIAS
MUNDO SERTANEJO
NOSSOS HERÓIS
REVOLUCIONÁRIOS
ESPECIAIS
HOME PAGE
 
 
 
 
 
 

 

Sergio Ferraz - Todos os direitos reservados